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SOMOS O OUTRO UM DO OUTRO >> Carla Dias >>


Rumine comigo... 

Colocar os pés na água. Particularmente, eu gosto dos rios. Passar um tempão a observar os círculos se formando, a cada movimento dos pés. 

Janelas, sempre. Vivo a capturar paisagens diversas, valendo-me das janelas que visito, localizadas onde vivem pessoas por quem tenho honesto apreço. Não são apenas janelas, meus caros. Não precisam ser apenas.

Eu tenho janelas em casa. Cada uma delas me leva a um universo.

Ando precisado de terra
De carne e quentura
De pernas bambeando desejos

O som das conversas dos outros, servindo de trilha sonora para as conversas que temos - olhos nos olhos, a voz escutada no ato e estampada na feição, o perfume do café (cada um que escolha seu próprio veneno!) participando do desfiar histórias. O mergulhar em reflexões, acabar-se nas gargalhadas, contemplar o valor das ironias bem construídas. A constatação de que, daqui a algumas horas, isso tudo será relembrado, com requintes de contentamento. 

Dia cinza e de chuva, o frio. Dia de sol, em outono... tudo tão claro e vibrante.

E de luminar entrelinha
Com a sabedoria
Dos principiantes
Dos corsários

O momento em que nos damos conta de que a notícia é das melhores, pouco antes de ela ser declarada, só porque o olhar do entregador não conseguiu se segurar e demonstrou o que viria em seguida.

Árvores aprisionam meu olhar, com mais frequência do que procuro por sua sombra. Observá-las me leva a flertar com a alegria.

Longas caminhadas pelas ruas da cidade. Esbarrar em pessoas e isso ser prefácio de amizades para uma vida. Os shows esperados com o artista preferido. O artista que não conhecia e que, ao conhecer, em um desses bares da vida, tornou-se dos seus preferidos. 

Dos que navegam sempre ao contrário

Ainda na ruminação... 

As pessoas que estão ao seu lado, presentes ou nas fotografias, isso não é problema, apenas a realidade vigente. Pense na importância delas para você. Pense no que você faria para protegê-las, para ajudá-las em suas questões, para que elas vivessem experiências fantásticas. Pense no seu desejo de que elas jamais sejam privadas do direito de dizer, escutar, aprender, defender, ser. 

Todos nós queremos voltar à vida, mergulhar os pés nos rios, observar paisagens das janelas de quem amamos e ter longas conversas com os amigos. Queremos sentir a chuva e o sol e sermos capazes de identificar emoções nas feições de quem apreciamos decifrar, assim, podendo tocá-las se abraços forem amplamente desejados. 

Levando as marés nos ombros
E no peito
Um país de vontades

Só que, neste momento, a questão é única e universal. Eu quero super bem a quem você observa, agora, na presença ou na fotografia. Quero bem a você. Quero que fiquemos bem. 

Ruminando feito louca... 

Não seria fantástico se, neste momento em que você depende das minhas escolhas e eu das suas, pudéssemos chegar ao mesmo ponto? Ao ponto em que matar saudade não seria colocar o afeto em risco.

Olhe para os seus afetos, presença ou fotografia. Eles dependem, neste momento, das escolhas que você não pode fazer pelo outro. E como você é outro de alguém, o meu outro, assim como sou o seu, podemos cuidar um dos outros para que nossos afetos e nossos desejos não se tornem ausências permanentes. 

Cuidem-se bem.

Imagem: Music © Gustav Klimt

carladias.com

Comentários

Zoraya Cesar disse…
Princesa das Palavras, li duas vezex para que toda a ternura de suas ruminações me envolvesse num abraço longo e apertado. Obrigada. Ah, e amei os poemas entrelaçados. Principalmente esse
de luminar entrelinha
Com a sabedoria
Dos principiantes
Dos corsários
Cristiana Moura disse…
é tanta a ternura entrelaçada! So me resta agradecer!
Albir disse…
Poesia de Carla converte ao cuidado.
Carla Dias disse…
Obrigada, Ká. :)

Zoraya, sinta-se sempre abraçada. Seguem meu afeto e minha gratidão.

Cris, quem agradece sou eu. E o agradecimento segue, com muito afeto.

Albir, às vezes, ela adora um descuido.