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OCULTOS [Debora Bottcher]

Às vezes, ela se sente moradora de uma casa de cartas de baralho sob um telhado de vidro onde há reflexos que refletem o que não existe... Às vezes, ela julga que está sendo mordida por uma cobra morta e sente o corpo arder, inchar, ir-se no delírio de um segundo antes de amortecer... Às vezes, ela tem saudades de alguém que nem sabe quem é e fica tentando divisar uma imagem que não tem expressão em cada lugar por onde passa. Sonda as flores, toca as brisas, se encanta com as abstrações. Às vezes, ela tem a impressão de que alguém tem saudades dela...

Tem dias que mudam nossas vidas... Tem dias que enganam: prometem um desastre e terminam bem — ou vice versa. Tem dias em que é insuportável viver.

Ela se debate, perde-se entre a lógica e a ilusão: uma mente que desconhece o sossego. Descobre que há pessoas para quem se precisa dizer pouca coisa; outras, com quem se pode ficar sempre em silêncio. E outras para quem por mais que se fale é quase impossível se fazer entender...

Sabe que há desejos que são fáceis de realizar e outros que abandonamos na estrada, deixamos à beira do caminho porque começam a figurar-se difíceis, sem sentido demais. Há desejos que nunca são realizados e vivem ao nosso encalço: esses, roubam a alegria.

Há sorrisos... Ela observa sorrisos que são a pura diversão e tornam o semblante juvenil, criança; outros camuflam a ironia, a maldade, o desprezo, a mentira. Observa sorrisos que retratam a amargura e percebe que, na incapacidade de revelar sua mágoa, são a maneira mais exótica e bonita de ser triste.

Ela vive noites em que uma leveza salta sobre seu espírito e a leva aos delírios do sonho; outras que a fazem descer ao abismo da insônia, mordaz, escuro labirinto de onde não consegue sair. Há noites que são bem comuns e ela pode descansar na tranqüilidade ausente de qualquer disposição afetiva...

Gosta das chuvas. Há chuvas que caem macias sobre nossa pele e brincam marota com nossa lembrança devolvendo-nos à infância; há garoas que levemente nos umedecem e só vêm para refrescar o calor. Mas há tempestades que arrastam tudo ao redor feito um vulcão em erupção: essas revelam a ira dos céus.

Ela aprende: há sentimentos que chegam como madrugada calada, sorrateiros, repentinos, para iluminar nossos olhos, brilhar nosso riso e durar tanto quanto dura uma cascata de fogos de artifícios; outros chegam mansamente, devagar, um dia após o outro e se instalam para ficar. Mas há sentimentos que oscilam entre a calmaria e a destruição e chegam apenas para semear a dor...

Lê muito e descobriu: há livros que contam lendas que penetram em nossos poros e nos faz participantes de algo que não nos pertence; há livros que não nos atingem por mais belas que sejam suas palavras, por mais sabedoria que encerrem, por mais ilustres que seus autores possam ser. Mas há livros que contam nossas próprias histórias, onde podemos ler nosso próprio destino, espelho que nos olha diretamente nos olhos e nos faz olhar para a verdade que, às vezes, desejamos esquecer...

Conhece as lágrimas... Há lágrimas que simplesmente correm pelas faces sem causa aparente, insondável motivo, terrivelmente inúteis; outras são a verdadeira expressão do que transpassa no interior. Mas há lagrimas que ficam contidas na alma, engasgadas, presas na garganta e na incompreensão de si mesmas.

Ela já esteve à mercê dos medos... Há medos infundados, temores imaginários sem qualquer razão de ser; há medos reais, inquietações que nos deixam despertos, ansiosos, eternamente alertas. Mas há medos cravados em nós, eras que cavalgamos num passado remoto, tempo que a memória apagou e a intuição insiste em lembrar...

Há mistérios, pensamentos, músicas, escritos, segredos, ecos... Vozes que o universo sussurra, semente que os ventos depositam na sensibilidade humana. Há vida por detrás da vida, antes e depois dela. Na excitação inocente que feito sombra nos persegue, há o vazio oco das coisas que são, das que não são, das que podem vir a ser...

Há o Amor...

Comentários

Uau, Debora! Você fez um verdadeiro inventário das emoções humanas. Belíssimo texto! E não é impressão, não, alguém estava com saudades de você e das suas benditas palavras: eu. :)
Lindo!Explicita experiência humana
oriane
M.F. disse…
Lindo demais. Nunca tinha lido nenhum texto seu... Ganhou uma fã. :)
Debora Bottcher disse…
Obrigada, moço...
Meninas...
É sempre bom saber do rastro que fica das palavras que escrevemos - especialmente quando já se escreveu muito e agora a mente engasga um pouco no ofício. :)
Beijo enorme em todos.
Débora.
albir disse…
Que saudade de te ler, Débora.
Abraço.

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