sábado, 28 de abril de 2012

VIROSE [Carla Cintia Conteiro]

Os estadunidenses estão começando a ficar encafifados com o aumento exponencial de casos diagnosticados de autismo dentro de suas fronteiras. Estão se questionando, pois talvez seja possível a indústria médico-farmacêutica ter alguma coisa a ver com fato de cada vez mais sintomas ou coisas antes conhecidas como características de personalidade, como introspecção, caberem sob o guarda-chuva de um diagnóstico tão bombástico. O mesmo acontece com depressão, TDHA, síndrome do pânico ou qualquer outra enfermidade levemente indefinida, mas que utilize medicamentos caros e de uso prolongado ou vitalício.

Embora também vejamos estas enfermidades em terras brasileiras, por aqui a epidemia é outra. Muitos afirmam que as autoridades deveriam tomar providências para evitar o crescente surto de virose. Pode ir a qualquer posto médico, emergência de hospital, UPA e conferir: a incidência de virose é altíssima. Se o sujeito não tiver sido resgatado de um carro em chamas, quase ao ponto de virar churrasco; se não tiver caído do sexto andar e apresentar diversas fraturas expostas; se a dona não tiver o olho roxo e o lábio pendurado graças a uma discussão mais acalorada com o marido, é batata: trata-se de um caso típico de virose. Na melhor das hipóteses, uma sinusite.

E nossos médicos estão ficando tão craques em detectar o problema que já nem mais examinam os pacientes. A criatura entra no consultório (ou mesmo da maca de um corredor lotado) e queixa-se de dor de cabeça, prurido, febre, tosse, dores abdominais ou nas costas, diarréia, dor de ouvido, dificuldade para respirar, vermelhidão, náuseas e/ou vômitos, ou tudo isso junto ou qualquer outra coisa e o doutor, sem nem olhar para a cara da pessoa, responde:

– É um andaço. Tem tido muito disso por esses dias. É uma virose. Tome uma injeção de bezetacil / dois comprimidos de paracetamol / dipirona (ou um antibiótico, antiinflamatório/corticóide/antiácido ou tudo junto) e, se não houver melhora em 48 horas, retorne.

Vejo algumas pessoas reclamando desse tipo de tratamento recebido, chamando-o de desumano e incompetente. Bobagem! A medicina e o atendimento médico melhoraram muito. Essas pessoas esquecem de comentar as doenças que foram exterminadas nos últimos tempos.

Por exemplo, qual foi a última vez que você ouviu falar num caso grave de ziquizira, de quebranto, de espinhela caída? Não tem mais, quase. E banzo, mal de amor, paixonite mal curada? Acabou!

Evidentemente, a dengue corre por fora, querendo tomar o lugar nobre da virose no ranking das doenças mais populares entre os habitantes da Terra Brasilis. Mas para que isso acontecesse, seria necessário que os médicos dedicassem algum tempo para a anamnese, examinassem seus pacientes, fizessem exames complementares, conhecessem seu histórico... Isso é coisa para despreparados. O bom médico já sabe de pronto tudo o que precisa saber sem nem levantar os olhos do que seja lá que esteja fazendo de tão importante, sem necessitar de qualquer informação, sem tocar no paciente, sem verificar seus sinais vitais.

Entretanto, se você cometeu a heresia de se interessar mais pela própria saúde e não satisfeito com o atendimento recebido, foi pesquisar na Internet, e desconfia que o seu caso pode ser um tantinho mais complexo, algo assim como um aneurisma, um AVC, um infarto, um câncer, você é um tolo em pensar que o seu caso é médico. Especialmente para quem não tem um plano de saúde que cobre mensalmente o valor das vidas humanas de um país sub-desenvolvido inteiro, o indicado é procurar um bom pastor, padre, pai-de-santo, guru, rabino ou equivalente em seus respectivos ambientes espirituais à espera de um milagre e começar a distribuir sopão na madrugada para garantir seu lugar no paraíso.

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Um comentário:

Vicente Lima disse...

Nossa nação precisa de um novo governo, nem a sopa ela está distribuindo.