SOLISTA >> Carla Dias

©  William Thomas Horton

Cansou-se de lidar somente com a realidade. Ela se nega a valorizar suas impaciências, amplificando-as em agonizantes tarefas carregadas de logística e sermões burocráticos. Em essência, tem se importado pouco. Mistura a dita com aparas de delírios, assim consegue enxergar seus malquerentes como impulsionadores de fascínios. Sabe que todos colecionam desafetos e que alguns deles sorriem mais bonito que outros. Aprendeu a identificá-los, a circular entre eles, a se render aos seus desprendimentos, mas não aos seus lamentos. É um permutar isso por aquilo desprovido de censura. E daí que ninguém converte interesse imediato em apreço por ele? Que seu currículo não sustenta mais do que conversas que minguam no terceiro drinque? Não é o único que vem convalescendo de solidão por período indeterminado. Leu isso em uma pesquisa que foi obrigado a pesquisar. Não está só no palco dos que escapam dos abraços de quem desejam. A humanidade anda solitária. As pessoas, ocas, à espera de um preenchimento que não chega. Ele também espera e suas esperas o moldam um pouco a cada dia, transformando metas em desvios, buscas em veleidades, conquistas em futilidades. Pretende declarar outro solista para a expiação das tramas solfejadas pela vida na carne da sua história. Nem se importa se tiver de arrancá-lo da ficção, mas necessita que esse alguém suporte sê-lo. Aquece as mãos na fogueira do fogão quatro bocas. Desiste do jantar. A fome o abandonou há cinco segundos. Despe a alma do desejo pelo vinho dormido na porta da geladeira. Jejuará suas faltas contínuas durante um capítulo do livro esquecido na estante há um tempo muito. Vai usá-lo no resgate do próprio interesse por uma história que não a sua.  


Imagem © William Thomas Horton

carladias.com


Comentários

Nadia Coldebella disse…
Somos solitários, solidários em uma solidão coletiva... Mais um dia de texto-terapia e mais um pedaço da alma exposta.

Maravilhoso e maravilhosa, o texto e a autora, respectivamente!

Bjo!!
Zoraya Cesar disse…
"Que seu currículo não sustenta mais do que conversas que minguam no terceiro drinque?" Que frase genial! Mais uma da Carla Dias, impressionante. E esse é mais um texto que graças a Deus não li num domingo de chuva.

O talento da Carla de transformar em palavras os sentimentos que não têm nome próprio é inigualável.
sergio geia disse…
"Aquece as mãos na fogueira do fogão quatro bocas. Desiste do jantar. A fome o abandonou há cinco segundos. Despe a alma do desejo pelo vinho dormido na porta da geladeira. Jejuará suas faltas contínuas durante um capítulo do livro esquecido na estante há um tempo muito. Vai usá-lo no resgate do próprio interesse por uma história que não a sua." Sem palavras, Carla. Por isso uso as suas. Elas, essas últimas, me fizeram tocar e sentir toda a solidão dele. E essa coisa de interesse em história que não as nossas, olha, profundo, grita reflexão.
Albir disse…
Que beleza, Carla!
Quantas vezes nos refugiamos em histórias que não as nossas.

Postagens mais visitadas deste blog

DIAS MELHORES >> whisner fraga

O MENINO DA MEIA PRETA >> Sergio Geia

O PAVÃO AZUL >> Sergio Geia