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Mostrando postagens de Março, 2022

ESTÔMAGO >> Carla Dias

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Tem um sonho escondido no estômago. Só de visitá-lo em pensamento, o tal dói de fazê-lo expressar careta. Desde muito moleque é assim. Basta o sonho sair do exílio, e visitar seus sentidos, que suas emoções ficam desarranjadas. E cospem na sua cara o que ele se esmera em esconder de si e de qualquer um que se atreva a observá-lo mais de perto. Passou a vida em consultórios a tratar enfermidades. Nunca identificaram a moléstia que o acomete, ainda que seu estômago viva a atacá-lo, de deixá-lo acamado durante dias, privado dos prazeres de se deliciar com certas comidas, com as delícias das bebidas capazes de embriagar até levar a nocaute até mesmo os irritantes demônios que constroem seus impérios nas barras das saia da miséria.  Quando escuta alguém a tecer floreados ensejos aos sonhos, revira os olhos, ainda que em seu interior ecoe um descarado desejo de olhar para ele, o sonho encarcerado, boiando no rio ácido do seu estômago, gritando sua necessidade — e direito — de se realizar. Su

NO MAR >> Sergio Geia

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  As pequenas ondas teimavam em se formar, e como bolas de sabão que nada duram, logo quebravam fazendo espuma branca, ressoando a arrebentação que acalma e traz paz. Depois se transformavam em marolas mas tão transparentes, que pareciam água mineral, e vinham sossegadas beijar os meus pés. Onda beija?  Gelada, bem gelada. E sim. Beija; um beijo frio. Eu não desistiria. Entrei devagarinho e fui deixando meu corpo ser beijado por lábios molhados e gelados. Primeiro os pés, as canelas. Quando começou uma ou outra, a querer bater no joelho, parei. Pensei: sigo ou volto para a areia? Abaixei um pouco, estiquei o braço, mergulhei as mãos. Fiz conchinha, joguei água no peito, num ombro, nas costas; entrei um pouco mais.  Ainda duvidava, não tinha certeza; essas coisas, você sabe, é difícil ter certeza. Às vezes pensamos ter certeza, a convicção, um simulacro quando percebemos, ah, mas já escrevi sobre isso. A água, como dizia, estava gelada, mas havia sol, a temperatura era boa. No fundo tal

PEDRA DE ESTIMAÇÃO >> Paulo Meireles Barguil

Você tem alguma pedra de estimação? Onde você a guarda? Na bexiga, na bolsa, na cabeça, no caminho, no coração, na gaveta, na mão, no rim, no sapato ou na vesícula biliar? Ela, assim como você, um dia ou uma noite, voltará a ser pó! Tenha cuidado para ela não acelerar esta ocasião...

SOL SOMBRIO - PARTE IV: A DANÇA DA MORTE >>> Nádia Coldebella

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Por motivos de força maior, a autora não publicará essa semana.  A quarta parte de Sol Sombrio, A Dança da Morte, será publicada em 07/04. Conheça as três primeiras partes aqui. Seja gentil e deixe seus comentários!  Parte I - Os irmãos . O Negro e o Branco se encontram, como num espelho, cuja superfície à muito fez-se em cacos. Parte II - O ajoelhado.  Que mistérios esconde um pobre homem que vive silenciosamente? Parte III - O contrato . Você não sabe o que esperar quando uma elegante desconhecida visita O Branco.

SOLISTA >> Carla Dias

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Cansou-se de lidar somente com a realidade. Ela se nega a valorizar suas impaciências, amplificando-as em agonizantes tarefas carregadas de logística e sermões burocráticos. Em essência, tem se importado pouco. Mistura a dita com aparas de delírios, assim consegue enxergar seus malquerentes como impulsionadores de fascínios. Sabe que todos colecionam desafetos e que alguns deles sorriem mais bonito que outros. Aprendeu a identificá-los, a circular entre eles, a se render aos seus desprendimentos, mas não aos seus lamentos. É um permutar isso por aquilo desprovido de censura. E daí que ninguém converte interesse imediato em apreço por ele? Que seu currículo não sustenta mais do que conversas que minguam no terceiro drinque? Não é o único que vem convalescendo de solidão por período indeterminado. Leu isso em uma pesquisa que foi obrigado a pesquisar. Não está só no palco dos que escapam dos abraços de quem desejam. A humanidade anda solitária. As pessoas, ocas, à espera de um preenchime

TENHAM LIMITES, OBRIGADA! >> Clara Braga

Eu não sou referência para tendências. Normalmente, demoro até perceber que algo se tornou uma tendência e levo um tempo ainda maior para perceber que aquilo não é mais tendência. Mas, posso dizer com uma certa segurança que a mania de gourmetizar tudo quanto é comida já passou. E diria até que essa foi uma tendência que acabou rápido, não deu nem tempo de aprender a escrever "gourmetizar" sem ter que olhar no google antes. Preciso assumir que, para mim, foi difícil aceitar essa tendência da gourmetização. Em alguns casos, para não dizer na maioria deles, ficava com a sensação de que alguém colocava uma coisinha diferente em uma comida simples, dizia que tinha gourmetizado e cobrava o dobro ou mais do valor normal. Tudo isso para poder levar aquela comida simples que a gente come na carrocinha da esquina para dentro do shopping. Claro que essa minha opinião é baseada em achismo, já que não entendo nada de cozinha, mas sei que não fui a única a ficar com essa sensação. Também

ESSE MENINO! >> Albir José Inácio da Silva

  — Onde você pensa que vai, João Leno? — perguntou a mãe sem querer saber coisa alguma, e menos ainda os pensamentos do filho, antes querendo dizer “não vai a lugar nenhum!”   — Na casa do meu colega — respondeu o menino, mas sem querer significar coisa alguma porque, apesar de parecer um colega determinado, podia ser qualquer colega ou colega nenhum; podia ser uma rua, uma esquina ou a favela mais próxima. Colegas, iria encontrar, mas não sabia quais nem pra quê.   — Se você sair de casa, eu vou contar pro seu pai! — insistiu a mãe, sabendo que não iria contar coisa alguma porque o pai lhe enche muito mais a paciência por causa do menino do que o menino com suas escapulidas. Sabendo que o menino iria de qualquer jeito, como todos os dias, mas cumprindo o dever de proibir coisas perigosas, como sabia serem perigosos os passeios dele. Ou não sabia, mas imaginava. Ou nem imaginava, mas era melhor prevenir porque não faltavam ameaças do pai caso acontecesse alguma coisa com o men

A QUARTA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL NO SOFÁ >> Allyne Fiorentino

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  Vendo sofá. Tudo que eu queria era vender um sofá. Não estava caro, estava até bem baratinho, porque sei como as coisas caras se arrastam para ser vendidas pelas redes sociais. O maldito botão de “guardar para ver depois” permitia que as pessoas procurassem outros móveis mais baratos enquanto guardavam seu anúncio para mais tarde. Ser empurrado para mais tarde é uma sensação amarga de abandono, uma incerteza que eu queria evitar.  Confesso que quando postei fiquei com medo de cair no conto do meme. Aquele meme em que mostram uma pessoa anunciando e outras fazendo perguntas cujas respostas já estão claramente descritas no texto do anúncio. Não! Eu não caio nessa! Vou ser o mais clara possível e colocar todas as informações, vou fazer uma espécie de “análise do público-alvo” e prever as “restrições”, quase um processo de “prototipagem” do meu anúncio. Escrevi: Vendo sofá. Preço: 300 reais. Não entrego. Moro no Bairro do Grito. Por fim, coloquei uma foto.  Demorou um pouco, mas eu rece

O SR. AMADAN, SEUS QUASE ASSISTENTES E, CLARO, O GATO MR. STEVENSON >> Zoraya Cesar

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O Sr. Amadan, excelente feiticeiro de poções, estava, mais que o normal, atarantado. O Baile de Despedida das Fadas Azedas seria dali a duas semanas e ele estava assoberbado de encomendas por produtos de beleza, como cremes enverrugadores, loções para transformar barbas em verdadeiros (eu disse verdadeiros) ninhos de mafagarfos, sabonetes de feromônios de duendes. Uma loucura. Quando perdeu uma trufa de escaravelhos podres, decidiu. Precisava de um assistente.  Mr. Stevenson semicerrou os olhos púrpura. Não, não precisava não, feiticeiro tonto. Precisava era trancar a gárgula-campainha dentro de casa para que ela parasse de sinalizar aos visitantes que o Sr. Amadan estava disponível. O gato sempre dava uma patinha, mostrando onde estavam os ingredientes que o Sr. Amadan perdia e, sendo o melhor gato de feiticeiro de poções da região, também o metia (e depois livrava) de várias trapalhadas. Mr. Stevenson não gostava de assistentes... ------------------- Primeiro assistente – Regra nº 1

DERRADEIRO >> Carla Dias

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Procuro em mim uma emoção com a qual comparar. Falho em encontrá-la. Permaneço estática. As pessoas passam por mim, falam comigo, sorriem para mim. Eu assim, paralisada, incapaz de corresponder. Sob a minha pele, espinha-me um sei lá de sensações. Nunca as senti. Impossível assemelhá-las. Tal incompetência  me embrulha o estômago. Passa por mim e me toca o rosto. Ninguém jamais me tocou o rosto desse jeito. O antes se nubla. Sinto meu corpo se confundir. O toque me dói atrasado. Solto um gemido que se mistura com os barulhos do encontro entre pratos e talheres. Alguém chama um nome e demoro a reconhecê-lo meu. Desiste de mim ao me perceber indiferente ao chamado. Esforço-me para encontrar uma sensação que me desvincule desse infortúnio. Nada me chega. Como voltar, desfazer o meu desejo de me tornar contraventora dessa tarde de domingo? Os celulares na cozinha, dentro de um vaso imenso que meu tio trouxe de outro país. Mais de uma dezena deles. Silenciosos. Esquecidos. Uma vitória dispe

Lidiane >> Alfonsina Salomão

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Ela tinha a pele morena e levava os fios crespos alisados num coque. Seu semblante faceiro contrastava com o rigor imposto aos cabelos. Suas unhas, demasiado compridas e, aos meus olhos, vulgares, não combinavam com a vestimenta: blusa larga sem decotes e saia jeans até os joelhos. Ao seu lado estava sentado um jovem negro, alto, bonito. Ela também era bonita.    Foi ele quem puxou conversa, logo após a decolagem. Fazia fotos e filmes da janela do avião e me perguntou, gentilmente e sem conter o entusiasmo, se eu também gostaria de registrar o momento. Eu estava assentada na poltrona do corredor. Declinei. Ele me contou que voava pela primeira vez. Ela me dirigiu então seu olhar, até então absorto nas pedras e montanhas lá embaixo, e confirmou com um sorriso. Trazia aparelhos nos dentes, o que lhe conferia um ar ainda mais jovial, uma certa ingenuidade.   Fiquei curiosa. Quem seria aquele casal formoso, educado e alegre, que viajava de avião pela primeira vez? Por que faziam o trajeto

NÓS TRÊS >> Sergio Geia

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  Domingo chuvoso. Não chuva pesada, mas chuva birrenta. A chuva que chovia no domingo era chuva faceira, que surgia de repente assustando as pessoas e pegando muitos sem proteção. Ela ficava assim, escondidinha por detrás de um sol pálido. Então, chuva. Às vezes miúda, às vezes intensa. Depois satisfeita, ia embora para voltar o sol, branco, pálido. Algum tempo depois, ela de novo, miúda, para, em seguida — você já sabe o que vou dizer. E assim a manhã seguia, às vezes com chuva, às vezes com um simulacro de sol, às vezes com pequenas pausas de um céu branco e seco, sem chuva, sem sol.  Ele se sentou à mesa da calçada no Laço da Costela, na Santo Amaro. Chamou a mocinha, pediu cerveja. Na mesa ao lado, também na calçada, outro homem já bebia a sua cerveja. O que diferenciava as mesas daqueles dois homens, dois homens solitários molhados que bebiam cerveja domingo de manhã na Santo Amaro, é que na mesa do homem que chegara, além da garrafa de cerveja, ele tinha um copinho de Steinhaege

(IM)(PRE)VISTO >> Paulo Meireles Barguil

O prefixo IM costuma sinalizar negação, privação. O PRE, por sua vez, indica antecipação.  Você já interagiu com algo precomido, prepegado, preouvido ou precheirado? Qual é o motivo de apenas a visão ser contemplada? Alguém pode me explicar, com exemplos práticos, o que significa imprecomido, imprepegado, impreouvido ou imprecheirado? Admito: a sua resposta, leitor(a), faz jus ao título desta crônica.

SOL SOMBRIO - O CONTRATO - PARTE III >>> Nádia Coldebella

Durante a madrugada, todos os gatos são pardos. O Negro escorara-se em uma parede velha, defronte a um colosso arquitetônico desprovido de sentido. Tratava-se de um prédio antigo, construído em uma época em que espelhos eram sinais de refinamento. Mas, no caso especifico daquele edifício, o que eles faziam era apenas refletir a feiura e contribuir para a decadência daquela área.  Ele ouviu os solados vermelhos dos sapatos branquíssimos baterem pesadamente nas pedras da calçada. Hyalin tentava se camuflar na névoa calorenta da madrugada. Impecavelmente vestido, ele tentava se parecer com um humano qualquer carregando uma sacola de papel nas mãos, mas sua falsidade era denunciada pelo próprio reflexo nos vidros embaçados do prédio.  Ciente de ser completamente ignorado, Morus estendeu displicentemente as asas, enquanto via o gêmeo parar e tirar o livro da sacola. A luz incidia diretamente sobre a cabeça descorada, desenhando uma aureola de benevolência. Ele se assemelhava à uma vela ilum

UMA CONSEQUÊNCIA POR VEZ >> Carla Dias

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Eu me ocupo de demônios de estimação. Eu os alimento em horários fixos e os levo para passear. Tento educá-los, mas até agora, sem sucesso. Aceitei que não posso dominá-los, coordenar seus rompantes, enganá-los ao tomar calmantes. Também eu preciso deles, da tirania da coragem de cometer afrontas sem me importar onde respingarão as consequências. Tem dias em que as consequências esgarçam a paciência. Em que pensar nelas grita angústia nas horas que passam sem que haja um sinal de desafogo. Mas meus demônios ainda não venceram a guerra que travaram nesse mundo que sou. Não sei respirar fundo para me centrar. Não conheço — nem ambiciono conhecer — um jeito esse ou aquele de me sentir inteira. Mas que demônios! Não quero apenas me sentir isso ou aquilo. Uma vez que cheguei até aqui, prefiro ser. Escolho ser. Exijo de mim ser. Sendo inteira: intrigante, seguirei em frente. Sendo aos poucos, aos pedaços, aos tropeços: me tornarei malabarista, catadora de partes, coladora de pertences, profi

8M >> Clara Braga

Tentam nos convencer que o dia de hoje é sobre flores. Nos chamam de guerreiras e nos dão parabéns. Se você não viu nenhuma imagem da mulher-maravilha no seu feed , jogue suas mãos para o céu. As clínicas de estética estão todas com promoções. Lipo, botox, harmonização facial e depilação à laser com preços super acessíveis, para você não deixar de se cuidar e continuar se sentindo mulher. Se você nunca foi questionada do porque não se comemora o dia do homem, acredite, você é uma privilegiada sim. Hoje não é, mas dependendo da publicidade que você vai receber, parece até que é dia das mães, afinal, ser mãe não é o sonho de toda mulher? Soube de empresas que já organizaram um super café da manhã para receber as importantíssimas mulheres que fazem parte da equipe. Mas pediram que elas cheguem um pouco mais cedo para celebrar sem atrasar o expediente, mesmo que isso bagunce a rotina delas. Aliás, essas empresas que colocam frases de efeito no quadro de avisos e enfeitam as salas com balõe

E AGORA? - Segunda Parte >> Albir José Inácio da Silva

  (Continuação de 21/02/2022)                                                          SOLDADO   Quando tudo parecia apontar para a recuperação da dignidade fardada, somos atirados outra vez no purgatório. Ou no inferno, se considerarmos a onipresença da internet.   Na infância, eu brincava de soldadinho. Soldados eram meus heróis. Não poderia ter seguido outro caminho. Muito jovem, ainda na escola militar, apoiei a gloriosa revolução de 1964. Era preciso salvar o Brasil do comunismo.   Mas nem tudo eram flores, nem todos eram perfeitos. Discordei quando ouvi sobre as torturas e assassinatos. Não precisava disso. Mas também me irrita o que dizem os livros de História. Erros todos cometem, e acidentes de trabalho acontecem com quem trabalha. Pior ainda a tal da comissão da verdade. A gente tinha que fazer essa gente engolir aquelas páginas de mentiras.   Eis que surge lá do fundão, do baixo clero, aquele que poderia mudar essa História e trazer de volta a dignidade.

A ÚLTIMA REVOLTA DE JESUS CRISTO >> Rogers Silva

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  Para Danilo Santana, que sempre achou que Jesus deveria ter morrido por algo melhor.  Doía, muito doía, e não havia nada que pudesse fazer para estancar o sangue que escorria. A impotência doía. Doía, e não enxergavam, não viam – ou não queriam ver? Doía e não era dor pouca, pois em todos os momentos se vira sozinho, todos desapareciam, sua única companhia era o desgosto, era. As aves no céu voavam indiferentes. E doía. Agora percebia enfim que doía, e não só percebia como sentia agora todas as dores passadas, agora. A solidão. A ausência machucava, doía. A ferida aberta, os vermes vindouros. As mãos doíam, e muito. As pernas doíam, e muito. O tronco doía. Muito. A flechada, os cuspes, a coroa, os espinhos – tudo doía. O sarcasmo era o que mais feria, doía. Os risos. Os socos tão somente neste instante sentia, e doíam, como socos dados em vão, porque em vão foram. Apenas serviram para aumentar a dor. A hostilidade. Valeria o sacrifício, valeria? O sol quente. O céu claro. A vontade d