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A COMPAIXÃO E A LOUCURA >> Whisner Fraga


Toda cidade tem as suas personagens pitorescas, aquelas pessoas que fazem parte do folclore local. Em muitos casos, esses cidadãos têm alguma doença ou um distúrbio psíquico ou mental e suas ações, enigmáticas para nós, indivíduos que pagam impostos, são alvo de chacotas e ironias. Isto é, esses “loucos bons” servem como desculpa para uma piada, para uma brincadeira e para deixar o dia “mais leve”. Assim, como não podem compreender que são objeto de escárnio, passam a impressão que não possuem sentimento, o que pode levar alguém a pensar que há algo de bom na loucura. Traduzindo: o louco não se recordaria das maldades, dos sofrimentos e, portanto, não seria capaz de guardar mágoas.

Só que não há nenhum glamour na demência, por mais que alguns escritores ingênuos tentem mostrar o contrário, por mais que cineastas idealizem o comportamento das pessoas imersas nesse mundo paralelo, por mais que a população pense que é bom não atinar com o mal que as pessoas lhe fazem, pelas costas ou não. Alguns filmes nos mostram, incansavelmente, o contrário. Por exemplo, “Um estranho no ninho”, de Milos Forman – não há uma personagem na instituição psiquiátrica que seja feliz. Todos, além de suportar suas dores, têm de se sujeitar às arbitrariedades das enfermeiras. Padecem como todos nós.

O problema é só de ângulo de visão, pois os portadores desses distúrbios ou doenças simplesmente enxergam o mundo de modo diverso, mas enxergam, eis a questão. De maneira que raciocinar que um louco não se angustia, que não tem seus problemas insolúveis, é simplificar demais o assunto.

Enquanto escrevo, lembro-me da Lurdinha Varredeira, uma figura emblemática da história de minha cidade natal. Há um livro muito interessante sobre a vida dessa mulher, escrito por Valnice Pereira, que deve ser lido por todos aqueles que quiserem saber dos sofrimentos que ela suportou, nem sempre serenamente. Em uma das passagens do livro, Lurdinha entra em um estabelecimento comercial, mas não aceita que lhe deem nada, ela quer pagar. Parece não ter conhecimento sobre o valor das moedas, mas julga que não merece presente de ninguém. Ora, conheço muita gente sã que age de modo semelhante.

Eu também já escrevi sobre a Lurdinha, mas foram coisas de memória, material para ficção, pois ali misturo recordação e fantasia. Sei que certa vez eu observava Lurdinha em sua vida de varrer as sujeiras das ruas de Ituiutaba e vi se aproximarem rapidamente alguns meninos. Caçoavam dela, puxavam-lhe o vestido, a capanga que sempre trazia amarrada na cintura, e ela continuava alheia, concentrada em seu trabalho. Então um deles decide tomar-lhe a vassoura e aí acontece uma transformação: o semblante manso se agita, uma careta toma conta da feição normalmente desatenta e ela mostra uma cara de desespero, de angústia, de intenso sofrimento. Grito com as crianças, elas correm, deixam a piaçaba para trás e a devolvo para Lurdinha, que a recebe e volta para sua tarefa, como se não tivesse acontecido nada.

Por mais que façam parte do populário, pessoas como Lurdinha precisam do respeito de todos, necessitam também de tratamento, de um lugar para viver de forma digna. Eu só soube que a varredeira morava em uma casa precária, dormia em uma cama de tijolo, rodeada de lixo, porque li a obra de Valnice. Isso dá uma ideia do pouco que nos importamos com a vida de gente como ela. Tenho a impressão de que Lurdinha foi útil como assunto para piadas, para levar sabe-se para onde o lixo que jogávamos displicentemente pelas sarjetas da cidade. Nosso grande crime é pensar que, como ser humano, nos divertir foi sua única serventia.

Comentários

Zoraya disse…
Muito comovente, Whisner, e triste também. Principalmente porque, de vez em quando, alguém, como você, nos cutuca, e nos faz lembrar que, na verdade, nos importamos muito pouco com quem quer que nao faça parte do nosso minúsculo círculo afetivo. Obrigada.
Vicente Lima disse…
Salve o Brasil, salve povo brasileiro, salve sanidade insana nacional. Problemas mentais, de tratamento urgente, têm quem não sabe lidar e compreender as dificuldades alheias, abordar esse tema é muito importante, parabéns, alguém precisava dizer isso.
whisner disse…
Zoraya, obrigado pela leitura. Sou fã das suas crônicas.
Vicente, o Brasil está caminhando rumo à justiça e respeito. Ainda veremos todos os portadores de necessidades especiais tratados com carinho.
Abraços!
Carla Dias disse…
Às vezes, tenho a impressão que o ser humano se distrai e se esquece da própria fragilidade. E entramos na questão de que os desrespeitosos enxergam somente quando lhe doem o desrespeito, quando acontece com seus afetos. Ele não desrespeitaria a Lurdinha se ela fosse sua irmã, sua amiga, sua filha. Ainda acho que desrespeito é parceiro da arrogância, porque quem escarnece de outro ser humano, colocando-o num patamar inferior, não aceita que também ele corre o risco de passar pelo mesmo.

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