Marta e Magda >> Alfonsina Salomão


        


            Marta não estava satisfeita com a cor dos cabelos. Certo, era ruivo, fiel aos seus fios e aos de Magda antes dos brancos chegarem. Mas era um ruivo austero, que refletia sobretudo o estado de espírito da irmã. Marta teria preferido um vermelho vivo. Não eram mais meninas, mas era motivo para renunciar à alegria de viver?

Pensara em reivindicar quando Magda mostrou a cor escolhida à cabelereira. Chegou a abrir a boca, mas as palavras não saíram. Sempre fora Magda quem decidira tudo, como mudar isso agora? Ainda por cima se tratando uma escolha tão importante quanto a cor dos cabelos... Agora estava arrependida, seria obrigada a ostentar o tom desesperançoso até a próxima visita ao salão, quando provavelmente se resignaria, mais uma vez, à escolha da irmã.

 

Magda nasceu quatro minutos antes e se apropriou inteiramente do papel de irmã mais velha. Nos ardores da juventude, era ela quem deliberava quais rapazes as cortejariam. Tinham que ser gêmeos, como elas. Deviam ser também bem-nascidos, bem-educados e bem aparentados. Tais exigências tornavam qualquer namoro quase impossível. Apenas uma vez encontraram um par de irmãos que correspondia aos pré-requisitos, mas, para desespero de Marta, a irmã declarou que tinham mal hálito. Marta passou dias deitada na cama, chorando o amor não realizado e entrevendo a existência solitária que levaria à sombra da irmã tirana.  Magda não se comoveu. A caçula era uma sonhadora incorrigível, cabia a ela protege-la dos sobressaltos de seu coração lunático. Aquele descabimento acabaria passando, como de fato passou. Ao cabo de duas semanas Marta saía do quarto, pronta para acatar as decisões de Magda.


De pé no ônibus, voltando para casa, Marta olhou para Magda e pela primeira vez a estranhou. Tinham a mesma altura, a mesma fisionomia, os mesmos cabelos recém-tingidos. Usavam a mesma blusa de algodão bege, a mesma calça de linho marrom, os mesmos sapatos encerados. A bolsa, também idêntica, estava dependurada no ombro direito de cada uma. Com a outra mão carregavam um saco de papel pardo, dentro de cada qual jazia o mesmo shampoo francês recomendado pelo cabelereiro. Cópia conforme de Magda da cabeça aos pés, Marta foi invadida pela convicção de que não cabia mais naquele modelo. Sentiu os olhares dos outros passageiros sobre elas e quis gritar: “Não se enganem, eu não sou ela, sou outra. Meus cabelos não são ruivo escuro, são vermelho fogo. Esses sapatos masculinos não correspondem à minha sensualidade”. Uma bola se formou no seu peito e subiu até a garganta, um calafrio lhe percorreu a espinha, suas mãos suaram frio. Então teve certeza: era agora ou nunca. Seria sensato, aos sessenta e três anos de idade, se libertar do jugo da irmã? Ainda haveria tempo para a leveza, ou até para o amor? Saberia escolher as próprias roupas todos os dias? Teria forças para decidir quem era todas as manhãs? 


A cabeça de Marta turbilhonava com estas indagações quando um grande impacto as projetou para a frente e para trás. Abriu as pálpebras com esforço e viu um riozinho vermelho vivo, da cor que imaginara para seus cabelos, fluindo do assento onde estavam até o corredor. Não saberia dizer se o riozinho se originava do seu corpo ou do corpo de Magda. Talvez viesse dos dois. Uma poça de sangue se formou no chão do ônibus. Marta a observou borbulhar com o cinza escuro da culpa. Aos poucos as borbulhas se acalmaram, deixando a poça com o aspecto de um lago sereno. Foi entao que, incrédula, Marta assistiu ao brotar de um cabo verde vivo, bem ali, no centro da poça de sangue, e ao desabrochou de uma magnífica flor de pétalas rubras.  

Comentários

Albir disse…
Essas amarras de toda a vida são difíceis de romper, mas nunca é tarde.
Carla Dias disse…
Essas conexões profundamente complexas, que não deixam espaço para uma olhadela de fora pra dentro, até que algo intenso aconteça. E se não acontece, a vida segue, desbotada.
Paulo Barguil disse…
O direito de ser quem se deseja. Um sonho acalentado por muitos e realizado por poucos. Ótimas reflexões, Alfonsina.

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