UMA CONSEQUÊNCIA POR VEZ >> Carla Dias

Fonte: https://www.dorotheatanning.org/life-and-work/view/407/

Eu me ocupo de demônios de estimação. Eu os alimento em horários fixos e os levo para passear. Tento educá-los, mas até agora, sem sucesso. Aceitei que não posso dominá-los, coordenar seus rompantes, enganá-los ao tomar calmantes. Também eu preciso deles, da tirania da coragem de cometer afrontas sem me importar onde respingarão as consequências. Tem dias em que as consequências esgarçam a paciência. Em que pensar nelas grita angústia nas horas que passam sem que haja um sinal de desafogo. Mas meus demônios ainda não venceram a guerra que travaram nesse mundo que sou. Não sei respirar fundo para me centrar. Não conheço — nem ambiciono conhecer — um jeito esse ou aquele de me sentir inteira. Mas que demônios! Não quero apenas me sentir isso ou aquilo. Uma vez que cheguei até aqui, prefiro ser. Escolho ser. Exijo de mim ser. Sendo inteira: intrigante, seguirei em frente. Sendo aos poucos, aos pedaços, aos tropeços: me tornarei malabarista, catadora de partes, coladora de pertences, profissional do quebra-cabeças de mim. Dançarei com as consequências a roçarem o meu corpo cambaleante e flácido e que assim seja. Meus demônios são de estimação, meus. Não pertenço a eles, ainda não. Necessários são os que se entregam ao desconforto de se desprenderem do que lhes agride o espírito. Encaram a violência da sensaboria que se segue a tal desapego. Ela sabe ecoar em um dentro fragilizado feito uma orquestra interpretadora das obras de um compositor de talento ímpar para esmiuçar demônios. Avivá-los. Instigá-los. Ciceroneá-los com harmonias impecáveis de desarmonizar afinidades e expor intolerâncias. Por vezes, escolho acreditar que caminho na direção de me libertar desses cárceres construídos. Há conforto provisório nesse pensamento, capaz de inspirar possibilidades perpetuáveis, dependendo do acontecimento que o transforma em meditação. Circulo por aí, dentro e fora, meus demônios a se perderem de mim, uma consequência por vez.

Imagem: Dimanche après-midi (Sunday Afternoon) © Dorothea Tanning. Fonte: The Dorothea Tanning Foundation - dorotheatanning.org/foundation

carladias.com


Comentários

Zoraya Cesar disse…
Meu Deus, mais um texto espetacular daquela que não tem o apelido de Princesa das Palavras à toa. Começa com uma sentença arrebatadora e fecha de maneira simplesmente sublime. Carla, esse é daqueles pra se guardar.
Alfonsina Salomão disse…
Concordo com a Zô, este texto está espetacular. Que ótima ideia, demônios de estimação!
Nadia Coldebella disse…
Realmente, sensacional! São tantos e tão estimados que já parecem fazer parte de ser.
Qto mais eu leio o q vc escreve, mas eu tenho certeza que essa sabedoria deveria ser compilada em livros feitos para resistir ao desgaste dos tempos imemoriais...

Bjs
sergio geia disse…
Um convite a ir a fundo, para os corajosos, claro. Carla, vou levar essa flechada comigo por algum tempo, até, quem sabe, reconhecer (sim, e isso é bem mau) os meus.
Albir disse…
Perfeito, Carla! Vou por aí também a apascentar os meus.

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