NO MAR >> Sergio Geia

 


As pequenas ondas teimavam em se formar, e como bolas de sabão que nada duram, logo quebravam fazendo espuma branca, ressoando a arrebentação que acalma e traz paz. Depois se transformavam em marolas mas tão transparentes, que pareciam água mineral, e vinham sossegadas beijar os meus pés. Onda beija? 

Gelada, bem gelada. E sim. Beija; um beijo frio. Eu não desistiria. Entrei devagarinho e fui deixando meu corpo ser beijado por lábios molhados e gelados. Primeiro os pés, as canelas. Quando começou uma ou outra, a querer bater no joelho, parei. Pensei: sigo ou volto para a areia? Abaixei um pouco, estiquei o braço, mergulhei as mãos. Fiz conchinha, joguei água no peito, num ombro, nas costas; entrei um pouco mais. 

Ainda duvidava, não tinha certeza; essas coisas, você sabe, é difícil ter certeza. Às vezes pensamos ter certeza, a convicção, um simulacro quando percebemos, ah, mas já escrevi sobre isso. A água, como dizia, estava gelada, mas havia sol, a temperatura era boa. No fundo talvez não quisesse seguir, ou talvez quisesse mas não tivesse coragem, e buscava desculpas. Mas ainda assim, bem devagarinho, eu seguia. 

A água já estava quase batendo no umbigo, meu corpo já se acostumando, então parei mais uma vez. Talvez a última? Não havia ninguém por perto. Tinha um casal de namorados um pouco mais distante, crianças, um velho careca, mas todos ficaram pra trás, bem pra trás. Talvez já estivesse um pouco no fundo, mas o mar estava calmo, não tinha perigo. Perigo... E pela primeira vez esbocei um sorriso: perigo era o que menos importava. 

Bem pertinho de onde eu estava, não havia decisões a tomar, não havia brigas, conflitos. Não havia exigências, nem um padrão, nem solidão. Não havia medo, nem angústias, nem qualquer sentido que a vida deva ter, não havia a esquisitice que aparece ao acordar e que de repente toma conta de você, mandando você ficar onde está, permanecer em seu estranho casulo, onde nada acontece, nada funciona. Estava fácil, fácil demais, eram mais alguns passos e tchibum, um jogar macio e suave, bastava se largar. 

Foi quando olhei pra trás, não precisava, mas olhei, talvez um erro. Olhei e descobri uma massa disforme de gente, um grupo de montanhas, e nuvens que, embaladas pelo vento, começavam a criar desenhos geométricos no céu. 

E, engraçado, muitas delas não se moviam. Inusitada a cena: as pequenas nuvens, levemente tingidas de âmbar, se movimentavam rápidas pela força do vento, criando desenhos fáceis de identificar, como um urso, uma cadeira ou um bule, até um avião. As demais, brancas e maiores, não saíam do lugar. 

E de repente vi. Sim, eu tive certeza, era um anjo branco, um grande anjo, talvez o mesmo anjo que Caio e Déa Martins viram na ponta do Gasômetro, na beira do Guaíba, em Porto Alegre, onde os Oxuns se encontram, maior que tudo e todos os desenhos formados até então, um anjão que me olhava duro e que nem precisava falar. 

Voltei-me para o meu mar um pouco emocionado, olhei para o infinito onde tudo se acaba, ou começa. E dei mais alguns passos, avancei em direção ao fundo, ao meu destino, a água me tomando mais e mais. Eu me lembro da onda batendo no queixo, às vezes no nariz me tirando o ar. Era a hora. Mas então, emocionado, sem conseguir conter as lágrimas que agora jorravam diante do erro estúpido, eu me virei e comecei a andar na direção do anjo que ainda me olhava, convencido de que fazia a coisa certa.

Comentários

Zoraya Cesar disse…
Que pesadão, Sérgio! Muito boa a história que lá pelo meio a gente já desconfia onde vai dar, mas não consegue parar de ler. E apesar de pesada, cheia de imagens poéticas, as visões dele me fazendo lembrar das pinturas de Hyeronimus Bosch, de longe, tão coloridas e mó vc imentadas,; de perto, tão cheias de dramas
Nadia Coldebella disse…
Nem sei o que dizer e talvez o que eu diga seja totalmente desnecessário. Mas
ler esse texto foi, por alguns segundos, uma esperança de quase tocar o infinito.

Ah, essa vontade de se lançar e a força de olhar para trás... Bem que eu gostaria de viver a vida num eterno estado de sentir o mar me envolver enquanto anjos me olham ao invés de sentir a areia escaldante nos pés descalços enquanto caminho sob o sol fervendo!

De verdade, Sérgio, q linda fase é essa q sua escrita está achando!

Gde abço
Darci Siqueira disse…
Belíssima crônica; e acredite, já estou com saudades de todos os gafes e situações que surgem quando estamos em uma linda praia. Quase desisto de ir embora do país, quando imagino os lábios molhados das lindas praias, nos abraçando com sua beleza extraordinária. Parabéns amigo, crônica incrível.
sergio geia disse…
Zoraya, Nádia, Darci, grato pelas palavras. O mar é uma fonte permanente de inspiração. Adoro uma música do Chico que diz "Passo o domingo olhando o mar, ondas que vem, ondas que vão".
Albir disse…
Muito bom mergulhar na sua crônica, com direito a perigos e salvamentos.
Carla Dias disse…
Esse entrar no mar me fez pensar em como às vezes é complicado sair de certas situações nas quais mergulhamos. Tenho adoração pelo mar. Não sei nadar. Água me dá medo, ainda assim, adoro. Adorei o seu mergulho.

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