quarta-feira, 11 de novembro de 2009

NO ESCURO > Carla Dias >>

Passamos, naturalmente, porém nem sempre com a graça necessária, pelos revezes da vida moderna. Da velocidade com que produzimos facilidades ao susto que tomamos ao nos darmos conta de que ontem foi janeiro e hoje estamos em novembro. O tempo e as conquistas se misturam.

Ontem saí do trabalho e em vinte minutos estava em casa. Deu tempo de comer alguma coisa e assistir ao esquisito episódio de um dos meus seriados “quase” preferidos. Na minha lista de afazeres da noite de terça, espremiam-se vários isso e aquilo. À noite é quando coloco a minha vida pessoal em dia, o que inclui lavar, às vezes passar, limpar, ouvir música, ler, escrever... Sonhar... Fazer nada.

O apagão de ontem, que chegou a tantos estados se achando, mostrou-me como ando desarmada no quesito “fazer o quê?” Explico...

Depois de assistir ao tal seriado, minha lista dizia para eu começar a leitura de um dos livros sobre televisão e cinema que um amigo me emprestou. Também estou com dois filmes emprestados e um deles tinha de ser assistido, afinal, são livros e filmes emprestados e têm de ser devolvidos. Também precisava, nem que fosse por mais uma horinha, trabalhar em um site que estou construindo. Isso, de acordo com aquela listinha, me ajudaria a resolver pendências com direito a aprendizado e prazer.

Mas aconteceu o apagão... Primeiro a tevê apagou de vez, mas a lâmpada do corredor, que estava acesa, liberava uma luzinha tênue, deixando o lugar com cara de boate. Obviamente, recorri às velas, agradecendo por passar por essa escuridão em casa.

Claro que à luz de velas é possível se ler livros, isso sem contar que notebook tem bateria, e por algum tempo poderia trabalhar no site e até começar a assistir um dos filmes. Se quisesse música, o celular me proveria com estações de rádio ou o mp3 player com a seleção da vez.

Não fosse a correria e, assumo, a mania de deixar a mim pra depois, seria fácil ler o livro à luz de velas. Mas preciso de lentes novas para os óculos e ficar doze horas olhos nos olhos com a tela do computador já fragilizou minha capacidade de curtir essa versão romântica do livro antes de dormir à luz de velas. Senti uma falta da lâmpada acesa...

Sem conseguir ler um livro, resolvi trabalhar no site... E logo que liguei o computador fiquei brava comigo mesma por não ter carregado a bateria. Tinha só uns minutinhos de lambuja. Desliguei o dito e peguei o celular... Mas claro que não tinha rádio pra tocar pra mim. Então, recorri ao bom e velho mp3 player e descobri, de vez, que preciso prestar atenção no que não ando fazendo, pois a pilha já era.

Claro que, assim como a maioria de nós, vivo na certeza de que o que temos é para sempre. Mesmo tendo ciência de que essa é uma certeza provisória. Coloco nas mãos das facilidades – muito bem-vindas, obviamente – a maioria das ferramentas para meu lazer, para meu prazer e para as minhas necessidades.

Fiquei olhando pela janela, a correria de quem se sentia medroso debaixo de tanta escuridão. E sem ter o que fazer, fui me deitar, mas não contando com virar do lado e dormir, já que estou na fase da insônia. Fiquei olhando pro teto, pensando na vida, escutando os barulhos vindos do mercado em frente de casa, que continuava na ativa, pois lá tinha gerador.

Poetizei a existência de um gerador na minha área de serviço...

E cantarolei algumas músicas, parte delas, na verdade, porque raramente decoro letra... Ou poema, ou o que seja. Sou péssima decoradora: de casa e de textos diversos. Sentindo extremamente perdendo tempo com nada, reconquistei algumas lembranças, como a de quando minha avó contava histórias em dias de escuridão como esta que nos pregou uma peça numa terça-feira. Ou minha irmã cantando, na falta da tevê e do rádio. Tias contando histórias, ora verdadeiras e ora inventadas. E o chá mate acompanhado de bolinho doce de minha mãe, eles que quase sempre apareciam com as faltas da companhia de energia.

Continuo com a lista gritando o que devo fazer, mas tudo bem. Vou fazendo aos poucos, como dá e como posso, de acordo com o que sinto, e com o que a vida permite. Sempre à mercê da companhia de luz, de água, de internet, de telefonia, de ônibus...

www.carladias.com

Não dá pra deixar passar como se hoje fosse dia de apagão:




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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla querida, sua bela e atualíssima crônica, no melhor estilo da vivência subjetiva do cotidiano social, já seria presente suficiente para esse dia. Mas você conseguiu me surpreender, e me surpreender positivamente (o que é ainda mais raro) com a faixa de Feliz Aniversário. Grato por esse carinho anual, e muito mais pelo carinho semanal que já dura mais de 10 anos.

albir disse...

Parabéns, Carla, pela crônica.
Parabéns, Edu, pelo aniversário.
Abraços do fã aos dois.