ESTÔMAGO >> Carla Dias


Tem um sonho escondido no estômago. Só de visitá-lo em pensamento, o tal dói de fazê-lo expressar careta. Desde muito moleque é assim. Basta o sonho sair do exílio, e visitar seus sentidos, que suas emoções ficam desarranjadas. E cospem na sua cara o que ele se esmera em esconder de si e de qualquer um que se atreva a observá-lo mais de perto.

Passou a vida em consultórios a tratar enfermidades. Nunca identificaram a moléstia que o acomete, ainda que seu estômago viva a atacá-lo, de deixá-lo acamado durante dias, privado dos prazeres de se deliciar com certas comidas, com as delícias das bebidas capazes de embriagar até levar a nocaute até mesmo os irritantes demônios que constroem seus impérios nas barras das saia da miséria. 

Quando escuta alguém a tecer floreados ensejos aos sonhos, revira os olhos, ainda que em seu interior ecoe um descarado desejo de olhar para ele, o sonho encarcerado, boiando no rio ácido do seu estômago, gritando sua necessidade — e direito — de se realizar.

Sua vida tem sido uma coleção de antiácidos, desafios enfrentados e sucessos concebidos na dobra da felicidade, o que mantém os sorrisos desbotados e as paixões aguadas. Também coleciona desafetos, mas esses não o perturbam. Na verdade, são eles que garantem que o ser não se dispa de vez da sua humanidade. São as atrocidades a ele desferidas — e a tecnologia tem sido uma parceira exemplar nessa flechada — que mixam verdades catastróficas com mentiras ensaiadas em laboratórios de imaginários fantásticos. E o fantástico exerce nele o poder do fascínio. E o fascínio dói nele menos do que um estômago embrutecido por um sonho recusado.

Os que escrevem poemas e canções que despertam esperança até nas pessoas de emoções áridas, talvez evitem o sonho que mora nele feito uma lesão incurável.  Eles que são dotados da capacidade de segurar o sonho com seu olhar-sentimento, e de fazê-lo bailar ao vento da bem-aventurança, jamais flertaram com o destempero daquele que carrega afogado no silêncio, aquela ousadia brotada a contragosto, um infortúnio que não para de minar perigo às proteções que vem construído para si mesmo.

Porque ele faz sentido no papel que interpreta, mas não quando é o que sente, de quando o estômago lhe dói de fazer gritar a incongruência dos seus papéis desempenhados na rotina e a realidade morando na garganta do sonho que não morre. Chega a viver no rastejo, mas não acaba. Fica ali, babando possíveis armadilhas passionais e embalado em coragem que não desbota. E que o faz, de vez em quando, pegar-se murmurando diante de um copo de água e a vista da janela da cozinha, “eu tenho um sonho que não sei sonhar.”

Engole dois antiácidos.

         

Imagem: Marcelo por Pixabay

carladias.com

Comentários

Nadia Coldebella disse…
Querida Carla

Quando eu digo que seus textos são textos-terapia, eu não estou brincando.

O leitor precisa ser paciente, tanto no sentido de aguardar as palavras entrarem e produzirem os efeitos necessários, quanto no sentido de ser passivo e deixar que isso aconteça.

Porém, com os seus textos, a passividade termina aí. O confronto que ele proporciona ao leitor exige dele um trabalho psicológico ativo para elaborar e assentar o significado que cada palavra traz às dores que são comuns, mas individuais.

Se o leitor deixar que as palavras passem sem agir sobre elas, elas se tornam vento e logo tempestade. Agora ele não poderá mais fugir da consciência da própria dor. Mesmo se negar, elas ainda estarão aí cutucando, mexendo, expondo, até que o leitor decida fazer alguma coisa com isso.

Um texto maravilhoso como sempre. Agora vc me deixa aqui, exposta, pensando no meu sonho não sonhado...

Grande beijo!
sergio geia disse…
Ter um sonho, e não saber sonhar. Somente essa frase já é suficiente para a reflexão penosa. Carla, concordo com Nádia. E digo mais: vejo os seus textos sendo debatidos numa roda de estudiosos que buscam entender melhor a vida.
Zoraya Cesar disse…
Eu e minha teimosia em ler Carla Dias num domingo à noite. A gente fica impactado até dizer chega, mas nunca chega, pq é irresistível. "eu tenho um sonho que não sei sonhar.”. Quase uma história de terror psicológico sem final redentor. Como disse, impactante. Mas nada a estranhar, é a clássica Carla Dias!
Albir disse…
Impactante. Ter um sonho e não saber sonhá-lo!

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