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DIA DO DESCOBRIMENTO DA IRMÃ
>> Eduardo Loureiro Jr.

Quando minha primeira irmã nasceu, eu não estava preparado para amá-la. Eu tinha 1 ano e 9 meses e a recebi como uma ameaça, uma verdadeira inimiga na luta pelo carinho e pela atenção de meus pais. Só muitos e muitos anos depois, graças — literalmente — a Deus, consegui sentir amor por minha irmã mais velha e admirar suas qualidades: beleza, comunicação, entusiasmo, garra e, principalmente, generosidade — Karina  me amou desde o início, enquanto eu ainda lutava para amá-la.

Antes que eu conseguisse tal feito, nasceu minha irmã mais nova. Quando Sabrina apareceu, eu tinha já 11 anos. Minha mãe chegou a ameaçar, algumas vezes, amarrar eu e Karina para ver se ficávamos mais unidos, mas no fim, com o auxílio de meu pai, resolveu trocar as cordas por uma irmã. Método mais eficiente, sem dúvida. Eu me apaixonei por Bina instantaneamente. É a criança mais linda que já vi em minha vida. Uma beleza simples, natural, sem adereços, feita de pura graça.

Eu gostava de me deitar na cama, de frente para ela, tão perto quanto fosse possível para que ela ocupasse todo o meu campo de visão. Bom, pelo menos até ela me dar uma golfada inesquecivelmente desagradável bem no meio da cara, devidamente vingada alguns meses depois quando derrubei minha irmã de uma mesa de pingue-pongue. É, nossa relação também teve seus estremecimentos. Quando Bina entrou na adolescência, a teimosia dela se juntou à minha, e vivemos um amor de montanha-russa: às vezes em cima, às vezes embaixo. Aliás, foi com Bina que perdi o medo de parque de diversões. Foi ela também que me ensinou direitinho, tintim por tintim, a dieta dos pontos, que me fez perder uns tantos quilos extras. E, recentemente, vendo-a participar de uma corrida de rua, já me animei a colocar um pouco de corrida na minha caminhada diária.

Não foi à toa que Sabrina nasceu no dia 22 de abril. Meu pai, não sei se a sério ou de brincadeira, fala que gostaria de tê-la batizado de Pedrina Cabralina. A verdade é que Bina descobriu em mim o que já estava cá: o amor pela irmã. A chegada de minha irmã mais nova começou a levantar, lentamente, com paciência taurina, o véu que encobria meu bem-querer. Eu, que não sabia amar bem uma irmã, precisei de uma segunda para amar as duas. Fica então decretado o dia de hoje como sendo o Dia do Descobrimento da Irmã. E que, quando não for domingo, que seja pelo menos feriado.


Comentários

Anônimo disse…
Linda crônica meu irmão. Dia especial, ganhamos uma irmã admirável. Nunca é tarde para se aprender a amar. O bom de aprendermos cedo é ter mais tempo para desfrutar deste amor. Karina
albir disse…
Linda crônica e lindo comentário de Karina. Parabéns aos três pelos descobrimentos fraternais.
Sábias palavras, Maninha.

Grato, irmão Albir. :)
Anônimo disse…
Perfeito meu cunhado, parabens!!!
Anônimo disse…
Ai, que texto lindo. Lindo, imensamente lindo, Eduardo. E reafirma a minha tese particular, de que, 3 filhos, é melhor do que 2.
Um beijo
Kika
Anônimo disse…
Muito lindo! Parabéns aos 3 irmãos pelo amor entre vcs e pela sensibilidade do irmão mais velho, que consegue pôr em palavras simples e sinceras o encantamento e o tormento da chegada de mais uma irmãzinha e de como aprendeu a lidar com isso tudo. Amei mesmo!
Milena Linard
Cunhado, Kika, Milena. Grato pela leitura e pelas palavras. :)
Zoraya disse…
Que relação sensível e linda! Um aprendizado de vida. Costumamos pensar que o amor já nasce pronto, mas geralmente temos de construí-lo mesmo, e que felicidade é trilhar esse caminho! Amor eterno a todos.

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