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BURACO DE MINHOCA [Carla Cintia Conteiro]

“Em física, um buraco de verme ou buraco de minhoca é uma característica topológica hipotética do continuum espaço-tempo, a qual é, em essência, um ‘atalho’ através do espaço e do tempo.”
Fonte: Wikipedia

Foi com certo pavor que descobri que o que eu queria não existia. Não era a primeira vez que aquela sensação de registro pirográfico tomava conta de mim. Sabia que, mesmo depois de muitos anos, lembraria daquele exato momento em que me dei conta da impossibilidade de materialização daquele desejo específico.

Nos outros momentos de buraco de minhoca da minha vida, entretanto, senti apenas o registro e não uma efetiva e imediata mudança. Aqueles instantes apenas ficaram registrados e se tornaram referência, uma espécie de janela, quando preciso me reportar a alguma época específica.

Acho que aprendi com meu pai a armazenar certas recordações como se fossem índices da minha história. Estávamos à janela de um prédio na Avenida Rio Branco, no Centro do Rio de Janeiro, era 1970. Ele apontou para o carro de bombeiros que passava lá embaixo com vários homens pouco maiores que formigas, da distância que eu estava, acenando sobre ele:

- Olha, filha, esta é a Seleção Brasileira, que ganhou a Copa do Mundo. São os campeões. Você vai poder contar aos seus netos que viu quando eles voltaram para o Brasil. Você nunca vai esquecer este dia.

Nunca esqueci. Eu tinha três anos de idade.

Por este fato, localizo memórias difusas da minha mãe ainda carregando minha irmã caçula na barriga, todos sentados na sala, escolhendo o nome do bebê. Recupero o contato com as primeiras letras, quando fui toda prosa mostrar pra minha avó que já sabia escrever “vovó”, com grampinho e tudo. Resgato a empregada insensível que, logo depois, perguntou se eu não ia chorar a morte da minha avó, tão grudada comigo, ao que respondi:

- Ela me disse pra não chorar, que um dia quando eu for bem velha que nem ela, eu também vou morrer e a gente vai se encontrar de novo no céu.

Minha avó não era assim tão mais velha do que sou hoje.

Outro buraco de minhoca não foi tão interessante, mas foi o primeiro que criei sozinha. Estava numa sala de aula morrendo de tédio, como é costume de qualquer pré-adolescente nessa situação, contando minutos para o recreio, quando olhei em volta. Pensei que dentro de muito pouco tempo nem me lembraria daquele garoto que sentava a alguns metros de distância e que me fazia suspirar dia e noite. Caiu a ficha de que aquelas meninas a quem eu jurava amizade eterna deixariam de pertencer a minha vida, a menos que eu me esforçasse muito para manter contato (jurei para mim mesma manter contato para sempre e quebrei minha promessa quase de pronto). Baixei os olhos para o caderno e tentei memorizar o que estava escrito ali, mas sabia que toda a matéria que eu estudava tão devotadamente não seria guardada como uma fotografia. Lembro do cheiro da classe, a cara suada e cansada da professora, do meu uniforme feio, das pernas finas demais saindo por baixo dele, da mal contida energia daquelas quase ex-crianças. Todos diziam que, mais tarde, eu teria saudades “da aurora da minha vida / da minha infância querida / que os anos não trazem mais”. Foi naquele átimo de tempo que eu soube que eu jamais sentiria falta daquela época e de todos os desajustes que eu experimentava então.

Meu filho ainda era pequeno e eu me irritava com a casa sempre bagunçada, com a rotina corrida e impossível, com listas de tarefas infinitas, com a quebra de expectativas românticas de tantas coisas. Este foi mais um buraco de minhoca. Olhei para aquele menino lindo, pra minha casa caótica, mas cheia de amor, pra minha conta bancária quase zerada, mas um corpo cheio de vida e me dei conta de que no futuro olharia para aquele momento e o enxergaria como um dos períodos mais felizes da minha vida, que eu sentiria saudades dos brinquedos de criança espalhados pelo tapete da sala, daquela voz que não se calava. Tinha trinta anos e sabia que já não tinha a vida toda pela frente e que as escolhas que eu tinha feito haviam tolhido várias outras possibilidades. Contudo, aquela era a minha vida, a que eu não sabia que ia ser exatamente daquele jeito, mas que de muitas formas me fazia feliz.

Então, neste mais recente buraco de minhoca da minha vida, quando percebi que o que eu quero não existe, algo mudou de repente. Dei de inventar o que estava fora da realidade. Dentro da minha cabeça, qualquer coisa pode. Se você passar por mim na rua e eu não cumprimentar você como deveria, por favor, releve. Culpe, além dos meus olhos cada vez menos eficientes, minha mente sempre no mundo da lua. Neste meu mundo particular, tudo há, tudo é possível, qualquer bobagem é permitida, qualquer absurdo é plausível, toda safadeza foi abolida e toda sacanagem e toda brincadeira está conforme a moral vigente.

Este buraco de minhoca, o momento em que soube que o que eu quero não faz parte de Maya, me fez muito menos sisuda. Até com as chatices cotidianas ando mais conformada, porque sei que logo vou poder ficar em silêncio comigo e me refugiar no meu canto mental secreto. E, como o tempo não para, desconfio que a outra ponta desse atalho tempo-espaço está quando-onde vou finalmente encontrar com meu pai e minha avó.

Comentários

Vicente Lima disse…
Querida Cintia Conteiro,
A pena usa para escrever essa, sublime, crônica tem uma tinta vermelha, chamada sangue, a qual foi tirada do coração, com todos os sentimentos felizes do passado, que no presente traz tristeza, por não existir máquina do tempo, pra voltar e aproveitar melhor os bons momentos. Resta, como você disse, ficar no cantinho, no mundo da imaginação.
Parabéns, muito bom.
Cristiane disse…
Sua escrita nos reporta, imediatamente, aos nossos próprios buracos. Cavou fundo CC!

Belo texto!
Zoraya disse…
Cíntia, puxa, você alcançou um patamar de sabedoria muito raro. Apesar de dar a ideia de que todos os estágios pelos quais passou foram produtos de insights, acredito que deve ter custado muito esforço. Viver a ilusão de Maya sem nos atermos a ela não é para qualquer um.

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