quarta-feira, 11 de abril de 2012

QUINTO CAPÍTULO >> Carla Dias >>


É um homem elegante, muito bem educado, intelectualmente atinado. Uma e outra mãe de filhas solteiras já consideraram fisgá-lo como genro, chegando mesmo a tramarem encontros casuais nada casuais, com os quais ele lida sempre de forma agradável. Porém, na convivência breve com ele, durante um jantar ou um café na tradicional padaria da esquina, mães e filhas acabam percebendo que, olhando assim, de perto, ele também é um belo homem, sustentando com um ar rude, que mais encanta do que bota medo, e os cabelos levemente desalinhados acentuando o seu charme.

O que elas não sabem, mas acabam por descobrir em dois tempos, é que o tal homem, sempre com um sorriso gentil nos lábios, está pra lá de condenado para relacionamentos pela sua profissão. Não há mulher, mãe ou filha, por mais desesperada que se sinta, que aceitaria o desafio de fazer parte da vida dele. Sendo assim, após o encontro casual nada casual, elas sempre voltam para as suas casas, e não somente desapontadas pela busca vã, mas também imbuídas em uma comiseração danada por ele.

Julga-se um viciado por café, assim como era a avó, quem o criou desde muito pequeno. Uma mulher miúda, com jeito frágil, mas que se mostrou das mais fortes e determinadas. Ela dizia que o menino engolira as palavras quando sofreu o acidente de carro com os pais, que, na certa, engasgara-se com elas. E como sobrevivente, aprendera a usá-las somente quando elas eram realmente necessárias, por isso a dificuldade em haver uma boa conversa entre eles. Eles nunca falavam banalidades.

Porém, o silêncio entre eles era de uma integridade invejável. Enquanto a avó cosia as roupas puídas ou preparava a comida, mesmo quando sentados na varanda, observando o fim do dia, esse silêncio os unia em uma intimidade rara entre as pessoas. Até mesmo entre as que se amam verdadeiramente.

Havia algo na avó que o fascinava desde sempre. Em momentos de contemplação, ele a percebia suspirando com mais frequência do que já vira qualquer pessoa suspirar. Era quase uma sinfonia de suspiros, e com todas as nuances, em uma dinâmica entrecortada por melancolia, prazer, saudade, amor e tantos outros sentimentos. O menino aprendeu a decifrar cada suspiro dela, e com uma facilidade de se admirar. A avó suspirava, e ele se aproximava, oferecendo rara palavra dita: saudade? Cada palavra era entoada à cadência do que ele acreditava ser o sentimento. E ele nunca errou, também nunca perguntou o motivo, porque era neto, menino a ser cuidado, e acreditava que sentimentos assim eram da alçada dos adultos.

Ainda não sabia, naquela época, que seu trato com a importância da palavra dita, assim como a sua facilidade em decifrar suspiros, eram características muito importantes, talentos que poucos tinham para exercer a profissão na qual hoje é dos mais admirados. Tornou-se quem é sem titubear, sem sentir medo do que enfrentaria. E quando a avó foi se juntar aos pais dele, o homem adulto já sabia que seu destino estava norteado pelo indecifrável.

Desempenha o seu papel com a delicadeza do poeta ao roçar a pele de sua amante. Aliás, a poesia foi a forma que encontrou para dizer sem pronunciar palavras. Compreendeu-se poeta na adolescência, quando seu corpo necessitava do que ele jamais teria com facilidade: companhia. Escreve poemas que lê em voz alta, somente uma vez, e então os engaveta, como se os tivesse enterrado.

O chapéu fedora clássico, compondo o visual atraente e suscetível aos erros de julgamento. Não é empresário bem sucedido, ator de filme blockbuster, modelo profissional. Não é rico, mas acredita que, ao entrar na vida de uma pessoa, mesmo que somente por algumas horas, e de forma tão sorrateira, prefere que elas fiquem com a impressão de que foi apenas a imaginação delas operando. Prefere ser personagem ao invés da pessoa, e isso tem lhe servido de alento, desde o primeiro dia de trabalho.

Entra na casa sem pedir permissão, porque não é preciso, na sua profissão. Ainda assim, resmunga um “com licença” que lhe tranquiliza a consciência. Ele está sentado na sala, em frente à lareira, contemplando uma fogueirazinha quase rasteira, o cobertor sobre as pernas. O cliente é um homem jovem, mas de olhar envelhecido pelo que ousou enxergar com o coração. Quando o escolheram, não houve catalogador de suspiros que se oferecesse para o trabalho. Diz a biografia do homem, e não a lenda, que ele suspirou todos os significados da cartilha dos suspiros, que nenhum dos catalogadores de suspiros que já o visitaram, conseguiu decifrar, no mínimo, mais de uma dezena deles.

Senta-se na cadeira, ao lado do jovem, pernas cruzadas. Observa o fogo diminuto, prefácio da escuridão. Ser um catalogador de suspiros é ser paciente, também. A arte da observação é aplicada, e o cliente não sabe da presença do catalogador, apenas sente algo diferente, e às vezes enxerga vultos. É preciso diligência, e um respeito inabalável pelo outro, para não interferir no que sente o cliente, não influenciar o significado do suspiro. O cliente, essa pessoa selecionada entre tantas, entre todas, é de uma sensibilidade ímpar, é uma existência iluminada.

Durante horas, ele observa o jovem e faz anotações. A cada suspiro, ele decifra uma notação, concedendo a ele a devida tradução. Horas depois, na escuridão completa, o jovem alternando momentos de cochilo, ele identifica o último dos dezessete tipos de suspiro que nenhum outro catalogador conseguira identificar.

Sabe que os cientistas o acham sentimental demais, que catalogar suspiros é função dos lógicos, dos observantes que jamais se apegam ao cliente, que os tratam com a distância necessária. Mas ele duvida que seria o catalogador talentoso que se tornou, não fosse a presença da poesia em seu dentro, a intimidade estabelecida pelo silêncio, o mergulho na essência do outro.

Levanta-se, já sentindo a sua presença. Na saída, esbarra o braço no dela, o que faz seu corpo se desajeitar com a sempre postura profissional e polida. E vem a troca de olhares e o sorriso aveludado que ela sempre lhe oferece.

Antes de partir, ele a observa se sentar na mesma cadeira que ele estava, e se curvar para abraçar o jovem que, mesmo não a enxergando, sente imediatamente a sua presença. E então, ela começa a sussurrar nos ouvidos dele, que vai se enchendo de vida.

Um catalogador de suspiros deve se retirar imediatamente do recinto, após identificar os suspiros do cliente. Porém, ele não sabe como, sempre espera que ela chegue para fazer sua parte.

Um catalogador de suspiros não deve, de acordo com as normas da empresa, interagir com um profissional de desfechos, como a mulher que lhe enche os olhos e o coração de beleza. E ao dizer adeus, assim, sem dizer, deixa com ela parte de si. Uma parte que se nega a abandonar, desaperceber, fazer sumir o desejo.



Imagem © Light in the darkness - sxc.hu




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5 comentários:

Vicente Lima disse...

Seu personagem andou pelas ruas de Lisboa, com chapéu, bigode, e o nome Pessoa.
Belo Capítulo.

Carla Dias disse...

Vicente... Acredito que esse seja um cenário mais que possível :)

Zoraya disse...

Carla, pode começar a transformar esses capítulos de profissoes inusitadas em uma novela! Estou adorando! Beijos

albir disse...

As profissões às vezes assustam um pouco, mas à medidada que vamos conhecendo os profissionais, tão doces e humanos, ficamos encantados. Beijo, Carla.

Carla Dias disse...

Zoraya... A sua animação com meus personagens-profissionais está mesmo me animando a dar forma à coletânea dos sete contos. Pois é, faltam dois e pronto. Fim dos capítulos. Mas pelo jeito, começo do romance. Beijos!

Albir... E você não acha que essas profissões me assustam também? Assustam e atraem... E a ideia é essa mesma: que sejam pessoas, que sejam seres humanos dotados de um talento único. Beijo!