NÃO ALI >> Carla Dias

Imagem © Lubos Houska por Pixabay

O desdobrar a toalha no corpo da mesa. Sobre ela, colocar os pratos, dispor os talheres, enfileirar os copos. Fechar as janelas para deter a chuva que chega ruidosa. Dentro das panelas, sambam sabores a serem conhecidos em um daqui a pouco cronometrado em um celular que também ordena que canções sejam tocadas na sala de estar.

Gatos se esgueiram pelos cômodos: nomes próprios, afeto garantido, todos os cuidados em dia. Refrescam-se ao desfilarem diante de um ventilador que promete e entrega alívio.

Há dias em que tudo o que se deseja é alívio. Há quando ele chega.

A música é gosto compartilhado, mas não há som mais agradável de se escutar do que o de gargalhadas soltas. Sentir saudade delas é tristeza que embrutece o espírito. Matar saudade delas é domingo no parque em plena terça-feira de apartamento.

As conversas visitam o passado, mergulham no presente e se entregam ao futuro. O tilintar de copos são promessas de que a vida será vivida, custe a vida – e o desejo em vivê-la − que custar.

Há uma guerra acontecendo. Há muitas batalhas se desdobrando nas esquinas de tantos lugares.

Não ali.

Imagem © Lubos Houska por Pixabay

carladias.com

Comentários

Nadia Coldebella disse…
Viver cada segundo como se não houvesse o seguinte, como se aquele fosse o eterno; viver com a vida e não apesar dela, abrir cada presente que ela dá com toda a eternidade que cada presente traz...

Querida Carla, tudo o que é necessário para que essa nossa vida estranha faça algum sentido você colocou ai, nessas poucas palavras.

Quem dera tivéssemos a coragem de existir apesar do tempo!!!

Grande abraço!
Zoraya Cesar disse…
Carla, que texto mimoso! E cheio de ensinamentos, sutis, como tudo o que vc escreve. Tão lindinho, fiquei amaciada aqui, pela singeleza e pela profundidade. Este dá pra ler numa tarde de domingo...
sergio geia disse…
O cotidiano de uma terça-feira narrado com delicadeza e lirismo. Que delícia, Carla, essa sua vertente. Como estou sedento disso tudo, sedento de vida,de muita vida. "Há dias em que tudo o que se deseja é alívio. Há quando ele chega." Precisamos de alívio. Precisamos de vida! Show, Carla! Você é sempre um show".
Albir disse…
Seus textos são uma forma de acolhimento. Sempre nos fazem bem, independentemente do tema. Beijos, Carla!

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