APRENDA A LEVITAR >> Carla Dias >>


Sim, sou eu. Desta vez, não vou bancar a narradora intrometida que só se revela, no escancaro, lá pelo meio da história. Uma vez na vida, quero o começo. Resolvi tomar as rédeas do meu desejo e ver aonde ele me levará.

Não se desesperem. Ele pode parecer meio atormentado com tudo o que anda acontecendo, e dá de falar bobagens, como se fosse letrado no ofício, mas é um disfarce para o que realmente o atormenta. É um disfarçar-se para tapear-se. Só que a indagação o agonia de jeito que nunca foi agoniado antes.

Como será o mundo, depois de amanhã?

O desconhecido já foi tema de reflexão, vítima da ignorância, prisioneiro da imbecilidade, amante da arte, inspirador de brutalidades e amparo para amores rotulados de impossíveis, para citar um resumo do resumo do resumo do roteiro. Agora, o desconhecido o faz pensar em coisas que jamais pensaria, não fosse aquele despertar dos infernos que o leva a repensar de um tudo: gosto, desejo, escolhas, pessoas.

Repensar pessoas tem sido o mais trabalhoso desse processo. Das coisas, o descarte é mais fácil, apesar de ele ter relutado em alguns itens do seu armário de apegos. Das pessoas, a vida complica. Como quando ele decidiu que não queria mais escutar as histórias do colega, todas com a violência predominando. Compreendeu que não desejava ignorá-la, porque ela existe, e melhor é não negar esse tipo de existência. Só não queria que ela fosse personagem principal de todas as conversas que eles tinham. O colega adorava a violência, a ponto de não se espantar mais com ela.

Ele nunca rejeitou o espanto. Acha que o espanto é uma necessidade para não se morrer de vaziez, antes da morte, propriamente morte.

Tem levado um dia de cada vez, tentando preenchê-lo com importâncias. Assim, chegamos à minha intromissão. Estou acostumada a observá-lo a se debater nas águas da vida. Já presenciei, também, ele desistir e submergir, até que a vida chegasse àquele quase que serve de linha divisória entre o bem-vindo de volta e o adeus, até nunca mais. Ali, naquela desistência profunda, naquele lugar nenhum, sentei-me por perto e segurei a mão dele. Demorei-me no gesto, porque eu queria saber qual era a temperatura de tão concreta tristeza.

A insana fleuma me encheu os olhos de água morna e salgada.

Como narradora desse episódio de vida de alguém – por sorte, não preciso descrever uma sala cheia de penduricalhos -, eu bem que poderia dar uma ajuda e fazer com que o espírito dele se aquietasse por alguns instantes. Um alívio para liderar futuras esperanças e sonhos. Acontece que me interessa saber sobre ele na crueza do que o atormenta. Aliás, seus tormentos são especialmente deleitáveis.

Como este...

Ele está sentado de costas para a janela, em uma poltrona pequena para ele, como um se fosse um sapato apertado. Nenhum penduricalho por perto. O dia vai partindo, ao fundo, feito cenário de animação. O mundo parece tão longe, mas ao menos já faz algumas horas que ele não se pergunta sobre como ele será amanhã.

É preciso descansar do que será, vez ou outra.

É o hoje, esse hoje de emoções curvilíneas e desajeitadas, que enfeita a mente dele. É o agora, estampado em uma fotografia de alguém que ele sequer conheceu, mas enfeita seus devaneios. Pensa no ex-colega e seu apego à violência. Sorri, melancolicamente, deixando violências conhecidas desaguarem naquele lampejo de leveza.

Encosta a cabeça na poltrona e fecha os olhos. Escuto a canção tocar dentro da cabeça dele. Há música e há ecos, nem todos brandos, alguns são gritos.

A música, ele gosta dela, da imagem que ela pinta, assim, na logo no início:

Se meu mundo cair
então caia devagar
Não que eu queira assistir
Sem saber evitar

Deleito-me com as rugas provocadas pela canção, os gestos espontâneos e a voz que se atreve, aqui e ali, a cantarolar em acompanhamento. Sento-me aos pés dele, deito a cabeça em suas pernas. Queria que ele soubesse que estou aqui e me tocasse os cabelos, que cantasse em meus ouvidos:

Ter o mundo na mão
Sem ter mais onde se segurar
Se meu mundo cair
Eu que aprenda a levitar


Imagem: Happy warrior © George Frederick Watts

Canção citada: Se meu mundo cair, de José Miguel Wisnik



Comentários

Cristiana Moura disse…
tua escrita é ímpar de tal forma que senti-me levitando entre as palavras. Grata!
Carla Dias disse…
Cris, eu que lhe agradeço por se permitir levitar pela minhas palavras. Obrigada, de coração.

Postagens mais visitadas deste blog

Vizinha Fake News >>> NÁDIA COLDEBELLA

O PASTOR >> Sergio Geia

Conceição >> Alfonsina Salomão