terça-feira, 17 de abril de 2012

PRECONCEITUOSA? EU NÃO! >> Clara Braga

A vida tem essa mania abusada de dar umas rasteiras na gente que acabam nos colocando em nossos devidos lugares.

Eu mesma vivo dizendo algo muito perigoso de se dizer, mas que até então eu não sabia que era tão perigoso assim. Costumo dizer que não sou preconceituosa, que aceito tudo numa boa e que sou uma pessoa ótima por isso.

A verdade é que está para nascer uma pessoa que seja 100% livre de preconceitos, mas como a palavra preconceito está carregada de significados ruins, a pessoa preconceituosa é quase um monstro, ninguém tem muita coragem de dizer que tem preconceitos, e eu não sou diferente. Mas no fundo, acho que monstro mesmo são as pessoas que usam esse preconceito pra fazerem mal aos outros, de resto, estamos bem, faz parte de nós ter um ou outro preconceito com alguma coisa.

Mas deixando um pouco de lado essa conversa de quem é e quem não é preconceituoso, vamos nos ater ao fato da vida ser abusada e dar rasteiras na gente.

Eu não sei qual foi a repercussão de uma propaganda de cerveja que eu recebi faz um tempo por e-mail, mas lembro de ter me espantado com uma criatividade fantástica que eu já não via há muito tempo em propagandas. Era mais ou menos assim, duas pessoas compravam ingressos para o cinema, mas quando entravam na sala para onde foram encaminhadas se deparavam com uma sala lotada daqueles homens grandes, que um braço é do tamanho das minhas duas pernas juntas, com a cara super mal encarada, que mais parecia que nunca tinha sorrido na vida e com o corpo tatuado da cabeça aos pés. Exatamente no meio da sala, no meio desses homens todos que não estavam nem um pouco dispostos a abrir espaço para você passar, estavam os únicos dois lugares vagos na sala. Algumas pessoas desistiam de ver o filme, assustadas com os caras, e poucas, mas muito poucas pessoas entravam numa boa e iam se sentar em seus lugares. Essas que sentavam tinham uma surpresa, um holofote se acendia em cima delas e todos os caras do cinema começavam a aplaudir e entregavam para eles, que não tinham sido preconceituosos, a tal cerveja que mereciam.

Depois de ver a propaganda e achar genial, você começa a se questionar como seria a sua reação, será que eu sentaria ou iria embora? Eu cheguei a conclusão de que sentaria, que bobagem, deixar de ver um filme só porque a sala toda está lotada de caras mal encarados? Eu não!

Passou-se um tempo e eu já nem lembrava mais dessa propaganda. Até que um dia fui chamada para tocar em um moto clube. Chegando lá só tinham caras mal encarados com jaquetas de couro, barbas enormes, caras fechadas, braços do tamanho das minhas pernas, tomando cervejas, jogando sinuca e exibindo suas maravilhosas motos. Os meninos da minha banda se sentiram em casa, enquanto eu só queria fingir que não tinha encontrado o lugar e ir embora. Fiquei morrendo de medo, comecei a repensar o set list da banda e imaginar que tinham músicas muito pop para o ambiente, já conseguia imaginar eles reclamando das músicas e tacando as latinhas de cerveja na gente! Estava em pânico!

Bom, mas não tinha jeito, tinha que sair do carro e encarar os caras. Saí do carro e fui tirar a bateria para levar pra dentro do moto clube. Cadê minha bateria? Eles já tinham vindo junto com os meninos da banda, tirado tudo do carro, levado tudo pra dentro, já tinham aberto uma mesinha do lado do palco, colocado cerveja para a gente tomar, colocado caldo para a gente comer antes de tocar, fizeram questão de nos deixar super a vontade e ainda disseram que qualquer coisa que a gente precisasse era só falar, eles estavam lá dispostos a resolver o que fosse para a gente!

Meu queixo caiu! Nessa hora percebi que eu não teria entrado no cinema cheio de caras “esquisitos”, eu teria pulado fora por causa de preconceito bobo. Algumas pessoas podem se justificar dizendo que é questão de segurança, que hoje em dia o mundo está muito perigoso para ficar dando mole, mas não, é preconceito mesmo, a gente olha para as pessoas e já acha que sabe dela melhor do que elas mesmas, sem nem se dar ao trabalho de conhecer a pessoa.

A sensação de uma pessoa super legal que não tem preconceitos morreu, mas a cada dia venho aprendendo um pouco mais a me dar a chance de conhecer pessoas antes de julgar quem elas são por conta própria, e acreditem, só de tentar deixar esse preconceito de lado e ter essa nova atitude, seja com pessoas mal encaradas ou simplesmente com pessoas diferentes de mim, tenho conhecido pessoas maravilhosas! Recomendo a todos!

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2 comentários:

whisner disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
whisner disse...

oi Clara, gostei da sua crônica. O importante é estar aberto a aprender e a superar os preconceitos. Estereótipos nos são ensinados minuto após minuto, alguma coisa fica na nossa mente. Eu também acho que não entraria no cinema não, mas depois desta sua crônica, eu acho que encararia sim. Abraços! Parabéns.