SOL SOMBRIO - O CONTRATO - PARTE III >>> Nádia Coldebella


Durante a madrugada, todos os gatos são pardos.

O Negro escorara-se em uma parede velha, defronte a um colosso arquitetônico desprovido de sentido. Tratava-se de um prédio antigo, construído em uma época em que espelhos eram sinais de refinamento. Mas, no caso especifico daquele edifício, o que eles faziam era apenas refletir a feiura e contribuir para a decadência daquela área. 

Ele ouviu os solados vermelhos dos sapatos branquíssimos baterem pesadamente nas pedras da calçada. Hyalin tentava se camuflar na névoa calorenta da madrugada. Impecavelmente vestido, ele tentava se parecer com um humano qualquer carregando uma sacola de papel nas mãos, mas sua falsidade era denunciada pelo próprio reflexo nos vidros embaçados do prédio. 

Ciente de ser completamente ignorado, Morus estendeu displicentemente as asas, enquanto via o gêmeo parar e tirar o livro da sacola. A luz incidia diretamente sobre a cabeça descorada, desenhando uma aureola de benevolência. Ele se assemelhava à uma vela iluminando a madrugada densa. 

Hyalin guardou o livro e entrou no prédio. 

____

Mas os gatos pardos também caçam nas horas mais escuras.

Um carro preto estacionou próximo ao prédio. Poderia ser um clássico antigo, mas era um carro popular, velho e desconjuntado, sem grandes atrativos, bastante diferente da mulher que saiu de dentro dele. 

Ela usava um vestido de seda cinza, justo na cintura e levemente evasê, que se estendia até o joelho. Sobre ele, jogara um casaco aberto, de linho cinza, do mesmo comprimento do vestido. Os cabelos, levemente grisalhos, estavam presos num coque baixo bem estruturado e sério. Nos lábios trazia um batom claro e nos olhos, óculos de grau, de aros prateados. Nos pés, um sapato também cinza, de salto apenas alto o suficiente para lhe garantir a elegância e a discrição. 

A mulher cinza evitava a própria imagem semiluzente refletida na obsolescência dos vidros. Diferente do Branco, Morus pode ver que se tratava  de uma perfeita humana, cujo sangue parecia correr rápido o suficiente para ruborizar-lhe a face. 

Ela colocou as mãos no bolso do casaco e retirou uma caneta de ouro. Parada sob a mesma luz que Hyalin havia parado, ela admirou a ponta metálica extremamente longa e fina do objeto. Completamente estarrecido, Morus observou que a caneta continha inscrições muito antigas que refletiram a luz da noite. A mesma luz que incidia nos olhos da mulher cinza, revelando neles milhares de estrelas, que poderiam ter sido desenhadas no véu da noite, se a poluição da cidade não escondesse o céu. Ela guardou a caneta no bolso do casaco e voltou a caminhar.

Perto da entrada do prédio, seus passos eram incertos e, por um breve momento, seu viço desapareceu. Ela virou o pescoço e olhou em direção a Morus, parecia enxergá-lo, mas via apenas o vazio. O anjo, porém, recolheu as asas e aproximou-se dela, colocou a mão sobre seu ombro e a acompanhou enquanto ela adentrava no edifício.

______

É depois da hora mais escura que vem o amanhecer.

Por dentro, o prédio era alto e estreito. A mulher cinza apertou o botão do 27º  andar e, poucos minutos depois, a porta do elevador abriu para um corredor bem iluminado, mas caquético. Um tapete de veludo vermelho e bastante gasto por inúmeras pisadas se estendia até a única porta, marrom e bem comum que emoldurava um olho mágico. 

Ela estendeu o indicador e apertou delicadamente a campainha. Morus observou a luz sendo refletida em suas unhas prateadas, compridas e bem feitas. Ela esperou alguns segundos e logo a maçaneta girou. O próprio Hyalin era quem abria a porta e a ausência da pomposidade impressionou O Negro.

Sem notar a presença do gêmeo, O Branco tomou as mãos da mulher cinza entre as suas e as beijou. Ao sentir o contato gelado dos lábios albinos, ela as retirou rapidamente, depositando-as nos bolsos do casaco. Hyalen sinalizou para que entrasse e, enquanto ele fechava a porta, a mulher se viu em uma enorme sala, branca e bastante iluminada. 

O reflexo das luzes nos pisos vítreos provocou-lhe a impressão de flutuar, mas o estranhamento logo passou, quando ela ouviu o barulho de passos pesados. O anjo tomou a frente e indicou-lhe uma cadeira de aço branco, na qual ela sentou desconfortavelmente. Enquanto ele tomava seu lugar no acento prateado atrás da mesa de pedra branca, Morus posicionou-se atrás da mulher, deliciando-se com o contraste dos seus sapatos afundando no tapete branco incrivelmente raro do irmão.

Hyalin retirou de uma gaveta um papel, que colocou em frente à mulher. Barganha Faustiana, era o que lia-se no cabeçalho do documento que ela examinou com profunda concentração, enquanto O Branco remexia na caneta tinteiro sobre a mesa. A mulher levantou os olhos das páginas e ele estendeu-lhe a caneta, mas ela a afastou com uma das mãos e retirou a sua própria caneta do bolso. Ele esboçou um sorriso quando ela assinou, uma a uma, as folhas do documento que ele retornou a guardar na gaveta. 

Depois, o anjo colocou sobre a mesa um pacote de papel e dele retirou o livro. Olhando melhor, ela notou tratar-se de um caderno bastante antigo, de couro bruto, que O Branco abriu sobre a mesa, apontando para o lugar, abaixo de outros tantos nomes escritos, alguns já danificados pela ação do tempo, em que ela deveria escrever o seu.

Enquanto O Negro, atrás dela, abria majestosamente as asas, a mulher cinza levantou-se da cadeira e estendeu o  braço, revelando o pulso e perfurando-o com a ponta da caneta de ouro. O sangue jorrou rubro, mas a mulher não se abalou, continuando a mergulhar nele a ponta da caneta. Inesperadamente, com a destreza de um felino, ela elevou elevou-se no ar e desceu rapidamente, direcionando a ponta fina e ensanguentada da caneta para o coração de Hyalin. 

Morus gritou, mas não houve nada que pudesse fazer. Antes que se revelasse, Hyalin estendeu as asas afiadas e cortou a mulher ao meio. Mas nem sangue nem entranhas mancharam o raríssimo tapete branco. A mulher cinza desfez-se em névoa ao ser golpeada pelas asas do anjo albino.

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Continua em 24/03


Leia as partes anteriores de Sol Sombrio aqui:

Os irmãos - Parte I

O ajoelhado - Parte II

Comentários

Zoraya Cesar disse…
Nadiaaaa, Countess, isso não se faz!!!
Essa história poderia virar uma novela, tá boa demais!! Amei os subtítulos do gato pardo. As descrições estão ótimas, dava pra ver tudo na mente. Vamos conversar sobre aquele suborno pra vc me contar logo o final!
sergio geia disse…
Caramba, Nádia. Isso está bom, hein? Mande mais...Mande mais....
Nadia Coldebella disse…
Obrigado por vcs dois reservarem uns minutos pra ler e comentar. Comentários são os únicos feedbacks do autor!
Albir disse…
Que maravilha! Mulheres cinzas, elegantes e assassinas que se desmancham no ar. Eu já estava em abstinência. Você precisa escrever toda semana.

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