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ANGÚSTIAS EM TEMPOS DE RECLUSÃO >> Sergio Geia



A amiga Cristiana Moura gostou da palavra reclusão. Não porque a palavra seja bonita, aliás, é feia, pesada. Mas porque a palavra talvez expresse melhor o momento, bem pesado, pelo qual estamos passando. Melhor que isolamento, pois em tempos de redes sociais, com tantos recursos, até de imagens, não estamos absolutamente isolados, embora não seja a mesma coisa, aliás, longe de ser. Reclusão compulsória, com todos os nossos grilos chirriando nas orelhas. 

Grilo um. Nunca tive sinusite. Pois em tempos de corona vírus ela apareceu, deflagrada por um resfriado que peguei do meu filho. Adriana, outra amiga, diz estar sentindo falta de ar, mas é psicológico. Meu diagnóstico é de sinusite, a secreção amarela de outro dia, a voz anasalada, a dor de cabeça e perto do nariz e olhos. Mas a garganta também arranhou, tosses vieram, dia-sim-dois-não, espirros, coriza, nariz entupido, e lá estou eu mais uma vez na cozinha com o termômetro debaixo do braço: 35,2; paranoia pura. E nessa reclusão com meus grilos a gente vai levando, sem saber onde tudo isso vai acabar. Médico, no momento, nem me indiquem; não vou. Dizem que sou do grupo de risco. Tenho hipertensão, embora a pressão esteja controlada há bastante tempo, via Fluxocor. Mas outro dia ouvi uma especialista dizer que não há estudos que apontem a razão pela qual nos hipertensos o vírus apronte mais do que nos outros. Seria pela pressão elevada ou seriam os remédios que o hipertenso toma para mantê-la em níveis desejados? Eu, hein? Melhor ficar quieto em casa. 

Grilo dois. Será que ando fazendo as coisas corretamente? Bom, estou em casa sem sair há dias, só domingo que fui comprar alimentos no supermercado e levar almoço à minha mãe. Ficar em casa não tem erro. Mas disseram que temos que desinfetar tudo que entra em casa com álcool 70%. Será que faço corretamente? Será que exagero no álcool ou borrifo a menos? Será que contamino outras coisas enquanto faço a desinfecção? O celular? A carteira? A mesinha da cozinha? E se saiu, tire as roupas quando voltar e lave-as imediatamente. O calçado, de preferência, deixe do lado de fora — da minha vizinha sempre vejo no tapete da porta. Lave mãos com muita água e sabão, e hoje até pessoas ensinando como se faz uma boa lavagem de mãos tem. Desinfete o trinco da porta. Deus, é muita coisa... 

Grilo três. Nessa madrugada acordei com o barulho de música e me pus a achar que estava com falta de ar. Não tenho nenhum sintoma, e a suposta falta de ar veio depois de pensamentos não tão oxigenados. Mas com tanta notícia ruim, fica difícil manter a limpeza do pensamento. As mãos ficam limpas, mas a mente nem tanto. Tenho uma tia internada, com suspeita de COVID-19. Um tio que, se ela estiver com o vírus, também está. Li a menina falando que seu pai estava recluso dentro de casa, saiu um dia apenas para ir ao mercado. Pegou. Morreu. Tinha 45 anos. A cabeça vai fantasiando, criando cenários perversos, crise de ansiedade pura, pânico, depressão, sei lá, psicólogos de plantão? Como disse a Elba Ramalho numa música: pânico, terror e aflição. 

Grilo quatro (GRILÃO): sempre saio na sacada para dar uma espiada no movimento. Nenhum. Parece uma cidade morta. É sinistro, triste, angustiante. Lugares que tinham vida, cor, barulho, não têm mais. A noite da Santa Teresinha é balada pura. São bares no entorno da praça, o BarBacana, melhor balada de Taubatexas, as dezenas de carrinhos de lanches, pizzaria, açaí, uma moçada colorindo a praça, e, de repente, escuridão, silêncio, vazio. Até quando? Sim, porque a pandemia pode acabar, mas o vírus vai permanecer circulando como um fantasma pelas nossas cidades. Será uma vigilância eterna? O amor vai acabar? Não poderemos mais nos tocar, nos beijar, nos abraçar? Será uma vida lavando as mãos e evitando o contato? As máscaras serão acessórios obrigatórios? Ficaremos assustados e em posição defensiva com o primeiro que ao nosso lado tossir ou espirrar? Se for essa a lição a ser aprendida, eu posso dizer que estaremos muito próximos do fim. Deus nos livre disso.

Comentários

Cristiana Moura disse…
é tanta coisa né? Talvez lições de renascimento, de estarmos conosco. De que a humanidade toda é um só ser. Que o capitalismo qual como funciona está falido (não entendo de economia, mas um pouco de gente, e os modos de viver e as relações que nós seres humanos tem desenvolvido ao longo da história, deixam muito, muito a desejar. Talvez a gente aprenda que precise mais de contato, de abraços e beijos do que imaginava. Talvez a gente aprenda que queremos estar menos sós do que imaginávamos. Por hora, tento aprender a viver um dia de cada vez. Intenso seu texto, Sérgio —tem gosto de ar em falta misturado com desejo de pele na pele de outrem.
Nadia Coldebella disse…
Querido Sérgio, esse é um dos textos mais francos que li nessa nossa saga coronavirus. Quem não está grilado?
Zoraya Cesar disse…
"grilos chirriando" foi maravilhoso. Sérgio, vc descreveu eficazmente todas as paranoias que nos assombram ultimamente. Pelo menos, lendo vc, elas ficam menos assustadoras e nos deixa mais leves. Ademais, 'misery likes company'. Muito bom, como semopre!
meutemapreferido disse…
Que maravilha. Vou compartilhar aqui com os demais professores de português da minha cidade. Obrigado pela partilha.
sergio geia disse…

Grato, queridos.

E obrigado "meutemapreferido" por compartilhar.

Vamos juntos com perseverança que tudo vai dar certo.