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MONTAIGNE E ESSES BRAÇOS FRACOS
>> Felipe Peixoto Braga Netto

Não sei, não sei, mas
Uma coisa me diz
Que o teu corpo magro
Nunca foi feliz
(Manoel Bandeira)



Meu dilema é tolo e vulgar: corpo ou espírito? Não, não se trata de divagação metafísica. O buraco, como diriam, é mais embaixo. É, muito prosaicamente, o seguinte: a que devo dedicar minhas parcas horas de lazer? Eis as opções, excludentes e contrapostas: ler, e com isso aprimorar o espírito — coisa que me dá tanto prazer — ou cuidar do corpo, que vai ficando, digamos, desleixado, com essa atenção exagerada dada à leitura.

Um sujeito bruto diria: "Olha só, esse rapazinho aí não tem coisa mais importante para se preocupar não?" Não, ríspido leitor, confesso que não tenho. E confesso que nem confessaria essas coisas se não lesse, ontem, em Montaigne (sim, ando longe da ginástica) a surpreendente revelação, falando dos livros: "Têm seus inconvenientes, e alguns sérios. O espírito exercita-se com eles, mas o corpo, que não devemos esquecer, fica inativo, o que acarreta tristeza e abatimento".

Caro e sábio Montaigne: eis meu dilema. Como diria alguém do meu século, você viu tudo. E assim estou eu, triste e abatido, feliz com os livros, mas com pena de mim. Sim, com pena, porque, querendo ou não, eu também sou esses braços pouco rijos, essas pernas finas, essa barriga que começa a me envergonhar.

Ah — lembro com saudade — há bem pouco tempo não era assim! Admito: tive meus dias de atleta. Era uma beleza... nem eu (reconheço) me reconhecia. É certo que não durou muito. Mas duração é coisa relativa. E de importância duvidosa. E se o povo, que é o povo, diz que tudo que é bom dura pouco, quem sou eu para desmentir?

As mulheres, nesses dias magníficos, olhavam-me com singular admiração. Não sei se meus bíceps justificavam a admiração, mas há que se reconhecer que há, no mundo, almas generosas ou — dizendo de outra forma — mulheres para todos os bíceps. Mesmo essa generosidade, hoje, é escassa e rara. Quem sabe escrevendo não descolo umas fãs que relevem meus músculos virgens de pesos?

É que, para pesar de Montaigne, tenho estado inteiramente com os livros. Ouço ponderada sugestão: mas o segredo está no equilíbrio! Sim, equilibrada leitora, concordo. Mas eu sou um sujeito desequilibrado, daqueles, falando vulgarmente, oito ou oitenta. E mesmo que não fosse assim, não sei se teria tempo para isso. Não, não teria. A escolha se impõe.

Fico com o corpo. Sim, o corpo. Ao diabo os livros. Matriculo-me, amanhã, numa colossal academia, onde encomendarei colossais bíceps. Serei um sucesso em forma de definição muscular. Não aceitarei companhia que não discuta, com igual competência, suplementos musculares e novas técnicas para os abdomens. Também não quero saber de enervantes complicações literárias. Serei, de amanhã em diante, amplo e largo, com espaço de sobra para me caber dentro de mim.

Só espero ter o que colocar...


Comentários

Rapaz, gosto demais do Montaigne. Resta agora ver a biografia dele pra saber se ele malhava (seja lá o que isso significasse na época) ou estava falando era de si mesmo. :)

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