sexta-feira, 13 de abril de 2012

BEIJO >> Zoraya Cesar

Suely, eu vou confessar uma coisa, você é minha melhor amiga, e eu preciso falar com alguém. Não precisa fazer essa cara, não estou doente, graças a Deus.
Suely, eu beijei um homem e não era o Paulo. Como assim, não entendeu? Eu beijei um estranho. Beijei e fui beijada. Na boca, Suely, na boca. E foi tão bom que eu não paro de pensar nisso.
Não, não estou tendo um caso! Eu lá sou mulher de ter caso? Jogar fora 37 anos de um casamento que me custou suor e lágrimas? De jeito nenhum.
Sei que foi uma loucura, mas... hein? Claro que não levei pra terapia! Tá doida? Pra ela analisar minhas pulsões sexuais e traumas de infância e tirar toda a graça do negócio? Nem morta!
E falando em graça do negócio, Suely minha amiga, ele era uma coisa de bonito e ... Suely, pare de ficar dando gritinhos ridículos, ou eu não conto mais nada. Ele devia ter uns 30 anos, se tanto.
Sei que estou com 62 anos, não precisa fazer sermão. Estou cansada desse negócio de ser obrigada a ter comportamento “condizente” com a idade. Aliás, minha conduta é irreprochável, como diria meu avô. Só porque beijei um estranho na boca não quer dizer que tenha ficado sem caráter. No máximo, sem vergonha na cara. Mas, a essa altura do campeonato, pra que eu quero vergonha na cara? Já bastam as rugas. Embora eu aparente bem uns 10 anos a menos, bendita plástica.
Deixa eu contar os detalhes sórdidos. Menina, você não tem idéia, ele tinha cara de homem, sabe? Parecia uma versão mais nova daquele ator, o Josh Brolin, do Onde os fracos não têm vez. Éeeee... esse mesmo, maravilhoso. Morra de inveja, amiga, eu beijei o Josh Brolin tupiniquim.
Para de gritar, sua velha tarada, que eu continuo. Olhe como são as coisas. Cheguei ao consultório do dentista e a secretária avisou que a consulta fora desmarcada. A vaquinha disse que tentou me avisar, mas eu duvido. Enfim, deixa pra lá. Com tempo sobrando, saí andando meio sem destino e, quando vi, tinha entrado numa academia de dança de salão.
Levei até um choque quando aquela figura veio me atender. Era estranho mesmo, cheio de tatuagem, brinco, o cabelão preso com elástico. Eu disse para ele não se incomodar, eu só estava dando uma espiada, e sabe o que ele respondeu? “Sem problemas. Não é todo dia que aparece uma mulher bonita por aqui”. Há anos não ouvia cantada tão barata!
Mas na nossa idade qualquer cantada é lucro, fiquei na minha. Depois de me tratar como se eu fosse aluna VIP, ele me acompanhou até o elevador. Foi então que o espírito de uma velha louca me possuiu, porque joguei o maior charme, você acredita? Ele tinha idade para ser meu filho! E eu sou casada!
Pensei que nem soubesse mais como fazer isso. Pedi desculpas pelo incômodo, agradeci o tratamento, afinal, eu não era nenhuma gatinha... essas coisas. Uma canastrona, você precisava ver. Nem sei o que eu pretendia com aquilo, o que eu sei é que ele chegou perto, pertíssimo de mim, e me disse “vocês mulheres não sabem do que um homem gosta”... e me beijou. Ele me beijou, ali, no meio do corredor de um centro comercial! Suely, eu tenho 62 anos! E o Josh Brolin me beijou na boca!
O que eu fiz? Suely, eu beijei de volta!
E beijei muito, porque aquela boca estava macia demais e beijava muito bem.
Depois, cada um tomou seu rumo, sem uma palavra. Eu mal podia acreditar. Minhs pernas tremiam. Um cara lindo sentiu desejo por mim! Um homem feito, só porque era mais novo eu não poderia beijar? Me senti mulher, linda, poderosa, sedutora. Ainda sei beijar de língua, ainda sei seduzir, não estou velha, não estou morta.
De jeito nenhum vou procurar por ele Suely, já disse que não quero ter um caso.
Mas a bomba vem agora: quero fazer de novo. Não com ele, com outros. Assim, sem compromisso. Encontrar, seduzir, beijar muito e sumir. "Ficar", como dizem por aí.
Por quê? Porque gostei desse negócio de ver que ainda desperto interesse, porque gostei do perigo, da emoção. Mesmo que não encontre quem beijar, já vale pela diversão. Nem me fale do Paulo, isso não tem nada a ver com ele, tem a ver comigo. Preciso ser beijada.
E vou procurar no subúrbio, onde os homens são mais homens. Amanhã vou a Madureira, nunca fui a Madureira, mas a mulher do meu porteiro me ensinou. Falei que quero ir ao Mercadão com umas amigas, sabe como é, tenho de ser cuidadosa.
O que? Você quer ir comigo? Mas... você é mais velha do que eu, Suely! Não tem vergonha?





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10 comentários:

fernanda disse...

Òtimo, Zoraya. Adoro seus contos. =)

Anonimus Mercadonicus Madureirensis disse...

Smaaaaaac...

albir disse...

Muito bom, Zoraya. Divertidíssimo. E o mais interessante é ela achar que a outra não pode. Beijo.

Anônimo disse...

Hahahaha, muito bom!

Érica disse...

Adorei. Morri de rir! Divertidíssima a história. Já estava imaginando a "desavergonhada" em Madureira, com a Suely, em plena caça! rsrs Mas, fala sério... ou esse cara tava a perigo (menos de 30 anos!!?) ou tinha acabado de ler Harold and Maude hahaha

Anônimo disse...

cadê o endereço do Mercadão de Madureira??!!!! Tb quero!!!!

Alexandre Durão disse...

Zoraya.

Como sempre, adorei.
A vida tem dessas novidades, mesmo. Como cada um reage é que acaba sendo matéria para deliciosas histórias. Que bom que você se dispõe a usar seu talento e contá-las pra nós.

Beijos.

Zoraya disse...

Pessoal, obrigada pelos comentários e pelas risadas.

Fernanda: fico orgulhosa, obrigada!

Albir: pois é, que cara de pau a dela, nao? (eu tb achei isso divertido demais. O pior é que mtas vezes agimos exatamente assim)

Erica, vc me deu ideia para uma continuaçao. Vou conversar com a Suely, se é q a coitada conseguiu ir a Madureira...

Anônimos (3): a amiga da Suely recebe os beijos, anima-se com os risos e diz que vai dar o mapa para quem quiser ir a Madureira

Alexandre: obrigada pelo incentivo de sempre!A vida tem dessas coisas mesmo. Espero q as nossas viradas sejam menos radicais q a da nossa amiga

Anônimo disse...

kkkkkkkk A Sueli é terrível.

Carla Dias disse...

Muito bom, Zoraya! Adorei :)