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Mostrando postagens de Abril, 2012

VELHICE << Kika Coutinho

Eu devia ter uns doze anos quando resolvi que ia gostar de futebol. Armada de uma camisa do Corinthians, uma dezena de opiniões fraquíssimas sobre o assunto, e uma dose de rebeldia, cheguei ao Pacaembu para um clássico daqueles. Era uma tarde quente de verão e, ao meu lado, torcia o São Paulino fanático, inimigo da partida, rival dos grandes, sentávamos lado a lado. Ele xingava, eu também, meu pai também, meu irmão mais ainda, os amigos dele idem. Era uma barbárie aquilo, mas, uma bárbarie em paz; quem diria? Depois de uma curtíssima temporada no assunto, guardo lembranças divertidas dessa época, e chego a duvidar que era assim. Perguntei outro dia para um amigo, entendedor do assunto: Posso jurar que vivi numa época em que não havia separação de torcida, nos estádios. Sonhei? Cherei ácido, ou o quê? - Envelheceu, respondeu meu colega, cheio de nostalgia - Até por achar que ácido se cheira, você realmente está fora da casinha - Completou. Ah tá. De fato. Houve um tempo em que as torc…

A ORDEM NATURAL DAS COISAS >> Whisner Fraga

Em Ituiutaba havia uma classe de trabalhadoras muito dedicadas, com uma clientela mais ou menos fixa e com mais ou menos as mesmas características. Essas profissionais não tinham, segundo elas próprias, o direito de cobrar atendimento, consultas ou como se chamassem os encontros com os clientes. Cobrar seria tirar vantagem de um dom que lhes havia sido dado gratuitamente. Minha mãe e todas as vizinhas suas amigas e parentes com quem tinha contato, frequentavam alguém do ramo. Eram conhecidas como “ledeiras de sorte” e tinham a habilidade de prever o futuro, desvendar o passado e, assim, aconselhar, baseando-se no que descobriram.

Quando fui prestar vestibular, no final dos anos 1980, fiquei em uma pensão em Uberlândia. A dona, além de empresária, jogava tarô e búzios. Eu nunca tivera curiosidade sobre os fatos de minha vida que ficaram para trás ou que me esperavam adiante, mas a insistência da comerciante quase me fez querer uma consulta. Resisti, pois viajava com o dinheiro contado…

VIROSE [Carla Cintia Conteiro]

Os estadunidenses estão começando a ficar encafifados com o aumento exponencial de casos diagnosticados de autismo dentro de suas fronteiras. Estão se questionando, pois talvez seja possível a indústria médico-farmacêutica ter alguma coisa a ver com fato de cada vez mais sintomas ou coisas antes conhecidas como características de personalidade, como introspecção, caberem sob o guarda-chuva de um diagnóstico tão bombástico. O mesmo acontece com depressão, TDHA, síndrome do pânico ou qualquer outra enfermidade levemente indefinida, mas que utilize medicamentos caros e de uso prolongado ou vitalício.

Embora também vejamos estas enfermidades em terras brasileiras, por aqui a epidemia é outra. Muitos afirmam que as autoridades deveriam tomar providências para evitar o crescente surto de virose. Pode ir a qualquer posto médico, emergência de hospital, UPA e conferir: a incidência de virose é altíssima. Se o sujeito não tiver sido resgatado de um carro em chamas, quase ao ponto de virar chur…

APAIXONADA MA NON TROPPO>>Zoraya Cesar

Ela tinha quase 70 anos, era gorda, mal cuidada. Não por falta de dinheiro, ao contrário, era viúva rica. Apenas não era vaidosa. Bem, dizer que não era vaidosa é uma inverdade. Odete era relaxada mesmo. Não fazia a mínima questão de se cuidar, nunca fizera um exercício na vida e jamais passara um creme no rosto sequer.
As roupas? Caríssimas, compradas nas lojas mais elegantes. Porém de um mau gosto atroz. Se Odete fosse homem, poderíamos dizer que ela se vestia como um bicheiro gordo. Mas ela é uma mulher, e é muito importante para nossa história que não esqueçamos disso, portanto, não vamos falar em bicheiros. Nem em gordos (até porque esse fato realmente não é tão fundamental assim, é só para dar uma ideia da figura de Odete ao amigo leitor)
Como resultado de seu desleixo estético, era chamada de “tribufu” pelas costas (inclusive pelo próprio o marido, uma baixaria). Odete se cuidava mal mas tinha uma saúde de ferro. Ferro, alumínio, zinco, tudo estava em ordem (e o marido, que era…

PISE NA GRAMA >> Fernanda Pinho

Quando cheguei em Santiago pela primeira vez, umas das diferenças que observei de cara foi que as pessoas pisavam na grama. Das praças, dos parques, dos canteiros. Sem pudor, sem constrangimentos, sem o comportamento suspeito de quem está sendo vigiado ou fazendo alguma coisa errada. - Aqui as pessoas pisam na grama? - Perguntei, inocentemente surpresa. - Claro! - Foi a resposta que ouvi junto com um olhar de "que pergunta louca é essa? Isso não é óbvio?". Não. Não é óbvio para mim que, no Brasil, me acostumei às repressivas e antipáticas placas de "Não pise na grama". 
Continuei a observar com admiração e até uma certa inveja aquelas pessoas que não pisam na grama para cortar um caminho, enquanto não tem ninguém olhando, mas que usufruem da grama descaradamente. Tiram um cochilo, fazem meditação, dormem, leem, jogam conversa fora. Ali, na grama. Como também acontece em Londres, Paris e outras cidades onde as autoridades não estão muito atentas a esses meliantes…

SEXTO CAPÍTULO >> Carla Dias >>

Desde muito jovem, vem desempenhando um papel importante na vida de pessoas que precisam de organização, de alguém que as ajude em decisões importantes. Foi assim que se tornou funcionária exemplar quando exercia as funções, em diferentes estabelecimentos, de estoquista, designer de vitrines, almoxarife, governanta e bibliotecária, a última, mais pela paixão pelos livros do que pelo dom de organizar e decidir pelo outro. Ainda assim, nunca foi tão fácil de se encontrar um livro na biblioteca municipal do que no período em que ela trabalhou lá.
À noite, quando a insônia lhe embaralha os pensamentos, sai de casa para uma volta pelo quintal. A necessidade de andar descalça, de roçar as solas dos pés na terra e na grama, de sentir a vida lhe tocar a contento, é frequente e insolente, porque quando se apresenta, não quer nem saber das confusões que causa. Sendo assim, os vizinhos já se acostumaram a vê-la caminhando em círculos pelo seu quintal, descalça e descabelada, e em dias mais insp…

42, POR FAVOR >> Clara Braga

Recentemente eu li em algum lugar, não consigo me lembrar exatamente onde, mas isso também não importa, uma declaração do Wagner Moura sobre casamento. Na declaração, que deve fazer parte de alguma entrevista que ele deu, ele dizia que considerava o casamento a instituição mais moderna que existe, pois hoje em dia só casa quem quer e por amor, nada mais obriga uma pessoa a estar com a outra, só o amor.

Eu, na maioria das vezes, acho essas coisas sobre casamento um pouco bregas, muito bonitas, mas bregas. Mas como li essa declaração um dia antes de ser madrinha do casamento de uma grande amiga minha, acabei achando lindo, nada brega!

Ah, vocês vão ter que concordar comigo, não é lindo? Ela ia casar, ia dizer: “Sim, eu quero passar o resto dos meus dias com você” para o noivo dela e, segundo o Wagner Moura, ela ia fazer isso por nada mais nada menos que amor! Nossa, vamos fazer um filme sobre isso!

Oops, esqueci, filme sobre isso é o que mais tem, inclusive é possível que tenha algum com o…

OLHOS E CADERNOS >> Albir José Inácio da Silva

Naquele começo dos sessenta, meninas não falavam nem escreviam certas coisas. Mas a coisa foi escrita no caderno e lida pela mãe e depois pelo pai de uma delas. Era uma dessas piadinhas que misturam palavras e desenhos com um significado meio bobo e meio sexual, o que foi considerado uma afronta pelos genitores.

Na sala, a diretora, o pai e a professora, numa espécie de inquérito, olhavam o caderno, falavam baixo, consideravam. Beto era o único menino nas carteiras da frente, cercado por cinco meninas. Essa localização era determinada pelos resultados da última prova, e ele sempre conseguia ficar por ali. O caderno foi mostrado a cada um deles, enquanto seus rostos eram demoradamente examinados pelos investigadores.

Beto estava tranqüilo por duas razões: ele não tinha escrito aquilo e suas garatujas em nada se pareciam com aquelas delicadas, redondas e femininas letrinhas colocadas no papel. Por isso, deve ter olhado um tanto desafiadoramente para os investigadores, que logo retornaram…

DIA DO DESCOBRIMENTO DA IRMÃ
>> Eduardo Loureiro Jr.

Quando minha primeira irmã nasceu, eu não estava preparado para amá-la. Eu tinha 1 ano e 9 meses e a recebi como uma ameaça, uma verdadeira inimiga na luta pelo carinho e pela atenção de meus pais. Só muitos e muitos anos depois, graças — literalmente — a Deus, consegui sentir amor por minha irmã mais velha e admirar suas qualidades: beleza, comunicação, entusiasmo, garra e, principalmente, generosidade — Karina  me amou desde o início, enquanto eu ainda lutava para amá-la.

Antes que eu conseguisse tal feito, nasceu minha irmã mais nova. Quando Sabrina apareceu, eu tinha já 11 anos. Minha mãe chegou a ameaçar, algumas vezes, amarrar eu e Karina para ver se ficávamos mais unidos, mas no fim, com o auxílio de meu pai, resolveu trocar as cordas por uma irmã. Método mais eficiente, sem dúvida. Eu me apaixonei por Bina instantaneamente. É a criança mais linda que já vi em minha vida. Uma beleza simples, natural, sem adereços, feita de pura graça.

Eu gostava de me deitar na cama, de frente …

BURACO DE MINHOCA [Carla Cintia Conteiro]

“Em física, um buraco de verme ou buraco de minhoca é uma característica topológica hipotética do continuum espaço-tempo, a qual é, em essência, um ‘atalho’ através do espaço e do tempo.”
Fonte: Wikipedia

Foi com certo pavor que descobri que o que eu queria não existia. Não era a primeira vez que aquela sensação de registro pirográfico tomava conta de mim. Sabia que, mesmo depois de muitos anos, lembraria daquele exato momento em que me dei conta da impossibilidade de materialização daquele desejo específico.

Nos outros momentos de buraco de minhoca da minha vida, entretanto, senti apenas o registro e não uma efetiva e imediata mudança. Aqueles instantes apenas ficaram registrados e se tornaram referência, uma espécie de janela, quando preciso me reportar a alguma época específica.

Acho que aprendi com meu pai a armazenar certas recordações como se fossem índices da minha história. Estávamos à janela de um prédio na Avenida Rio Branco, no Centro do Rio de Janeiro, era 1970. Ele aponto…

GRANDES ESTREIAS >> Fernanda Pinho

É difícil sair do nosso ambiente e encarar o novo sem levar na bagagem alguma carga de preocupação. Cheguei a Santiago trazendo duas preocupações bastante específicas. Situações com as quais, eu sei, não me sentiria à vontade para o confronto. Pois em menos de três semanas, tive que encarar as duas.
A primeira eu sabia que não haveria como escapar por muito tempo: comer abacate na comida. Ciente da alta aplicabilidade do fruto (?) na culinária chilena eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, teria que vencer minha resistência e, enfim, experimentar. Eu já havia feito a tentativa anos antes, num restaurante mexicano, quando me serviram guacamole com sei lá o que. Para minha cabeça pouco elaborada gastronomicamente falando, era puro e simplesmente abacate com feijão. Detestei, mas me garantiram que o abacate daqui (ou palta, como dizem) era diferente, mais oleoso etc e tal. Pelo menos na experiência chilena não tinha feijão. Mas tinha frango. Uma pasta de frango recheando a metade de um …

MIL E UMA COISAS >> Carla Dias >>

Aperte o play e leia com trilha sonora.

ADAM HURST - Sparrow


Não, meu bem. Não é que mil e uma coisas acontecem de repente em sua vida, e ao mesmo tempo. Não há plano divino destinado a bagunçar a sua cabeça, a embaralhar os seus pensamentos. Não são os demônios contratados, vez ou outra, para tecerem a impaciência no seu espírito sempre tão sereno.
Na verdade, é você que, às vezes, acorda para as mil e uma coisas que acontecem o tempo todo ao seu redor, mas que são ignoradas com a ajuda das distrações que cultiva para amenizar a sua jornada existencial.
Então, neste de repente equivocado, os carros passam mais rápido por você, e parecem muitos, mais do que você já vira antes. As pessoas esbarram em você, e são muitos os olhares aborrecidos com essa colisão, afinal, a intimidade forçada intimida, desacata o direito a passar despercebido.
E você é dos que aprecia ser anônimo nos grandes feitos. Talvez por isso sinta que o “tudo ao mesmo tempo agora” lhe persegue, e justamente no prelúdio do…

PRECONCEITUOSA? EU NÃO! >> Clara Braga

A vida tem essa mania abusada de dar umas rasteiras na gente que acabam nos colocando em nossos devidos lugares.

Eu mesma vivo dizendo algo muito perigoso de se dizer, mas que até então eu não sabia que era tão perigoso assim. Costumo dizer que não sou preconceituosa, que aceito tudo numa boa e que sou uma pessoa ótima por isso.

A verdade é que está para nascer uma pessoa que seja 100% livre de preconceitos, mas como a palavra preconceito está carregada de significados ruins, a pessoa preconceituosa é quase um monstro, ninguém tem muita coragem de dizer que tem preconceitos, e eu não sou diferente. Mas no fundo, acho que monstro mesmo são as pessoas que usam esse preconceito pra fazerem mal aos outros, de resto, estamos bem, faz parte de nós ter um ou outro preconceito com alguma coisa.

Mas deixando um pouco de lado essa conversa de quem é e quem não é preconceituoso, vamos nos ater ao fato da vida ser abusada e dar rasteiras na gente.

Eu não sei qual foi a repercussão de uma propaganda d…

A COMPAIXÃO E A LOUCURA >> Whisner Fraga

Toda cidade tem as suas personagens pitorescas, aquelas pessoas que fazem parte do folclore local. Em muitos casos, esses cidadãos têm alguma doença ou um distúrbio psíquico ou mental e suas ações, enigmáticas para nós, indivíduos que pagam impostos, são alvo de chacotas e ironias. Isto é, esses “loucos bons” servem como desculpa para uma piada, para uma brincadeira e para deixar o dia “mais leve”. Assim, como não podem compreender que são objeto de escárnio, passam a impressão que não possuem sentimento, o que pode levar alguém a pensar que há algo de bom na loucura. Traduzindo: o louco não se recordaria das maldades, dos sofrimentos e, portanto, não seria capaz de guardar mágoas.

Só que não há nenhum glamour na demência, por mais que alguns escritores ingênuos tentem mostrar o contrário, por mais que cineastas idealizem o comportamento das pessoas imersas nesse mundo paralelo, por mais que a população pense que é bom não atinar com o mal que as pessoas lhe fazem, pelas costas ou nã…

PARA A RIO + 20 [Heloisa Reis]

Eu estive no Forum que, em 1992 aconteceu no aterro do Flamengo em paralelo à Conferência Mundial para o Meio Ambiente - a Eco92 – que tratou de assuntos importantíssimos para a preservação da vida no planeta.

Desse evento saíram documentos importantes, acordos entre nações que embora sem unanimidade giravam em torno da premência de mudanças de atitudes em busca da preservação da vida, da erradicação da pobreza, dos direitos humanos.

Passaram-se 20 anos daqueles dias em que, em companhia de muitos jovens estudantes entusiasticamente eu mostrava como a união de pessoas em torno de um ideal pode fazer a diferença.

Passaram-se 20 anos do momento em que de mãos dadas formamos um cordão de isolamento para dar passagem ao Dalai Lama que visitou o veleiro Rainbow Warrior em cujo mastro amarrou uma “khata” abençoando-o e a todos nós que acreditávamos com o coração na união em torno dos ideais de justiça, amor e benevolência. De lá saímos com uma sensação de dever cumprido, de bons ventos sop…

BEIJO >> Zoraya Cesar

Suely, eu vou confessar uma coisa, você é minha melhor amiga, e eu preciso falar com alguém. Não precisa fazer essa cara, não estou doente, graças a Deus. Suely, eu beijei um homem e não era o Paulo. Como assim, não entendeu? Eu beijei um estranho. Beijei e fui beijada. Na boca, Suely, na boca. E foi tão bom que eu não paro de pensar nisso. Não, não estou tendo um caso! Eu lá sou mulher de ter caso? Jogar fora 37 anos de um casamento que me custou suor e lágrimas? De jeito nenhum. Sei que foi uma loucura, mas... hein? Claro que não levei pra terapia! Tá doida? Pra ela analisar minhas pulsões sexuais e traumas de infância e tirar toda a graça do negócio? Nem morta! E falando em graça do negócio, Suely minha amiga, ele era uma coisa de bonito e ... Suely, pare de ficar dando gritinhos ridículos, ou eu não conto mais nada. Ele devia ter uns 30 anos, se tanto. Sei que estou com 62 anos, não precisa fazer sermão. Estou cansada desse negócio de ser obrigada a ter comportamento “condizent…

AMOR EM PORTUNHOL >> Fernanda Pinho

Eu nunca pensei que fosse me mudar de cidade, muito menos de país. E, ultimamente, todas as coisas que eu tenho dito começam assim: Eu nunca pensei que fosse me mudar de cidade, muito menos de país. Acho que ando abobalhada com as surpresas da vida, que vieram para mim em atacado. Eu também nunca pensei que existisse o nosso homem ideal, o nosso príncipe encantado. O que nunca me impediu de sonhar com ele. É claro que eu sonhava. Mas eu sonhava com ressalvas, com os dois pés no chão e a consciência de que um dia eu conheceria alguém totalmente diferente do homem dos meus sonhos, que me cederia um pouco de amor e eu me daria por satisfeita.
Mas eu sempre gostei de sonhar. E, ainda que supostamente consciente da realidade, sonhava. Com um libriano (só alguém do meu signo me entenderia), de olhinhos puxados (um leve complexo por ter os olhos grandes demais?), com sotaque espanhol. Esse último quesito, quase um fetiche, talvez tenha sido o que me motivou a estudar espanhol quando 90% do…

QUINTO CAPÍTULO >> Carla Dias >>

É um homem elegante, muito bem educado, intelectualmente atinado. Uma e outra mãe de filhas solteiras já consideraram fisgá-lo como genro, chegando mesmo a tramarem encontros casuais nada casuais, com os quais ele lida sempre de forma agradável. Porém, na convivência breve com ele, durante um jantar ou um café na tradicional padaria da esquina, mães e filhas acabam percebendo que, olhando assim, de perto, ele também é um belo homem, sustentando com um ar rude, que mais encanta do que bota medo, e os cabelos levemente desalinhados acentuando o seu charme.
O que elas não sabem, mas acabam por descobrir em dois tempos, é que o tal homem, sempre com um sorriso gentil nos lábios, está pra lá de condenado para relacionamentos pela sua profissão. Não há mulher, mãe ou filha, por mais desesperada que se sinta, que aceitaria o desafio de fazer parte da vida dele. Sendo assim, após o encontro casual nada casual, elas sempre voltam para as suas casas, e não somente desapontadas pela busca vã, mas…

O PERIGO PODE ESTAR AO LADO >> Clara Braga

Com certeza todo mundo já ouviu aquela máxima que diz que a única certeza da vida é a morte.

Eu não concordo, e ainda assumo que tenho muito preconceito com essas generalizações que todo mundo tem mania de fazer, mesmo sabendo que até para dizer que eu tenho preconceito com generalizações eu acabo generalizando. Parece inevitável!

Mas o meu maior preconceito mesmo, são essas pessoas que ficam tão atordoadas com essa ideia de vida e morte que acabam deixando de viver com medo da morte, mesmo sabendo que, até hoje em dia, ela é inevitável.

Concordo que nós podemos ser cuidadosos e evitar algumas situações perigosas que possam terminar em tragédia, como por exemplo, sempre atravessar a rua na faixa depois dos carros terem parado, não ficar dando sopa na rua em lugares escuros e que todo mundo sabe que são perigosos, tentar ter uma alimentação saudável e deixar para exagerar só no final de semana, fazer exercício regularmente, não tomar bebidas que já estavam abertas quando chegaram até nós…

AGOSTO DE ABRIL >> Albir José Inácio da Silva

O rádio era o objeto mais importante da casa e ficava em cima da cristaleira para que as crianças não o alcançassem. Já existia televisão, mas pra nós só era possível imaginar um rádio que mostrava figuras.

Nem o rádio entendíamos bem o que era, nem o que dizia. Gostávamos das músicas, mas as palavras eram difíceis e entrecortadas por ruídos e chiados que obrigavam os adultos a ficarem de pé junto à cristaleira. Olhando para cima, eu tentava decifrar as caras, os gestos e os comentários daquela gente.

E as caras ficavam muito preocupadas, principalmente depois do toque que introduzia a voz grave do locutor: “Aqui fala o seu Repórter Esso em edição extraordinária...”. Naquele vinte e cinco de agosto a bomba era a renúncia de Jânio Quadros. Renúncia eu não sabia o que era, mas Jânio Quadros eu já ouvira muitas vezes.

A música da vassourinha durante a campanha não me deixava esquecer. Antes a cara dos meus adultos ficava boa quando se falava nele. Era a esperança, diziam, depois que Vargas …