segunda-feira, 23 de abril de 2012

OLHOS E CADERNOS >> Albir José Inácio da Silva

Naquele começo dos sessenta, meninas não falavam nem escreviam certas coisas. Mas a coisa foi escrita no caderno e lida pela mãe e depois pelo pai de uma delas. Era uma dessas piadinhas que misturam palavras e desenhos com um significado meio bobo e meio sexual, o que foi considerado uma afronta pelos genitores.

Na sala, a diretora, o pai e a professora, numa espécie de inquérito, olhavam o caderno, falavam baixo, consideravam. Beto era o único menino nas carteiras da frente, cercado por cinco meninas. Essa localização era determinada pelos resultados da última prova, e ele sempre conseguia ficar por ali. O caderno foi mostrado a cada um deles, enquanto seus rostos eram demoradamente examinados pelos investigadores.

Beto estava tranqüilo por duas razões: ele não tinha escrito aquilo e suas garatujas em nada se pareciam com aquelas delicadas, redondas e femininas letrinhas colocadas no papel. Por isso, deve ter olhado um tanto desafiadoramente para os investigadores, que logo retornaram à mesa e confabularam por mais algum tempo. Pai e diretora concordaram, só a professora, Maria do Carmo, olhava Beto com olhos inconformados.

O pai saiu primeiro, fuzilando o menino com os olhos. A diretora o seguiu com cara de indignada. Só então Beto compreendeu o arranjo que satisfazia a todos: o pai tinha um culpado, um moleque abusado de quem sua filha precisava ficar distante; a diretora encerrava o caso sem nenhum estrépito; e as meninas ficavam protegidas já que, naquele começo dos sessenta, meninas não falavam nem escreviam certas coisas.

Beto não entendeu nada, não foi acusado de nada, não se defendeu de nada e não tinha do que reclamar, embora sentisse cheiro de injustiça. A questão era simples, bastava confrontar as letras nos cadernos, mas isso não interessava a ninguém. O garoto ficou muito incomodado com o olhar daquele pai. Teve vontade de falar, mas não sabia o quê, nem com quem.

Em seu socorro só vieram os olhos de Maria do Carmo. Era o que ela podia fazer diante da iniquidade baseada em silêncios e conveniências. Doce olhar de professora que o acarinhou pelo resto da aula. E Beto a amou para sempre.

Alguns dias depois, no vinte e dois de abril, os cartazes tinham de ser entregues no dia anterior se quisessem concorrer ao direito de exposição nas paredes da sala. Por preguiça ou brasileirice, o de Beto só veio quando os demais já estavam nas paredes. Ocorre que Maria do Carmo resolveu defender, perante a diretora, as qualidades do trabalho “daquele atrasado, mas ótimo aluno”.

A autoridade não perdeu a chance para disciplinamento e, mesmo concordando que o trabalho não era de todo ruim e o aluno não era de todo ruim, ele precisava entrar na linha. O cartaz seria exposto, mas na parede de trás, os colegas teriam que se virar para vê-lo e quem chegasse à porta não o veria. E todos se lembrariam do castigo pela indolência de Beto. Ela decretou e foi embora. De novo o desamparo, e de novo a salvação pelos olhos da professora, que ainda sorriu e murmurou:

- Não ligue, não. Eu vou olhar para ele o tempo todo.

Beto que já a amava, confirmou seus votos.

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Um comentário:

Zoraya disse...

Que lindo, Albir! Isso é um conto de amor! Um bálsamo delicado nesses tempos rudes. Obrigada, beijos