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Mostrando postagens de Abril, 2020

A LAGOSTA É CAPAZ DE SENTIR DOR? >>> Nádia Coldebella

Uma vez, quando criança, fui com meus pais a um restaurante que servia frutos do mar. Eu era pequena, então achava que fruto do mar era uma espécie de maçã marinha ou uma pera aquática. Enquanto esperávamos, notei que a cozinha era separada da área de servir por um vidro. Podia ver toda a movimentação e levei um susto quando vi um homem de avental branco erguer uma lagosta viva:
- Mãe! - eu devo ter gritado e minha mãe deve ter pulado da cadeira - Aquele homem pegou a lagosta com um um pegador gigante de macarrão e a jogou na água quente!
- Quieta menina! - teria dito minha mãe, sibilando entre dentes, alheia ao meu sofrimento - Tá todo mundo olhando!
Hoje em dia, acho que minha fértil imaginação infantil deu cor a imagem - pegador gigante de macarrão? De qualquer forma, o bicho, pobre infeliz, ainda estava vivo quando foi parar na panela. E a imagem dele ficou impressa na minha mente.
Em dois mil e treze, foi iniciada uma discussão acerca da ética em se ferver a lagosta viva. Biólogo…

TU VENS, TU VENS >> Carla Dias >>

Sei de nada. Todos os livros que li não me prepararam para isso. Todas as conversas que escutei, quando criança, escondida atrás da porta ou enfiada debaixo da mesa, em nada me ajudaram. Nem mesmo as rezas, tampouco as promessas, quanto menos as figurinhas dos chicletes ou as mensagens estampadas nas caixas de chá de camomila.
Problema nenhum em assumir: sei de nada. Na minha ignorância, mergulham tempos que não sei determinar no quando, mas posso garantir que são memoráveis. Sei de nada, mas a minha memória até que se assanha. Saberia de algo? Ou seria apenas uma lembrança que peguei emprestada?
Memória é um risco que corremos. Às vezes, lembranças se lançam a nossa percepção, voltam como se algum demônio inquilino tivesse sido atiçado, aquele que se mudou para dentro de nós, quando estávamos alheios à necessidade de sabermos um pouco mais, além do nada que nos era oferecido.
Talvez eu saiba um pouco...

Alguns livros que li falavam sobre isso. Algumas conversas que escutei, espantar…

silêncio! >>> branco

silêncio!
façam silêncio! não acordem as crianças que sonham não atrapalhem as senhoras que com seus rosários pedem intercessão justo é o meu pedido respeitem a alegre lágrima que desce pela face da noiva
façam silêncio! por todas as pessoas que estão sorrindo  que os amantes possam sentir o vento do outono e se aqueçam em um abraço à espera do inverno meu pedido é este permitam que olhos atentos fiquem maravilhados com o brilho do sol refletido no orvalho das folhas
façam silêncio! mesmo que as flores sejam podadas e os disparos comecem não interrompam a serena vigília de paz daqueles que não tem espaço para discursos vazios e ideologias assassinas justo é o futuro talvez nunca nos redescobriremos como irmãos mas na eternidade retumbarão os ecos de nossas tentativas





fotografia : web arte : paint






O ESPELHO DAS QUATRO >> Fred Fogaça

Quando finalmente ficamos sozinhos eu e ele, ainda na crueza do dia, quatro da manhã, ele, saindo do seu canto e ainda a sono lento e me olhando, desde a sua pequeneza não muito consciente, de olhos todo atenção e as orelhas pontudas em pé, feito antenas, pra não perder um gesto meu, deixar passar um som da minha boca: sem entender palavra - acredito não ser versado em línguas - me olhou na profundidade da expressão e, aí a importância da expressão e, eu de significar. Nossa! Todo prontidão aos meus comandos: é, somos só eu e você agora - ele me entendeu - a hipótese da noite são maus sonhos, minha criança.
Queria até poder não dar explicações, não as cobrasse eu mesmo, não fingisse na minha cabeça treinar desculpas pra se alguém me perguntasse mas eu, é, eu mesmo, não quisesse me convencer de que tudo isso que eu fiz tem algum sentido; que eu não me arrependo; que eu só não fui trouxa e resguardei às excentricidades, o que na verdade é egoismo e imoralidade; eu sei de tudo, minha va…

SOLIDÃO >> Sergio Geia

Em tempos de prisão, sem poder sair de casa, ir às compras, comer um pastel, ou caminhar pela praça, não me resta tanta coisa assim para fazer. Na semana há o trabalho, sim, o trabalho; são muitas questões para decidir, processos que reclamam encaminhamento. Mas aí chega o fim de semana, e começo a planejar o que fazer para cobrir todas as horas vagas do meu ócio. 
Pois nessa manhã de sábado, tomei o café, depois busquei inspiração em Braga, para escrever alguma coisa. Sim, um escritor precisa escrever, não pode parar, ainda que o planeta tenha estacionado seu caminhar, ainda que a matéria-prima esteja escassa. E quando a inspiração se encontra em um momento árido, vai sim ler outro escritor. Machado de Assis é ótimo para esses momentos. Braga, como sempre, não me faltou. 
Escolhi uma crônica chamada “A que Partiu”, do livro 200 crônicas escolhidas. Crônica escolhida aleatoriamente, vejo o título, penso, o que será que ele vai dizer, me chama a atenção, vou. Lá pelo meio de “A que Pa…

ENERGIA >> Paulo Meireles Barguil

Ontem, a energia estava oscilando.

O estabilizador não parava de piar.

Mas eu continuei a trabalhar no computador.

Hoje, uma fase caiu.

O dispositivo não ligou.

E eu corri para escrever a crônica no notebook, que está descarregando.

É por isso que o final desse texto será brusco, assim como a vida de muitas pessoas.

A INFÂNCIA EM UM GIRO >> Whisner Fraga

um filete de melancolia sangra a tarde,

a menina não sabe o dia,

segunda, quarta, domingo, está tudo igual,

por que você tem discos?,

se todas as músicas já estão no celular?,

chamo a menina à sala,

e ela estranha os abismos de antigas bruxarias,

o vinil sucumbe às bicadas da agulha,

um mundo gira em sulcos e chiados,

a menina está hipnotizada com o círculo em movimento:

é a sua infância aí, né?,

a menina não sabe o dia, mas precisa de sol,

e de gritos e de corridas,

hoje é quinta, menina,

é um dia grande,

ela concorda. e se cala.

SOMOS O OUTRO UM DO OUTRO >> Carla Dias >>

Rumine comigo... 
Colocar os pés na água. Particularmente, eu gosto dos rios. Passar um tempão a observar os círculos se formando, a cada movimento dos pés. 
Janelas, sempre. Vivo a capturar paisagens diversas, valendo-me das janelas que visito, localizadas onde vivem pessoas por quem tenho honesto apreço. Não são apenas janelas, meus caros. Não precisam ser apenas.
Eu tenho janelas em casa. Cada uma delas me leva a um universo.
Ando precisado de terra De carne e quentura De pernas bambeando desejos
O som das conversas dos outros, servindo de trilha sonora para as conversas que temos - olhos nos olhos, a voz escutada no ato e estampada na feição, o perfume do café (cada um que escolha seu próprio veneno!) participando do desfiar histórias. O mergulhar em reflexões, acabar-se nas gargalhadas, contemplar o valor das ironias bem construídas. A constatação de que, daqui a algumas horas, isso tudo será relembrado, com requintes de contentamento. 
Dia cinza e de chuva, o frio. Dia de sol, em o…

BANDEIRA NO SÉCULO XXI >> Albir José Inácio da Silva

Vejo sangue na máscara do patrão quando ele levanta a cabeça em busca de ar depois do último acesso de tosse, mas não digo nada. Finjo ajustar o retrovisor. Ali está apenas uma sombra do líder que até ontem, com um sorriso, distribuía ordens, elogios e admoestações aos empregados.
Estamos no subsolo do mais luxuoso hospital do Estado. Em frente ao elevador, os dois filhos do Dr. Sansão confrontam o segurança fardado que repete negativas e balança a cabeça. Júnior argumenta com determinação, cobra, gesticula - puxou ao pai. Já Isabele não fala, limpa às vezes uma lágrima. Não há vagas!
Estranhei ontem quando ele me chamou dizendo que ia pra casa. Sempre sai tarde, ainda mais agora com três assistentes, uma secretária e dezenas de funcionários afastados por causa da pandemia.
Aguardei mais de uma hora até que madame e os filhos o convencessem a procurar ajuda. O plano dá direito a consulta domiciliar, mas a atendente explicou que não havia médico disponível. Na emergência receitaram an…

VIVER É MELHOR QUE SONHAR >> Sandra Modesto

A música sempre esteve presente na minha vida. Meus pais cantavam. Faziam duetos lindos. Meu pai uma voz grave e minha mãe uma voz aguda. 
Eu ficava admirando o cantar dos dois. Gosto também de filmes nacionais. A produção cultural brasileira é muito rica. 
Por aqui temos durante esses dias algumas possibilidades. Acervo na estante e discussão sobre: Kindle sim, Kindle não. Mas eu gosto de cheiro de livro, daí, sigo na dúvida. 
E a televisão? Não tenho como fugir. Busco um bocado de minisséries. 
Assisti em 2018 “Viver é melhor que sonhar” baseada na vida de Elis Regina. 
Episódios de chorar, rir. Imagens e entrevistas do passado intercaladas com os atores na ficção. A atriz Andréia Horta se entregou por completo, os gestos, o sorriso, a ira, o jeito de olhar e gesticular cantando, o jeito de fumar... 
Mel Lisboa, a Rita Lee na juventude. Caracterização perfeita. 
Voei um pouco. Um breve despertar no relógio do tempo... 
Quando Elis morreu, lembro-me como se fosse hoje. Uma prima da …

NÃO PECHINCHARÁS. NÃO DESPREZARÁS MULHERES DE APARÊNCIA FRÁGIL 1ª parte >> Zoraya Cesar

A secretária olhou a mulher à sua frente com um certo desdém. Onde já se viu, pensou, vir a um encontro de negócios com um homem tão importante quanto o Sr. Lauro vestida desse jeito?
Por ‘desse jeito’, entenda-se um tailleur verde escuro (que a desavisada secretária não sabia, mas tratava-se de um legítimo Chanel, assim como os sapatos baixos de bico quadrado e a bolsa). Não usava maquiagem, joias, sequer um perfume. As unhas, cortadas rente e sem esmalte. Os cabelos amarrados num severo coque quaker. Uma 'ninguém', na visão da secretária, que, no entanto, cumpriu com seu dever e levou a mulher ao escritório do chefe. 
O Sr. Lauro era alto, corpulento, sanguíneo. Sua presença ocupava toda a grande sala de móveis modernos e de gosto duvidoso. Um folgazão simpático e bem sucedido, dizia a mídia. Na realidade, um tycoon implacável e sórdido, capaz de vender corpo e alma da própria mãe a troco de qualquer vantagem, ínfima que fosse. Não tinha escrúpulos ou princípios e desprezava q…

RUA DOS IPÊS >>> Nádia Coldebella

Durante os verões da minha infância, eu acordava cedo e abria a janela da sala da minha velha casa de madeira. Dela eu podia ver, no horizonte, os primeiros raios de sol pincelando o vasto céu em tons laranja e vermelho. Meus ouvidos eram invadidos pelo chilrear suave dos pássaros - sabiás, pardais, tesourinhas, bentevis, joão-de-barros e tantos outros - que faziam morada nos frondosos galhos dos ipês que contornavam minha rua. Embaixo das árvores, um tapete de flores brancas, amarelas e rosas se estendia para receber a manhã calorenta. Uma brisa insinuante entrava em minha casa e, sem nenhum pudor, acariciava meu pescoço e levava à minhas narinas o perfume das flores que adornavam minha rua. 
Atrás dos ipês, estendiam-se calçadas de tijolinhos também manchadas pelas flores. E, pouco além, com suas enormes varandas, as casas de madeira. Eram pintadas com uma paleta de cores vibrantes sem fim: rosa, amarelo, branco, verde, vermelho, azul. A minha era verde e branco e a cerca, baixa e …

O DIFERENTE >> Carla Dias >>

Sempre foi uma pessoa lógica e organizada com as coisas da vida. Até sentimento incômodo tem sua gavetinha certa onde ser arquivado, um espaço dentro dele que lhe garante deter os obstáculos provocados pelo arrebatamento oriundo das emoções.
Considera-se pessoa normal, com uma vida decente, que lida de forma eficaz com o pouco dinheiro que ganha. Um sobrevivente de uma realidade nada enfeitada. Gaba-se de ser capaz de enxergar o óbvio sem fantasiar a respeito dele, somente para deixá-lo mais palatável.
Uma das coisas que o incomodam profundamente é quando uma pessoa diz que acordou diferente. Ele não consegue entender isso. Diferente como? Diferente por quê? A resposta nunca o convence, ao contrário, faz com que desacredite com mais vigor tal declaração.
Não pensem que ele é rígido a tal ponto de nunca se permitir refletir sobre o que difere do seu pensamento, da sua crença. Ainda semana passada, ele foi com um dos colegas de trabalho a uma cartomante. Ele não tem amigos. Acredita qu…

QUANDO ROUBAR PARECE CERTO >> Clara Braga

Outro dia meu marido me mostrou uma entrevista com um baterista que eu gosto muito na qual ele falava abertamente sobre ter copiado na música dele um pedaço da bateria da música de outro baterista.
Rapidamente a declaração gerou uma certa polêmica. Algumas pessoas se diziam decepcionadas, pois como copiar algo não é autêntico, ele não deveria ser um baterista assim tão bom. Outros falaram sobre plágio. E alguns poucos pareciam compreender.
A declaração me lembrou de um livro maravilhoso que li tem um tempo: roube como um artista. Esse livro fala sobre criatividade e diz basicamente que todo artista já ouviu a seguinte pergunta: de onde você tira suas ideias? Porém, apenas os muito sinceros têm coragem de responder a verdade nua e crua: eu roubei!
Pode parecer estranho, mas é um alívio que alguém diga isso abertamente. Como os artistas criam? Eles só criam pois se inspiram em suas referências. Não existe escritor que não leia, pintor que não vá a museus, atores que não assistam peças …

IRONIA TRADICIONAL >> Fred Fogaça

Vocês são todos uns deselegantes. Pérfidos, acéfalos, perniciosos, soberbos, pederastas, insolentes, ultrajantes, sádicos, dissimulados, presunçosos, insensíveis, gananciosos, antiquados, ludibriosos, imprestáveis, levianos, insignificantes, tolos, trastes, desaforados, lunáticos, neuróticos, descarados, miseráveis, desprezíveis, rudes, covardes, estúpidos, hipócritas, cretinos, canalhas, palermas, panacas, otários, babacas, imbecis, idiotas, pervertidos, ignorantes, cínicos, xucros, frouxos, trouxas, fingidos, loucos, ridículos, sem vergonhas, vagabundos e traíras.     
Um bando de filhos da puta.
(observação: a imagem pro texto de hoje é de autor desconhecido)

ANGÚSTIAS EM TEMPOS DE RECLUSÃO >> Sergio Geia

A amiga Cristiana Moura gostou da palavra reclusão. Não porque a palavra seja bonita, aliás, é feia, pesada. Mas porque a palavra talvez expresse melhor o momento, bem pesado, pelo qual estamos passando. Melhor que isolamento, pois em tempos de redes sociais, com tantos recursos, até de imagens, não estamos absolutamente isolados, embora não seja a mesma coisa, aliás, longe de ser. Reclusão compulsória, com todos os nossos grilos chirriando nas orelhas. 
Grilo um. Nunca tive sinusite. Pois em tempos de corona vírus ela apareceu, deflagrada por um resfriado que peguei do meu filho. Adriana, outra amiga, diz estar sentindo falta de ar, mas é psicológico. Meu diagnóstico é de sinusite, a secreção amarela de outro dia, a voz anasalada, a dor de cabeça e perto do nariz e olhos. Mas a garganta também arranhou, tosses vieram, dia-sim-dois-não, espirros, coriza, nariz entupido, e lá estou eu mais uma vez na cozinha com o termômetro debaixo do braço: 35,2; paranoia pura. E nessa reclusão com…

TOADA NOTURNA >> Paulo Meireles Barguil

Elas não vieram na mudança.


Desconheço a sua procedência.


Às vezes, são poucas.


Outras vezes, são muitas.


Todas as noites, elas soltam a voz.


De vez em quando, acontecem participações especiais.


Eu, já tão acostumado, quase nem percebo.


As visitas sempre comentam.


Umas gostam.


Outras reclamam.


Elas, indiferentes à opinião dos humanos, continuam a sua Toada...

PLANTAS CONTRA ZUMBIS >> Whisner Fraga

carnívora potente, carnívora flamejante, carnívora tóxica,

carnívora elétrica, carnívora come-tudo, carnívora vampira,

a menina prefere a ervilha,

ervilha tóxica, flamejante, gelada, comando-ervilha, ervilha de plasma,

dispara-fruta, disparervilha,

soldado, engenheiro, cientista, all star,

a menina cobra que trabalho muito,

mas não é violento, menina, esse jogo?,

não, é tudo mentira,

depois ela quer que lhe conte uma história de ervilha,

uma história da infância que fale de ervilha,

uma história, decide,

enquanto tento me acertar com os dezoito comandos do controle,

e reclamo que não controlo nada,

ela quer me mostrar como personaliza um girassol,

como um cacto pode ter piercings,

como uma flor flamejante pode ter um super-penteado,

e imaginamos histórias.

APRENDA A LEVITAR >> Carla Dias >>

Sim, sou eu. Desta vez, não vou bancar a narradora intrometida que só se revela, no escancaro, lá pelo meio da história. Uma vez na vida, quero o começo. Resolvi tomar as rédeas do meu desejo e ver aonde ele me levará.
Não se desesperem. Ele pode parecer meio atormentado com tudo o que anda acontecendo, e dá de falar bobagens, como se fosse letrado no ofício, mas é um disfarce para o que realmente o atormenta. É um disfarçar-se para tapear-se. Só que a indagação o agonia de jeito que nunca foi agoniado antes.
Como será o mundo, depois de amanhã?
O desconhecido já foi tema de reflexão, vítima da ignorância, prisioneiro da imbecilidade, amante da arte, inspirador de brutalidades e amparo para amores rotulados de impossíveis, para citar um resumo do resumo do resumo do roteiro. Agora, o desconhecido o faz pensar em coisas que jamais pensaria, não fosse aquele despertar dos infernos que o leva a repensar de um tudo: gosto, desejo, escolhas, pessoas.
Repensar pessoas tem sido o mais traba…

FACEBOOK RAIZ >> Clara Braga

Escrever em porta de banheiro é algo que sempre existiu. Lembro bem do banheiro da escola, você ia lá fazer um xixi e ficava lendo as assinaturas das pessoas que, por algum motivo, levavam canetas ou liquidpaper no bolso quando precisavam utilizar o sanitário. Era uma chuva de *Marina_Linda*, =]Paulinha, Aninha-gata e Carolinda ;). Quando rolava briga uma ia lá para apagar o nome da outra. As mais ousadas riscavam o nome e escreviam algum xingamento, mas no geral era só apagar mesmo.
Às vezes, quando a porta ficava muito suja, a diretora tentava identificar as donas dos apelidos e ameaçava colocar para limpar, mas a desculpa era sempre a mesma: não fui eu que escrevi, alguém que foi lá e escreveu meu nome para me prejudicar. E assim os banheiros ficavam cada vez mais repletos de assinaturas.
Em tempos de Twitter imaginei que as portas haviam ficado esquecidas, mas em experiência recente descobri que elas apenas foram reinventadas. A porta do banheiro é o novo mural do Facebook e as r…

A PESTE - final >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de 23/03/2020)
O fim da escravidão não serviu de nada pra minha mãe, que continuou na cozinha e no porão. Eu era muito pequena, mas dizem que ela morreu de maus tratos pela Sinhá Martina.
No dia da abolição o comendador reuniu a “negralhada”, como ele costumava dizer, e fez a proposta. Eles continuavam lavrando a terra, cuidando do gado e dos serviços da fazenda, só que não seriam mais escravos. Ficavam com um pedaço de terra em que podiam plantar e construir suas casas, depois que acabassem o trabalho da fazenda, claro.
Quando a produção fosse vendida, eles teriam algum dinheiro, mas, desde já, podiam adquirir no armazém da fazenda as coisas de que fossem precisando. Que pensassem bem, não tinham pra aonde ir. O lugar mais perto ficava a três dias de caminhada. E eles, com mulheres barrigudas e crianças, iam morrer pelos matos.
A segunda praga, segundo o rosário de imprecações de Sinhá Martina, foi a seca. Também um castigo pela promiscuidade do Sinhô e dos negros. Ela não…