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INSURGÊNCIA >>> Coletivo de Autores do Crônica do Dia



Urgência 

Pelas ruas vazias da cidade, que sempre geraram agrado aos seus, em caso de emenda de feriado, ecoa aquela solidão que costumam creditar ao paulistano, os da metrópole das portas e janelas fechadas, do concreto. Contudo, as varandas nunca foram tão importantes. As janelas se tornaram as portas das casas e apartamentos. Há nada de concreto nos poucos que desfilam pelas ruas, verbalizando, em alto e bom som, as suas agonias, assim como suas extasiantes e raras alegrias. Tudo neles reverbera de forma imprecisa e flácida. 

Às vezes, aquela realidade parece uma versão não muito justa dos feriados prolongados. Há quem goste desse vazio, mas não suporta a sua autoria ou o desolamento que vem com ele. Há quem espere, ansiosamente, pelo próximo feriado prolongado, daqueles que permitem que se saia pelas ruas da cidade e se frequente restaurantes, teatros, bares, casas de shows, museus e tantos outros lugares... e tantas outras pessoas. 


Emergência 

Não. Não é o hospital onde Sílvia já se internou e por tantas vezes ocupou os leitos durante 8 anos. Agora é 2020. Agora é tristeza e solidão. Necessárias. Adaptadas. Mas há algo estranho numa manhã de sexta feira. Um som? De repente… Ouvindo barulhos de carros muitos carros, ela fica atenta. É uma carreata. Pela fresta do portão da casa, Sílvia toma pé do horror. Sim. Poderosos "berram" a seguinte emergência: "a partir da próxima semana os restaurantes voltarão a funcionar." Sílvia toma café, não consegue engolir a dor do mundo, e muitos preferem o lucro. Morte anunciada numa pequena cidade.

Silvia chora. Silêncio. Mas a dor não para. 

Do outro lado do mundo, Ana também chora. Ela, o marido e o filho estão trancados há 15 dias. Na capital da Espanha, corpos se empilham em uma pista de gelo. Tudo em silêncio, nem um som. Mas não é por isso que Ana chora. Ela viu de perto horrores que nunca imaginou ver, viu filhos abandonarem os próprios pais e viu, discordando de tudo o que se disse, crianças pequenas morrerem. Mas não é por isso que Ana chora. Ela teme pelos seus, que estão no Brasil. Ela se revolta porque fantasiaram um vírus de monstro e depois vestiram o monstro de palhaço e ela não sabe se verá seus pais vivos outra vez. 

Ana chora. Silêncio. Mas a dor não para. 

Novos cotidianos, novas rotinas tentando se desenhar. Bárbara continua trabalhando. É necessário. Trabalha na área de saúde. Para seus pacientes, por muitos conhecidos como simplesmente por loucos, nada mudou — levam a vida em reclusão. Novos padrões de higiene, máscaras, álcool gel, nada disto faz sentido nem tampouco é compreendido por aqueles cujo sofrimento psíquico foi a tesoura a cortar os seus fios-terra com essa nossa realidade. São tantas as realidades. Para Bárbara o trabalho ficou mais duro — leva um choro preso na garganta. É tremenda a sensação de insegurança que a invade em seus trajetos solo na cidade vazia. Medo da violência da cidade, medo das mortes anunciadas. Medo do encontro noturno diário consigo mesma na quitinete de 25 metros quadrados onde mora. 

Bárbara não consegue chorar, mal respira. Bárbara trabalha e sobre-vive. 


Indulgência 

No Brasil a campanha continua: "ao trabalho, preguiçosos, que a produção não pode parar. Vão morrer incapazes, paciência! É a natureza! A nuvem lá fora só recolhe os pecadores, não tenham medo, tenham fé. Orem e trabalhem. Produzir 'é preciso, viver não é preciso.' " Os palhaços riem. Mas a dor não para. 

A dor ainda é incipiente. Dizem que o pico da dor vai ser no final de abril, início de maio. Daí as dores vão se multiplicar. Ela chega em casa, e ele se desespera por ter brincado de desafiar o mundo, por ter rasgado o asfalto pedindo vida normal urgente. Daí será tarde para dimensionar a dor e as atitudes de outrora. Se pudesse voltar no tempo... E se revolta por ter escolhido o caminho do mito em vez de ciência. É tarde. 


Resistência 

Cada noite traz uma nova manhã. Depois de cada luta, vem o tempo para descanso. Talvez o paulistano desacelere e passe mais tempo na varanda. Talvez Silvia tome seu café com o coração tranquilo. Talvez Ana abrace seus pais. Talvez Bárbara curta sua própria companhia. Talvez, no Brasil, viver seja preciso. Talvez ele não possa voltar no tempo, mas possa refazer a trajetória. 
Não é tarde.

Sempre se pode encontrar um jeito de resistir. 


Este é um texto coletivo dos autores do Crônica do dia. Nós, autores, comungamos do medo, da tristeza, da ansiedade e do desejo de superação - sentimentos esses que, em tempos tão estranhos, parecem inscritos na humanidade. Também acreditamos que é no esforço coletivo, que reside a superação. Participaram deste coletivo (em ordem alfabética): Albir José da Silva, Carla Dias, Cristiana Moura, Nádia Coldebella, Sandra Modesto e Sergio Geia. Aquarela: Nádia Coldebella.

Comentários

Marina disse…
Parabéns, lindo texto. Sempre acompanho voces
Anônimo disse…
Política e epidemias ou pandemias nunca foram uma mistura inteligente. Começou bem, mas a partir do segundo paragrafo uma chuva de políticagem barata, frases como produzir é preciso, viver não é preciso ou escolhido o caminho do mito em vez da ciência são patéticas, demonstra que o principal motivo é expor as ideias politicas de cada um. Personagens sem empatia completam o quadro de uma chance desperdiçada de fazer uma cronica decente
Nadia Coldebella disse…
Caro Anonimo

O texto é um coletivo de autores em que várias experiências cotidianas - e mesmo opiniões - se encontram e se mesclam para expressar o que sentimos no momento corrente. Os personagens que você classifica como sem empatia são expressões de realidades pessoais que vivemos - lembrando que empatia significa a capacidade de se colocar no lugar do outro.

A minha personagem, a Ana, por exemplo, é baseada em uma amiga que está na Espanha e que teme não voltar a ver os pais. Acredito que não há maior empatia do que esta, que a gente tem com aqueles que gostamos. Além disso, as preocupações com o quadro atual são de todos: todos podemos perder alguém, ter medo de algo, se sentir ansioso por alguma coisa, negar, se revoltar, culpar, etc. São sentimentos perfeitamente naturais da condição humana que procuramos expressar - muito parcamente - através do uso limitado de algumas palavras. Por tanto, nos encontramos autorizados, pelo contexto, a expressar coletivamente a empatia que sentimos um com o outro.

Para ser mais especifica e ampliar um pouco a sua compreensão sobre o que tentamos abordar, esclareço que a ideia de insurgir não se refere a insurgência contra a politica ou partidos ou sistema, mas de resistir/ir contra a própria dor ou medo, que são coisas que paralisam nosso mundo interno, impedindo que encontremos forças para achar um caminho de superação de crises.

Por fim, acreditamos que escrever é um ato politico, assim como viver, porque politica não se define por partidos ou por quem apoiamos, mas pelo espaço e ação que a gente realiza no mundo.

E por estarmos numa democracia, agradecemos sua opinião honesta e, esperamos, sinceramente, que os textos futuros lhe sejam mais agradáveis para a leitura.

Grande abraço.
Albir disse…
Nossas dores e nossos medos trocados em regime ao mesmo tempo de solidariedade e isolamento. Fiquemos juntos, ainda que separados. Como diz Drummond, "vamos de mãos dadas."
Cristiana Moura disse…
Vamos de mãos dadas, caro Albir, tod@s!