domingo, 1 de abril de 2012

RETRATOS CRUÉIS DA LEITURA
>> Whisner Fraga

A crer nos resultados da terceira pesquisa do Ibope/Instituto Pró-Livro, Retratos da Leitura no Brasil, e não há motivo para não acreditar neles, o país do samba e do futebol vai muito mal no quesito cultura. Que nossos concidadãos leem pouco é senso comum, o tiozinho bebendo uma Brahma no bar da esquina já sabe. Mas ser esbofeteado com números, com provas, é outra história. 75% da população jamais estiveram em uma biblioteca. O brasileiro leu, em média, em 2011, 2 livros por ano, entrando nessa estatística as obras didáticas e as pessoas com cinco anos ou mais. Apenas metade de nosso povo lê. Isso depois de anos e anos sendo torpedeado cotidianamente com notícias de programas de incentivo à leitura. Na França, se leem sete livros ao ano, só para comparar.

Os livros mais citados na pesquisa foram a Bíblia, Ágape, A Cabana, Crepúsculo, Violetas na janela, nessa ordem. Paulo Coelho, nosso maior best seller, só aparece em décimo-terceiro. Ou seja: mesmo os que leem, leem mal. Entre as principais desculpas para fugir da leitura, são citados a falta de tempo, o desinteresse e a falta de paciência. 60% dos entrevistados que são leitores nunca ganharam um livro de presente. Dos leitores, 43% disseram que o que os levou a ler foi o exemplo da mãe. 87% dos não-leitores nunca viram os pais empunhando um livro.

Ora, o raciocínio é simples: podemos parar de jogar dinheiro fora, algo não está funcionando. Chega de incentivo a editoras, basta de orçamento para compra de obras pelo governo federal, fim de verbas para novas bibliotecas. Eu acredito que de nada adianta toda essa boa-vontade, se não foi transformada em resultado. São incentivos atrás de incentivos e ainda assim houve uma piora nos números, se compararmos os resultados de 2007 com os de 2011. O brasileiro não gosta de ler. O brasileiro aprendeu a gostar ainda menos de ler. Ponto final. Que pague o preço por sua ignorância. O país vai bem, cresce a astronômicos 3% ao ano, pagou sua dívida externa, tirou da miséria boa parte de sua população, é uma das maiores economias do mundo, importa tudo que precisa da China, então ler para quê? Primeiro e mais importante: o que tudo isso tem a ver com leitura?

Leitura é um desafio que os inconformados se impõem, a leitura é uma busca, daqueles que raciocinam, por respostas para suas inquietações, que vão além do óbvio e do senso comum. Para estes, o desejo de superar as limitações impostas pela preguiça é o que os leva rumo ao conhecimento, à cultura. A cultura é um negócio sagrado, pois nos provém de liberdade. A cultura não nos traz emprego, não nos traz dinheiro, não nos traz sequer a felicidade, mas nos traz, de maneira definitiva, decisiva, efetiva, a liberdade. Eu só considero livre aquele que consegue pensar além dos clichês, que pode, com a maravilha das sinapses que lhe foram concedidas gratuitamente, imaginar um argumento para qualquer paradoxo da vida. Que busca sua própria resposta para sua própria questão.

Não acho que o exemplo dos pais seja fundamental para que os filhos sejam leitores. Não penso que o esforço de um professor logre algum sucesso na formação de amantes dos livros, pois a influência externa é muito maior. A nossa sociedade, de um modo geral, abomina o trabalho que dá desvendar uma obra literária ou um jornal ou um artigo científico, e essa sociedade é onipresente, ela está espalhada por todo canto. De que adiantam duas horas diárias rodeadas por livros, se o restante do dia nossas crianças se veem rodeadas de imbecilidade? Sempre brinco com meus alunos que o Brasil é um fornecedor de matéria-prima para o mundo e essa matéria-prima não é inesgotável. Se Deus é brasileiro, talvez paguemos algum dia, com nossa água, o ônus da incompetência e da preguiça.

Para nós, escritores, é especialmente triste saber que temos poucos leitores, que nosso país, apesar de consumir bens de/em todos os cantos do mundo - que tampouco trazem a felicidade - é um país de escravos, que cedem facilmente a sua capacidade de raciocínio ao argumento do desinteresse. Termino com uma frase atribuída a Erasmo de Roterdã. Embora eu tenha dúvidas a respeito da autoria, acho bem interessante a citação: “Quando tenho algum dinheiro, compro livros. Se ainda me sobrar algum, compro roupas e comida.” Só me interesso por pessoas que pensem assim.

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8 comentários:

Fernando disse...

Os investimentos deveriam ser aplicados com mais intensidade entre as crianças em idade de alfabetização. É ali que tudo começa. É ali que se formam os leitores em potencial. O hábito da leitura tem que ser implantado nos pequeninos. Se isso começar a ser feito hoje, daqui aproximadamente uns 15 anos as estatísticas melhorarão consideravelmente.

Anônimo disse...

whisner,
como sempre voce tem razão. Já ofereci livros a pessoas que não o aceitaram.

abraços,
enio.

Zoraya disse...

Whisner, que tristeza, também li a reportagem que carimba de uma vez nossa fama de malandros. Nã lemos porque sempre podemos dar um "jeitinho", e pensar dá trabalho. Gostei do que você disse, cultura nos dá a liberdade. Mas a liberdade tem um preço, que é o inconformismo com os clichês de ignorãncia, é sair do lugar comum e isso também dá trabalho. Em breve estaremos escrevendo apenas para outros escritores, e nao mais para leitores. Parabéns pela crônica.

whisner disse...

Fernando, eu não sei, honestamente, se isso basta. Porque quando essas crianças saem para o mundo, estão cercadas de ignorância. De que adianta o professor ler para o pequenino se em casa os pais detestam ler, se no ônibus ninguém lê, se não se vê ninguém na praça lendo um jornal, se as bibliotecas ficam vazias? Abraço!

whisner disse...

Enio, oferecer livro é como oferecer trabalho às pessoas e é considerado presente de grego. Experimente dar 50 reais em vez do livro e vc vai ver um grande sorriso na cara do presenteado. Abraço!
Zoraya, eu acho que já estamos escrevendo apenas para escritores... Abraço!

Vicente Lima disse...

Peço, não, suplico para todos os escritores, desta nação, não deixarem de tecer saberes, alegrias, emoções. Hoje, eu, jovem de 17 anos já vividos, começo a ver a vida de forma mais lasciva e bela, por que a um, ou dois anos, venho entrando no mundo literário, e fico triste, às vezes choro - realmente choro - sabendo quanto tempo, eu perdi que perdem e perderão, às minhas caçulas. Por favor, nunca desistam de escrever.

whisner disse...

Vicente, obrigado pela leitura. Não deixaremos de escrever não, somos cabeçudos. Abraço!

Kika disse...

Whisner,
belo texto.
Como leitora assídua e como mãe, ainda acredito que é possível disseminar o gosto pela leitura para aos que vieram depois de nós.
Não sei se não adiantaria que os pais lessem mais. A sociedade adulta é feita, em sua maioria, de pais e mães. Eu esperaria que isso tivesse sim, algum poder, ainda que pequeno - já que a imbecilidade realmente é forte concorrente...
Na dúvida, permanecerei tentando!
beijos.