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Mostrando postagens de Novembro, 2009

LAUDICÉIA >> Albir José da Silva

Laudicéia sentia o bafo quente que entrava pela janela. A blusa azul-claro do uniforme estava azul-escuro e colada no corpo. Tinha sede que a água morna da garrafa pet não saciava. Quarenta minutos com vontade urinar e o ônibus sacolejando no engarrafamento. Finalmente entra na Avenida Atlântica e um vento fresco chega do mar. Um mar azul e branco, comprido que não acaba mais, como se não houvesse ônibus engarrafado, quente, que não chega nunca, e passageiro desaforado. Se pudesse aproveitava esse sinal, saía sem se despedir do motorista, e entrava no mar. Molhava de água fria e salgada a roupa já úmida de suor e esvaziava a bexiga nesse marzão, com um gemido de alívio. Se pudesse, mas não pode.

Não pode porque pela manhã deixou a filha com febre que durou a noite toda. Sua mãe também tossia já há uma semana. Fica até pensando se a febre não tem alguma coisa a ver com a tosse. Lá ficou apenas um litro de leite pela metade e um pouco de arroz. O pedido de vale foi negado de novo. “Só n…

LIVROS QUE AINDA NÃO ESCREVI
>> Eduardo Loureiro Jr.

Sou platônico até em relação à escrita. Apesar de ter seis (ou sete) livros publicados, fico idealizando mesmo é aqueles que ainda não escrevi...

AS TRÊS DEUSAS. Esse é um livro sobre os três tipos básicos de mulher que os homens procuram: a deusa do amor, a deusa da beleza e a deusa da sabedoria. O livro tem três partes. Na primeira, são apresentadas deusas do amor, da beleza e da sabedoria em várias culturas diferentes. Na segunda parte, discorro sobre os três princípios relacionados a essas deusas: deusa do amor, princípio da satisfação; deusa da beleza, princípio do sonho; deusa da sabedoria, princípio do realidade. Na terceira parte do livro, apresento três textos ficcionais baseados em minha experiência afetiva e sexual com mulheres que representaram para mim os princípios-deusas do amor-satisfação, beleza-sonho e sabedoria-realidade.

AERONAVES NO PÁTIO. Esse é um livro escrito em parceria com meu caro amigo interno do pátio Fabiano dos Santos. Quando eu morava em Fortaleza e el…

OCULTOS [Debora Bottcher]

Às vezes, ela se sente moradora de uma casa de cartas de baralho sob um telhado de vidro onde há reflexos que refletem o que não existe... Às vezes, ela julga que está sendo mordida por uma cobra morta e sente o corpo arder, inchar, ir-se no delírio de um segundo antes de amortecer... Às vezes, ela tem saudades de alguém que nem sabe quem é e fica tentando divisar uma imagem que não tem expressão em cada lugar por onde passa. Sonda as flores, toca as brisas, se encanta com as abstrações. Às vezes, ela tem a impressão de que alguém tem saudades dela...

Tem dias que mudam nossas vidas... Tem dias que enganam: prometem um desastre e terminam bem — ou vice versa. Tem dias em que é insuportável viver.

Ela se debate, perde-se entre a lógica e a ilusão: uma mente que desconhece o sossego. Descobre que há pessoas para quem se precisa dizer pouca coisa; outras, com quem se pode ficar sempre em silêncio. E outras para quem por mais que se fale é quase impossível se fazer entender...

Sabe que há …

PARATI >> Leonardo Marona

se te visto com meus olhos você diz que é errado, mesmo assim li teu texto, não com os olhos mas com a boca, pouco antes de por causa da falta, de mãe me doeu você ter me mandado embora daquela maneira mesmo que eu tenha engolido teu texto assim como hoje engulo este porque neste pensamos ao mesmo tempo no mesmo poeta percevejo das horas vadias vazias que se foram para sempre deixando para trás apenas meu resto e teu rastro na ferrugem da banheira que secava momentos durante os quais passeávamos juntos no parque e contávamos mentiras baixinho deitados sobre o lençol velho e fajuto, você vomitava gomos de cacau enquanto eu forjava seriedade castradora até que você me soprava música numa língua inventada pela minha orelha sem pensar em nada a não ser dois sendo um mesmo e andávamos sem as mãos dadas porque éramos fortes o suficiente ou pensávamos enquanto esquecíamos o quanto era injusto ficarmos juntos precisando tanto cada um de si mesmo enquanto olhávamos casais de braços dados, com …

VOCÊ TEM FOME DE QUÊ? >> Kika Coutinho

Em uma das tantas tentativas de dividir o mundo em dois, diz-se que existem as pessoas que vivem para comer e as que comem para viver. Foi lá pelos 15 anos que eu notei que faria sempre parte do primeiro grupo. Notei que isso poderia ser um problema quando namorava o namorico dos adolescentes e meu doce príncipe perguntava, naqueles momentos de silêncio compartilhado: “No que você está pensando?”

Pronto, ali iniciava-se meu drama. Ele certamente esperava que eu dissesse que estava pensando na gente, no nosso futuro, nos lindos olhos dele ou qualquer coisa assim, mas, sempre que ele perguntava no que eu estava pensando, eu estava pensando em comida. E ficava ali, meio sem graça, respondendo que não estava pensando em nada, só pra não dizer a verdade. Eu fazia um charme e dizia: “Em nada não...”. Ele nunca aceitava. Vai ver imaginava que eu estava pensando em outro, o que seria muito pior. Seria? Seria pior do que dizer a verdade. Às vezes eu ensaiava a honestidade: “Ai, amor, estou pen…

O QUE NOS FAZ QUEM SOMOS >> Carla Dias >>

Acontece frequentemente comigo. Uma música, um filme, um livro, uma fotografia, uma pessoa.

Há períodos em que me apego a um, mesmo sem deixar de lidar com os outros. E a sensação que isso provoca é tão boa que já me vi tentando, em vão, logicamente, fazer a mágica acontecer. Mas esse um me pega de jeito e não o contrário. É uma surpresinha emocional que acontece, vez ou outra, e me faz reavivar a alegria de acreditar que somos feitos de mais do que planos, projetos, rótulos, desapontamentos. Que há espontaneidade das boas em nós, e ela é que nos tira do desfecho de nos transformarmos em marionetes do que reza, nem sempre com sabedoria, a realidade nua

Com uma única música eu sou capaz de passar dias com o coração transbordando, abarcado por emoções diversas. Nem sempre são canções de amor, na verdade, muitas vezes são canções sobre o que nos leva a reconhecer o amor: respeito, companheirismo, fé na liberdade e em cada batalha travada pacificamente por ela.

E uma pessoa pode mudar o meu …

PERIGO: CASAMENTO
>> Felipe Peixoto Braga Netto

Casar é perigoso.

Eu nunca afirmo nada sem provas, então vamos a elas.

Ontem, caminhando à noite ali pela região hospitalar, estava calor. Sabe aquela igreja que fica em frente aos hospitais? Pois bem, havia um casamento, havia convidados, noiva, noivo e até padre. Não sei se foi o calor, não sei, mas o noivo, caminhando para o altar, achou melhor cair, e caiu mesmo. Caiu tão caidamente que se machucou. Levaram o pobre para o hospital em frente. Foram todos, até o padre. A noiva também, de vestido e tudo. E eu, fiel repórter que sou, afirmo que até onde soube o noivo se feriu gravemente, e talvez não houvesse mais casamento.

Falo com certo tom irônico e sinto culpa porque, afinal de contas, pareciam boa gente, devem ter se esforçado para pagar tudo aquilo, casar é caro. Além de perigoso.

Na mesma ocasião, soube de outra prova irrefutável.

Nesta mesma cidade, isso faz algum tempo, houve casamento. Esse pelo menos aconteceu, o padre cumpriu seu dever. Mas, depois do casamento, costuma h…

ENCHIMENTO >> Eduardo Loureiro Jr.

Para um homem, é difícil acreditar que o tamanho do pênis não importa. E eu só acreditei porque comprovei na prática. As mulheres que tive nunca reclamaram do tamanho do meu pênis, embora eu não o considere grande. Claro que uma ou duas delas queriam que o pobrezinho chegasse a regiões que ele jamais alcançaria sem algum tipo de prolongamento artificial, mas nada que abalasse minha auto-estima nem o prazer delas.

Mesmo com essa insegurança, que parece ser comum a muitos homens, nunca me ocorreu fazer com que "ele" parecesse maior do que realmente é por qualquer outro meio que não fosse o natural: a excitação. Mesmo sem ser gigante pela própria natureza, meu companheiro de cama costuma ficar apertado dentro da calça ou do calção, e seria cruel apertá-lo ainda mais colocando algum tipo de enchimento.

Para mim, a principal prova de que tamanho de pênis não importa é que tamanho de seio ou de bunda também não importa. Pelo menos não na hora H. Claro que na idealização, no sonh…

TENSÃO DO RECIFE >> Leonardo Marona

"os viciados"

eles já não precisam mais de nós
nem mesmo no Harlem americano.
sedentos e pálidos caminhamos,
cheirando a caramelo, nós os que
se atiram cegos na primeira chance,
e se arriscam por trás de pilastras.
peço a gentileza de atravessarem
em silêncio, em reverência retirem
todos os seus chapéus e escarrem
no chão pela passagem meteórica
dos que suportam a terra nas costas.
não pensem que vieram de longe,
estão nos quartos, cheirando a mofo,
atraídos ainda pela prima vertigem.


"elegia do recife"

faça-me escrever em lágrimas,
recife, e limpe toda a incompreensão
da saudade forçada nas virilhas.

serei agora forte, como tuas ruas
semi-asfaltadas, os paralelepípedos
da tua dor, onde enfiei em sangue
a âncora do meu tesão, nos corais.


"rúbia"

você me
olha sem
querer
nos olhos
e já não sei
se tenho
olhos para
ver nos olhos
o que não
vejo mais.


"luana"

existem narizes que codificam a existência.
e não são só narizes, são olhares ávidos
em direções opostas, e além do nariz,
há també…

Querida Sofia,

Você ainda não sabe, mas a cidade está ficando muito diferente.

Hoje mesmo, aqui embaixo, no prédio, começaram a enfeitar as árvores. Os shoppings já estão todos iluminados e coloridos, puseram árvores enormes dentro deles, com laços e pisca-pisca diversos. As luzinhas colorem e embelezam a noite de São Paulo.

E sabe o que isso significa?

Isso significa, filha, que você está para chegar... E a cidade — não, a cidade só não — o país, o mundo inteiro, está enfeitando as árvores e as ruas com luzinhas brilhantes para recepcionar você.

Logo que eu soube que estava grávida, lá para abril ou maio, eu pensei: "Quando ela chegar, vai ser uma festa". E está sendo mesmo. O curioso é que eu não avisei o zelador que você estava chegando, não falei nada para o prefeito nem para os donos dos shoppings, mas eles devem ter visto o tamanho da minha barriga, e logo imaginaram. Eu bem que achei que o porteiro cutucou o faxineiro aqui do prédio a semana passada, quando me viu. Não pude escutar …

A MULHER, A MENINA E O DUBLÊ
>> Carla Dias >>

Era uma vez uma mulher com a cabeça bagunçada de tantos pensamentos, cobrando-se atitudes, concentração, a prática de tomar decisões e responder mensagens, desatolar os projetos em pauta, exorcizar algumas culpas e por aí vai. Ontem, de tão cansada, essa mulher, ao chegar em casa, tomou um banho e se deitou na tentativa de dormir e parar esse barulho todo na cabeça. Não deu certo.

A mulher, ouriçada com essa ansiedade que não sabe de onde vem, recorreu ao controle remoto e ativou sua amiga noturna: a televisão. Quem sabe um seriadinho curto e alegrinho, bobinho, daqueles para arejar, não a ajudaria a cair no sono.

Fato é que essa mulher, que tem dias de doida de pedra, meus amigos, como ontem, não estava preparada para um filme que encontrou na televisão, depois de um tempão zapeando. Mas quem disse que há realmente como nos prepararmos para as sensações que são surpresas? Ou mesmo para as que já sabemos quando chegarão, devido às circunstâncias com data e hora marcadas? Bobagem essa de…

ACABA NÃO, MUNDO
>> Felipe Peixoto Braga Netto

Dizem que em 2012 o mundo vai acabar. É uma pena, eu tinha bons planos para ele. Não para o mundo, com eme maiúsculo, mas para o meu mundinho mesmo. Pelo menos o mundo vai acabar numa data bonita, numa data especial: em 2012 faz dez anos que cheguei em Minas. Merecia placas, fogos, explosões. Opa, que dizer, nem tanto, vai que o mundo tá ouvindo e leva a sério...

Acaba não, mundo! Pensa bem. Eu sei, há coisas feias e más, se eu fosse você de vez em quando também ia querer explodir. Mas veja o outro lado: tem eu, tem a Praça da Liberdade, tem as filhas de Minas, tem tanta coisa linda por aí. Acabar assim, sei não, é desperdício, não acha?

Afinal de contas, eu nem fui assim tão feliz ainda... Eu sei, eu sei, sou meio ingrato, mas isso não é motivo para acabar tudo, é? E os filhos que ainda não tive, eu boto onde? Porque eu certamente teria se você não fosse tão radical assim. E seriam pessoas legais, você sentiria orgulho.

É verdade que, você acabando, acabariam também alguns problemas:…

A CANETA >> Albir José da Silva

Fico esperançosa com a nova folha limpa. Quem sabe agora vai? Já começou tantas vezes. Eu ficava animada com a determinação com que era empunhada. De repente, num gesto brusco, tudo riscado. Já perdi a conta das folhas amassadas.

Por que ele não insiste? Por que não acredita? Tem ótimas idéias. Até eu fico inspirada. Sinto vontade de continuar o texto sozinha. Vejo mil possibilidades...

Eu queria não me importar com isso. Se faço o meu trabalho, por que me preocupar com os outros? Por acaso alguém me cita ou pensa em mim quando lê alguma coisa? Nunca falhei, nunca borrei o papel, nunca manchei a roupa de ninguém – isto devia me bastar!

Três palavras, ...quatro, ...a mão está firme, escrevendo rápido. Já são duas linhas e parece que vai continuar. Aleluia! Não pare! Quem já escreveu meia página tem o que dizer. E este personagem pode render muita coisa. É só acreditar...

Traiçoeiramente a mão esquerda vai puxando o papel antes mesmo que eu me levante. Vou deixando um risco involuntário…

BROXEI >> Eduardo Loureiro Jr.

Nunca me aconteceu antes. Eu juro. Não que eu seja assim um sujeito infalível, mas quando se trata daquilo — ou disso — a verdade é essa: eu nunca havia falhado antes. Dava uma, duas... Mais de duas não, porque não vou mentir. De três em diante, só futebol de antigamente e orgasmo de mulher — se a gente acreditar no que elas dizem —, mas umazinha eu sempre garantia. Não precisava de muita coisa pra ficar a postos — se é que vocês me entendem. Tem gente que precisa de um bocado de estimulação, tentando pegar carona no ato alheio. Comigo não. Se está na hora, eu boto o time em campo e mãos à obra. Não que eu faça automaticamente, burocraticamente, feito quem bate ponto ou cumpre meta de desempenho. Nada disso. Faço por prazer, puro prazer. Fazer sem prazer é feito comer bombom com papel, e não estou me referindo a camisinha. É bom se precaver, tomar cuidado com o que vai daqui pra lá e com o que vem de lá pra cá, embora pensar nisso seja um pouco broxante. Será que foi isso: a expectati…

O LUGAR DO SAGRADO [Sandra Paes]

Faz pouco tempo uma rede aberta de televisão brasileira lançou uma série com o nome de “O sagrado”.

Fiquei entusiasmada pela novidade. Ando enfadada com todos os programas de humor sem humor algum, a repetição crônica dos mesmos temas, mesmas caras e o enfadonho estilo de autopromoção, como um programa contínuo de narcisismo, pra mim inútil e totalmente desnecessário.

Sim, sou uma pessoa fora de moda. Não faço parte do quadro da popularidade das pesquisas, não ouço Madonna e me confesso encolhida diante dos sons de rock and roll nos autofalantes dos carros ou em qualquer outro espaço. Aquela batida, tipo bate-estaca, me deixa fora de centro e, de fato, me dá a sensação de desalinho dos chakras. O mundo anda barulhento demais para o meu gosto e o que se expõe nas vitrines me parece sempre uma ode quase que ridícula — pra ser delicada.

Faz tempo não experimento algum entusiasmo com relação a programas de entrevistas, até por que os entrevistadores parecem sempre tão medíocres a falar em to…

A NOVA INQUILINA >> Leonardo Marona

Dela só sei dos objetos, uma foto com chapéu, alguns livros de pintura, muito Julio Cortázar e, até certo ponto – e temo que isso venha a se tornar um passatempo um tanto contumaz –, me satisfaz saber que ela existe, em calcinhas para lavar e pontas de cigarro, nada mais, até aqui.

Não saber de sua pele me dá a chance de navegar por suposições agradáveis. Será que ela inclina levemente a cabeça para a direita quando sorve o café – adoçado ou puro? Poderíamos, fico imaginando, nos comunicar perfeitamente em códigos ausentes, diagnose do sentido, feixe de imagem improvisada?

Confesso: gostaria muito que ela deixasse as calcinhas penduradas na torneira do chuveiro, depois de lavá-las. Não exatamente por fetiche, mas por segurança. Talvez haja algo de maternal nessa vontade: é provável.

As coisas foram se acumulando pela sala, como um corpo desaparecido que habita os confins de uma intimidade violada mesmo antes de se estabelecer. É tudo muito confuso. Ela anda, bebe líquidos, acumula pequen…

A TOALHA >> Kika Coutinho

Era uma tarde de verão e, talvez por isso, havia tanta gente na piscina da academia. Quando a aula acabou, o vestiário ficou lotado de mulheres, a sua maioria muito jovem, lutando por um chuveiro à sombra.

Para guardar o meu lugar, tratei de pendurar a minha toalha no primeiro chuveiro que vi e, só aí, fui buscar meu shampoo e afins. Deixei a mochila da academia no armário, e voltei ao chuveiro reservado. Estava tudo normal na minha cabeça, um banho quentinho, um vestiário cheio e eu sempre meio atrasada pra alguma coisa que nem lembro o que era. Já estava do lado de fora, me secando, quando notei a pequena confusão. Uma menina, adolescente pra adulta, dando um piti porque tinha sumido a toalha dela. “Ai, que gente estressada”, eu pensei, secando o cabelo e assistindo à confusão. A menina falava sem parar, que tinha deixado a toalha dela — azul — pendurada no chuveiro, foi na sauna um minutinho e, quando voltou, não estava mais lá, a toalha, e ela precisava tomar banho, e como ia faze…

NO ESCURO > Carla Dias >>

Passamos, naturalmente, porém nem sempre com a graça necessária, pelos revezes da vida moderna. Da velocidade com que produzimos facilidades ao susto que tomamos ao nos darmos conta de que ontem foi janeiro e hoje estamos em novembro. O tempo e as conquistas se misturam.

Ontem saí do trabalho e em vinte minutos estava em casa. Deu tempo de comer alguma coisa e assistir ao esquisito episódio de um dos meus seriados “quase” preferidos. Na minha lista de afazeres da noite de terça, espremiam-se vários isso e aquilo. À noite é quando coloco a minha vida pessoal em dia, o que inclui lavar, às vezes passar, limpar, ouvir música, ler, escrever... Sonhar... Fazer nada.

O apagão de ontem, que chegou a tantos estados se achando, mostrou-me como ando desarmada no quesito “fazer o quê?” Explico...

Depois de assistir ao tal seriado, minha lista dizia para eu começar a leitura de um dos livros sobre televisão e cinema que um amigo me emprestou. Também estou com dois filmes emprestados e um deles tinha…

O MAR E OS MINEIROS: A PROVA QUE FALTAVA
>> Felipe Peixoto Braga Netto

"O mar, meu filho, é uma espécie de saudade..."
Guimarães Rosa

Não haverá estudo decente sobre a alma mineira que exclua o mar. O mar, paradoxalmente, é algo mineiro. É algo que participa da psicologia de Minas. Não, claro, no dia-a-dia dos mineiros. Mas nos desejos distantes traduzidos naquele leve desabafo: "ah, se eu estivesse..."

Achei engraçada uma publicidade que vi tempos atrás: belas fotos de lugares típicos de Belo Horizonte. Só que atrás de todos eles havia, para espanto e prazer, o mar. Foi uma vingança divertida contra a natureza.

O leitor já presenciou um encontro do mineiro com o mar? Eu já. Abandona-se tudo: roupas pelo caminho, carro na calçada, mãe no hospital. Tudo passa, na lógica sedenta de sal, a ser secundário e pouco importante frente às azuis possibilidades marítimas.

O mineiro, conformado porque é o jeito, agora deu para zombar do mar. Li numa camiseta, dia desses, a seguinte frase: "Eu tenho pena do mar porque ele não banha Minas". Eu…

SONHOS TORTOS >> Eduardo Loureiro Jr.

Só pra vocês terem uma ideia...

Essa semana sonhei que meu time ganhava de 3 a 0, três golaços, um deles do meio-de-campo. Até me espantei, porque não sou muito de sonhar imagens, sonho mais sentimentos. Se sonho beijando, não vejo a boca, apenas tenho a sensação do beijo. Então eu podia ter sonhado apenas com o sentimento bom de meu time ter ganho, de goleada, e com três golaços. Mas não, sonhei as imagens de cada gol, com direito a replay, e acordei animado, ansioso pra ver o resultado do jogo a que eu não assisti porque fui dormir cedo na noite anterior. Para meu desencanto, o portal de notícias indicava o placar de 1 a 1. Mas, para que eu não pensasse que meu sonho tinha sido inteiramente absurdo, a manchete completa era assim: "São Paulo lidera de novo: 1 a 1 com 3 expulsos". Eu sonhei três golaços enquanto a realidade apresentou três expulsões. Isso é que é sonhar torto!

Minha família, principalmente as mulheres, costumam ter sonhos premonitórios. Minha avó e uma de minh…

CERTO OU ERRADO? >> Eduardo Loureiro Jr.

Dá pra entender por que somos conhecidos por homo sapiens? Quantos homens, e mulheres, realmente sábios você conhece?

Deveríamos nos chamar homo certus. Porque todos nós sempre achamos que estamos com a razão. Eu escrevendo essas ideias malucas, você lendo (se está gostando, acha certo; se não estiver gostando, acha certo estar criticando), o advogado, o médico, o professor... todo mundo se acha certo. A torcida do Flamengo, e a do Vasco também.

Até quem faz a coisa errada se acha certo — basta entrevistar qualquer criminoso que se preze para ver ele se auto-inocentar de qualquer culpa. E mesmo quando o pecador assume o pecado, ele acha que está certo em admiti-lo. Ainda estou pra ver alguém que faça alguma coisa que não está certa sem nenhuma justificativa, sem defender uma ética labiríntica, sem dizer que fez porque quis — pois  fazer o que se quer é considerado certo. Se alguém dissesse que fez algo errado por um motivo errado e que desconfia estar errado de estar contando tudo, po…

TEMPO DE PAZ [Debora Bottcher]

Daí, nas tardes quentes de novembro, quando o sol arde calmo e claro, nós andaríamos sobre a areia branca da praia, de mãos dadas, calças curtas e pés descalços, roçando as ondas, juntando conchas e estrelas-do-mar para selar um tempo encantado de paz.

Bem perto das rochas, encontraríamos uma cigana, olhos brilhantes e cabelos negros, búzios sobre um xale vermelho estendido, que leria nosso destino: "Felicidade pra Sempre".

Percorrendo o caminho de volta, sorriso nos lábios e alegria na alma, o silêncio seria quebrado apenas pelo vaivém das ondas. Nenhuma palavra precisaria ser dita.

Na varanda da casa, ao pé do mar, nós nos sentaríamos no banco de madeira rústica, quietos e cúmplices, para namorar a noite enluarada invadindo o dia. Mais um dia — e nós juntos mais uma vez...

Mais tarde, uma fogueira iluminaria nossos rostos, assando peixe, pão e batata. Vinho branco. Nada mais.

E muito mais tarde ainda, sob a lua iluminada e o mar azul marinho, nós nos amaríamos na areia branca,…

O QUINTO DIA >> Leonardo Marona

Sobre o que for carregado, ser sobre o que fosse nada, rir e chorar desacordado, como o filho que não nasceu, olhar mais um tempo, negar o sórdido, esperar pelo vento, abraçar o sórdido, já que o vento não veio, pensar em cactos sedentos de areia, pensar em como os cactos são como nós mesmos, metáforas repartidas com uísque nacional, escutar a manhã de Grieg num antigo desenho animado, fazer carinho no próprio carro, uma charrete enguiçada, pensando numa antiga namorada, que desligou o telefone quando quase, sem ser convincente, você disse que a amava, e não somos convincentes, afinal mas precisamos, e duramos uma noite, e rimos para cima para que tudo escorra pelo rosto, ouvimos quem sabe os sons surdos dos banheiros públicos, uma certa ternura pelas meninas da Prado Júnior, sem conhecê-las ou falar de futebol para as meninas bocejarem, ser barbado e não ter idade, pensar em Ney Matogrosso com uma faca na Pizzaria Guanabara atrás do Cazuza, pensar naquela velha letra de música, de qu…

COISAS GRANDIOSAS >> Kika Coutinho

Eu nunca fiz, na vida, coisas grandiosas. Nem pro bem, nem pro mal. Não influenciei muito a vida de ninguém, não salvei alguém da morte, nunca cruzei com um provável suicida que deixou de pular da ponte por minha causa. E também nunca assassinei ninguém, nem bicho – se desconsiderarmos os insetos, de forma geral.

Nunca me aconteceu de encontrar uma criança abandonada na beirada do lago e salvar a vida dela.
Nunca salvei um gatinho doente nem mesmo adotei um cachorro que fora atropelado na estrada. Não. Nada.

Quando eu era criança salvei um pintinho que eu tinha, de ser pisado pelo meu irmão. Talvez esse tenha sido meu ato maior. Também aprovei e rejeitei gente para algumas vagas, o que pode ser bastante importante. Demitir ou admitir alguém foram as minhas atitudes mais impactantes na vida alheia.

Tudo bem, dei alguns conselhos que foram importantes, indiquei gente pra morar com outro alguém, apresentei casais que se apaixonaram, essas foram, em geral, as diferenças que fiz na vida dos ou…

SENTINDO SEM SENTIDO >> Carla Dias >>

São Paulo
Um calor danado em São Paulo, meus caros. Apesar de preferir os dias de chuva abarcando a metrópole acompanhada daquele ventinho frio, também me deixa feliz a forma como o sol se despeja nesse lugar. Mas esse sol que arde quando nos toca pede balanço de ondas ou quedas d’água. Dentro dos escritórios somos enganados pelo ar-condicionado, mas caímos na real quando temos de dormir em nossas casas.
Esse dia azul me fez lembrar alguns dias que passei em São Thomé das Letras, em Minas Gerais. Lá o azul é ainda mais azul e o céu parece mais largo, mostrando até a lua como se ela estivesse pendurada na janela, feito aqueles célebres mensageiros dos ventos. Na verdade, a primeira vez que estive lá, na primavera de 1995, fiquei surpresa ao ver que as pessoas se reuniam numa parte da cidade apenas para observar a lua, assim como há um lugar perfeito para se presenciar o por do sol.
Por do sol em São Thomé das Letras por Elder Prates


Foi em São Thomé que cliquei o jardim de pedra da pous…

MONTAIGNE E ESSES BRAÇOS FRACOS
>> Felipe Peixoto Braga Netto

Não sei, não sei, mas
Uma coisa me diz
Que o teu corpo magro
Nunca foi feliz
(Manoel Bandeira)



Meu dilema é tolo e vulgar: corpo ou espírito? Não, não se trata de divagação metafísica. O buraco, como diriam, é mais embaixo. É, muito prosaicamente, o seguinte: a que devo dedicar minhas parcas horas de lazer? Eis as opções, excludentes e contrapostas: ler, e com isso aprimorar o espírito — coisa que me dá tanto prazer — ou cuidar do corpo, que vai ficando, digamos, desleixado, com essa atenção exagerada dada à leitura.

Um sujeito bruto diria: "Olha só, esse rapazinho aí não tem coisa mais importante para se preocupar não?" Não, ríspido leitor, confesso que não tenho. E confesso que nem confessaria essas coisas se não lesse, ontem, em Montaigne (sim, ando longe da ginástica) a surpreendente revelação, falando dos livros: "Têm seus inconvenientes, e alguns sérios. O espírito exercita-se com eles, mas o corpo, que não devemos esquecer, fica inativo, o que acarreta tristeza e abati…