quinta-feira, 5 de novembro de 2009

COISAS GRANDIOSAS >> Kika Coutinho

Eu nunca fiz, na vida, coisas grandiosas. Nem pro bem, nem pro mal. Não influenciei muito a vida de ninguém, não salvei alguém da morte, nunca cruzei com um provável suicida que deixou de pular da ponte por minha causa. E também nunca assassinei ninguém, nem bicho – se desconsiderarmos os insetos, de forma geral.

Nunca me aconteceu de encontrar uma criança abandonada na beirada do lago e salvar a vida dela.
Nunca salvei um gatinho doente nem mesmo adotei um cachorro que fora atropelado na estrada. Não. Nada.

Quando eu era criança salvei um pintinho que eu tinha, de ser pisado pelo meu irmão. Talvez esse tenha sido meu ato maior. Também aprovei e rejeitei gente para algumas vagas, o que pode ser bastante importante. Demitir ou admitir alguém foram as minhas atitudes mais impactantes na vida alheia.

Tudo bem, dei alguns conselhos que foram importantes, indiquei gente pra morar com outro alguém, apresentei casais que se apaixonaram, essas foram, em geral, as diferenças que fiz na vida dos outros.
Minha colaboração com o mundo consiste basicamente em jogar lixo no lixo, tentar fechar a torneira quando escovo os dentes e prezar pra escolher um governante mais ou menos bom com o meu voto. E só. Nem reciclar lixo eu reciclo, que vexame.

Isso significa que, até agora, minha existência foi boa, justa, valeu a pena sim, mas, venhamos e convenhamos, não farão nenhum documentário a meu respeito do tipo “That is It” do Michael Jackson, que só vai passar por duas semanas.

Não. De mim ficariam algumas recordações, saudades, lembranças boas, esses textos que deixo por aqui e pronto. Estava bom assim, não me causava sofrimento e eu nem tinha parado pra pensar nisso até algum tempo atrás, uns 8 ou 7 meses atrás, quando, então, me vi grávida.

De repente, eu, que nunca fiz coisas grandiosas, vejo-me gerando uma vida, uma vida inteira, que pode ser banal ou não, pode ser longa e linda ou normal, ou sofrida, enfim. Eu, que me empenhava em ajudar os pobres, me achava gentil com o universo por segurar o elevador pra quem vinha vindo, e por pagar meus impostos em dia, descobri que isso tudo é bobagem. Bobagem. Bullshit, como dizem os gringos. Importante mesmo, importante a valer, é ficar grávida. Continuar a humanidade, continuar a espécie, continuar um mundo que, vamos combinar, não tá lá essas coisas de continuar.

Mas, se depender de mim, ele continuará. Se depender de nós duas, que somos eu e a minha filha, o mundo já não vai acabar, já não vai pifar, já não vai ficar vazio. Porque eu estou grávida e, daqui a 80 anos, mesmo quando eu não estiver aqui, quando talvez o planeta estiver superaquecido, quando os juros tiverem chegado na estratosfera, quando o caos estiver ainda mais caótico, vai ter gente aqui. Vai ter a minha filha, e os filhos da minha filha. Porque eu estou grávida, e isso é o que há de mais grandioso no mundo...

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3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Eita, Ana! Com essa a Sofia não está mais nem cabendo na barriga. :) Bela crônica!

Anônimo disse...

Lindo, Kika, como tudo que vc escreve!

felipe peixoto

Anônimo disse...

Kika, as "coisas grandiosas" estão tanto nos grandes quanto nos pequenos atos. E vc faz diferença na vida de mta gente cada vez que publica uma crônica cheia de amor e de esperança aqui no blog, por exemplo. A gente nem sempre percebe mesmo o bem que a gente faz pras pessoas ao nosso redor. Mesmo que vc não estivesse grávida vc continuaria a fazer com que a vida das pessoas que têm algum contato com vc, mesmo que vc não as conheça, fosse um pouquinho melhor.