domingo, 29 de abril de 2012

A ORDEM NATURAL DAS COISAS >> Whisner Fraga


Em Ituiutaba havia uma classe de trabalhadoras muito dedicadas, com uma clientela mais ou menos fixa e com mais ou menos as mesmas características. Essas profissionais não tinham, segundo elas próprias, o direito de cobrar atendimento, consultas ou como se chamassem os encontros com os clientes. Cobrar seria tirar vantagem de um dom que lhes havia sido dado gratuitamente. Minha mãe e todas as vizinhas suas amigas e parentes com quem tinha contato, frequentavam alguém do ramo. Eram conhecidas como “ledeiras de sorte” e tinham a habilidade de prever o futuro, desvendar o passado e, assim, aconselhar, baseando-se no que descobriram.

Quando fui prestar vestibular, no final dos anos 1980, fiquei em uma pensão em Uberlândia. A dona, além de empresária, jogava tarô e búzios. Eu nunca tivera curiosidade sobre os fatos de minha vida que ficaram para trás ou que me esperavam adiante, mas a insistência da comerciante quase me fez querer uma consulta. Resisti, pois viajava com o dinheiro contado e o atendimento poderia me custar um almoço. Até hoje não pedi a ninguém que me jogasse uns búzios ou que lesse meu destino nas cartas do tarô ou mesmo revelasse meu porvir encoberto em algum salmo ou em outro subterfúgio. Mas alimento uma curiosidade sobre o tema.

Há algum tempo percebi que essa ânsia de acreditar no sobrenatural é bastante humana. Até nossos políticos têm o seu médium particular. Caso de Lula, por exemplo, que já viajou algumas vezes até Abadiânia para consultas com João de Deus. Às vezes podemos pensar que os norte-americanos são mais avançados do que nós neste quesito, mas não é verdade. Prova disso é que a famosa Oprah Winfrey foi até a pequena cidade goiana para testemunhar e divulgar os feitos de João de Deus.

Eu sempre busquei o sobrenatural, mas para meu azar, nunca encontrei. Talvez ele se mostre apenas para os que não o procuram. Certa vez um amigo, muito cético, foi a um a terreiro, em que haveria um ritual de magia negra e disse que voltou de lá consternado, atônito com o que vira. Não duvido dele não, mas queria ter estado lá para não ter de acreditar somente em seu relato.

Acho que tudo é uma questão de fé e isso eu não posso respeitar. As pessoas que têm fé e zombam da lógica se acham iluminadas, escolhidas que foram por qualquer entidade superior que se diverte com suas marionetes. E em nome dessa superioridade se acham no direito de tudo, inclusive de acreditar em Deus e em videntes. Outro dia, conversando com uma senhora, ela me disse que um padre lhe garantiu que existem pessoas com o dom de prever o futuro, o que vai de encontro a tudo que os livros sagrados pregam.

Voltando às ledeiras de sorte, são pessoas que, em geral, não possuem avançada educação formal – o que sabem é de ler o mundo e tentar interpretá-lo, o que, honestamente, acho muito válido. E já conversei com muitas delas, de forma que posso atestar que acreditam no que fazem. Para mim, a honestidade é meio caminho andado para se chegar a algum lugar, bom ou ruim, dependendo da intenção e da patologia. É interessante que elas não cobrem nada, mas que aceitem uma doação ou outra, um mantimento ou outro, um ou outro agrado, pois é bacana ajudar quem precisa.

É salutar que procuremos aquilo que está além do normal, que busquemos respostas que justifiquem a vida e que nos deem esperança para enfrentarmos a falta de sentido em tudo de maneira serena, mas não podemos nos esquecer que o sobrenatural está no racismo, no desrespeito aos direitos do próximo, no assassinato, no roubo e em tantas outras atrocidades inventadas pelo homem.

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2 comentários:

Anônimo disse...

Olá cara cronista. Apenas gostaria de lhe perguntar: Não respeita quem tem fé. Olha, talvez você não queira respeitar que faz abusos em nome da fé, quem usa a fé como dilema de base moral mas a fé não tem nada a ver com os adjetivos negativos que tu colocaste. Fé é uma experiência pessoal, e não uma ação inter-pessoal.

Obrigado.

Zoraya disse...

Oi Whisner! Gostei da leitura de sobrenatural que você fez, ligando o sentido da palavra à falta de sentido das atrocidades humanas, legal demais. Mas, puxa, vou confessar, sou uma mulher de fé e de artes mágicas, vamos conversar qualquer dia! Beijos