sábado, 14 de novembro de 2009

O LUGAR DO SAGRADO [Sandra Paes]

Faz pouco tempo uma rede aberta de televisão brasileira lançou uma série com o nome de “O sagrado”.

Fiquei entusiasmada pela novidade. Ando enfadada com todos os programas de humor sem humor algum, a repetição crônica dos mesmos temas, mesmas caras e o enfadonho estilo de autopromoção, como um programa contínuo de narcisismo, pra mim inútil e totalmente desnecessário.

Sim, sou uma pessoa fora de moda. Não faço parte do quadro da popularidade das pesquisas, não ouço Madonna e me confesso encolhida diante dos sons de rock and roll nos autofalantes dos carros ou em qualquer outro espaço. Aquela batida, tipo bate-estaca, me deixa fora de centro e, de fato, me dá a sensação de desalinho dos chakras. O mundo anda barulhento demais para o meu gosto e o que se expõe nas vitrines me parece sempre uma ode quase que ridícula — pra ser delicada.

Faz tempo não experimento algum entusiasmo com relação a programas de entrevistas, até por que os entrevistadores parecem sempre tão medíocres a falar em torno de coisa nenhuma com um ar de total falta de entendimento sobre o assunto abordado.

Tenho quase sempre que reduzir o volume na hora das divulgações dos noticiários porque os locutores parecem ficar um tanto quanto exagerados em seus tons de falar sobre fatos corriqueiros, sempre em torno de roubos, desordens, crimes, violências e outros tais que parecem só interessar mesmo aos fazedores de pautas marrons.

Sei que a vida humana não é apenas isso. E onde estaria a chance de se criar algo a ser passado na telinha que de fato elevasse de alguma forma meu espírito que anda cabisbaixo, encarnado, com tantas propagandas em torno de como sustentar o corpo pra se prolongar a longevidade?

Céus! Viver mais apenas pra esticar mais dias em torno das mesmas coisas? Cadê o toque do sublime? Eis que surge uma pequena chance. Um seriado sobre as religiões no mundo, onde as pessoas depositam sua fé ou sua tentativa de encontrar Deus.

Mas, é claro, tinha que haver um porém. Todo os programas ruins vão para o horário nobre. Não podendo suportar a paupérrima programaçao de fim de semana, tendo que aturar horas a fio programas onde o público é chamado de galera (cá entre nós, que horror!), fica ou sobra a constatação cruel que a busca da sabedoria não pode ser encontrada nesse veículo tão fascinante que é a televisão.

O lugar do seriado Sagrado foi colocado às seis da manhã, isso depois de procurar muito, porque a propaganda, muito escassa, fala que o programa vai ser veiculado logo depois do telecurso.

Agora, antes do telecurso, tem todas as repetições das novelas dramáticas, em torno do mesmo tema de sempre, e a repetição dos programas do horário dito nobre, aqueles com cara de preenchimento de linguiça, sem trema e sem tempero nenhum. Me sinto exposta à condição de inteligência parca, sem nenhum senso crítico, e me perguntando: por que temos que engolir essa gororoba?

Agora, ficar esperando até cinco e pouco da manhã pra ter acesso ao Sagrado é de uma profanice a toda prova. Mas dá mesmo pra ficar inquieta. Por que será que nesse mundo tão vasto o lugar do sagrado tem que ser sempre o último? As anorexias, as bulimias, o jogo perverso das relações conjugais, os roubos governamentais, as formas mais diretas de propagar o mal e suas façanhas sempre ganham muito espaço e muito tempo de exposição.

Sim, minhas escolhas não constam dos cardápios oferecidos, nem minhas preferências são expostas nas vitrines por aí. Não tenho vícios ou adicções, e por isso mesmo me torno ainda menos popular.

Posso me considerar socialmente excluída? Começo a pensar que sim. Faz tempo que ando querendo saltar do planeta exatamente por estar cansada de procurar e não encontrar, é claro, continuidade na sustentação da leveza de ser.

E o que se paga de impostos e outras coisas mais, vendendo nosso tempo de viver, só pra se ter onde pôr a cabeça e alimentar a carne, suas vestimentas e direito de ir e vir? Faça a conta, se ousar. É toda a sua vida.

Ou somos todos muito bons atores, ou todos muito ridículos e deficentes mentais e emocionais pra continuar sustentando todo esse sistema falido e falível.

Valha-me Deus!

Procura-se um lugar onde o Sagrado está e fica. Esse pode ser meu anúncio de busca de trabalho real. Alguém sabe?

Deixo o rastro da inquietação básica que me faz rolar como uma pedra em meio a tantas outras de enchentes devastadoras. Será que sou eu? Dá pra desconfiar desse incômodo contínuo. E, ohhhhmmmmm! E de novo e, mais uma vez, pra segurar as ondas que rolam no abdômen denunciando uma tsunami de emoções não controladas.

Os seriados americanos continuam recheadíssimos de crimes, as hipócritas cortes de justiça (essa coisa imperial que ainda existe) que fazem todo teatro pra convencer os sensos de jurados de que suas percepções sobre verdade e mentira podem funcionar.

E, quando não é isso, todas aquelas produções de carros em velocidade, psicopatas à solta, produzindo toda série de barbaridades e os contínuos ensinamentos de como usar drogas de todos os tipos com bastante closes para deixar bem claro nas mentes da audiência as receitas doentias.

E eu, ainda à cata do que seria o momento do Sagrado, constato, depois de uma noite de espera, que o dito espaço é de dois minutos. Isso mesmo. Se pegar pegou, senão trate de se alimentar de venenos e ainda correr atrás da felicidade. Será que não tem mesmo um governo malévolo atrás de tudo isso? Sim, porque chamar a isso de gosto de audiência não dá pra engolir, não.

Dizia Jung que quem olha pra fora sonha e quem olha pra dentro acorda. Eu já não sonho mais, nada desejo tampouco, e isso é no mínimo triste, porque para o que o mundo vem ofertando em suas vitrines, eu passo. Meu controle remoto não tem a tecla delete.

Talvez o lugar do sagrado tenha ficado em algum cantinho do meu cérebro, do meu coração, tentando reter o dom de contemplar a beleza e a paz do silêncio que ainda sei fazer...



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3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Sandra, dia desses estava pensando em fazer uma crônica sobre o silêncio, sagrado silêncio. Depois dessa sua, talvez não precise mais. :)

albir disse...

Você é privilegiada, Sandra, se ainda busca e faz o silêncio.
Por que acha que as pessoas consomem todo esse ruído televisivo?
É porque têm pavor do silêncio.

cafuza disse...

Sandra,
Sua cronica e bela, verdadeira e atual... Creio que em nenhuma outra epoca fomos engrupidos com tanta xixica de galinha pra matar o tempo...
O lugar sagrado, o silencio que nutre e reconforta e nos ensina sem palavras, esses agora sao valores subterraneos, enterrados no coracao de pessoas extraordinarias como voce.