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NÃO PECHINCHARÁS. NÃO DESPREZARÁS MULHERES DE APARÊNCIA FRÁGIL 1ª parte >> Zoraya Cesar

A secretária olhou a mulher à sua frente com um certo desdém. Onde já se viu, pensou, vir a um encontro de negócios com um homem tão importante quanto o Sr. Lauro vestida desse jeito?

Dentro da elegante bolsa Chanel -
que a simplória secretária
não soube reconhecer -
uma pistola Ruger LC9S 9mm
Por ‘desse jeito’, entenda-se um tailleur verde escuro (que a desavisada secretária não sabia, mas tratava-se de um legítimo Chanel, assim como os sapatos baixos de bico quadrado e a bolsa). Não usava maquiagem, joias, sequer um perfume. As unhas, cortadas rente e sem esmalte. Os cabelos amarrados num severo coque quaker. Uma 'ninguém', na visão da secretária, que, no entanto, cumpriu com seu dever e levou a mulher ao escritório do chefe. 

O Sr. Lauro era alto, corpulento, sanguíneo. Sua presença ocupava toda a grande sala de móveis modernos e de gosto duvidoso. Um folgazão simpático e bem sucedido, dizia a mídia. Na realidade, um tycoon implacável e sórdido, capaz de vender corpo e alma da própria mãe a troco de qualquer vantagem, ínfima que fosse. Não tinha escrúpulos ou princípios e desprezava quem os tivesse. 

Sorrindo, o Sr. Lauro era tal
qual um crocodilo.
E igualmente perigoso.
Um sorriso cheio de dentes enormes abriu-se, qual um crocodilo ao sol e igualmente perigoso. A pequena mão da mulher sumiu dentro das suas. Num relance, ela notou a base incolor das unhas, os vincos da papada, as bolsas inchadas e azuladas sob as pálpebras – sinal de quem bebe demais depois das dez da noite. Notou também que o olhar desmentia o sorriso e a afabilidade. Uma ave de rapina sempre faminta e traiçoeira, concluiu.

(Em sua profissão, saber com quem estava lidando podia ser a diferença entre a vida e a morte.

O homem também avaliava a mulher, recomendada por um advogado amigo, já falecido, que conhecia Deus e o submundo (que sua Alma descansasse em paz no inferno. Morrera nos braços de um anão de circo, a quem deixara toda sua fortuna. O Sr. Lauro sempre ria quando lembrava dessa história). O magnata, também acostumado a escrutinar personalidades, achou a mulher franzina demais, opaca demais e em seus olhos não viu o brilho que os matadores geralmente têm. Não levou fé. E cometeu o primeiro erro do dia. 

- Estava ansioso por conhecê-la. Ouvi falar muito bem de sua agência e de seus serviços. Sente-se, por favor – O Sr. Lauro foi efusivo e agradável, acostumado a ver todos, principalmente mulheres, caírem sob seu charme calculado. – Quer beber alguma coisa?  Só tenho o melhor. Ou vai fazer como nos filmes e dizer que ‘não bebe em serviço’ – e gargalhou com sinceridade da própria piada.

A mulher nem piscou. Sorriu com o canto da boca apenas para manter civilidade e as regras de cortesia.

- Muito obrigada, Sr. Lauro. Não bebo durante o  dia. 

Um brevíssimo e quase imperceptível silêncio se fez e imediatamente perceberam que não gostaram um do outro. Mas ambos eram, antes de tudo, pessoas de negócios, não estavam ali para estabelecerem vínculos de amizade.

- Vamos sentar e conversar um pouco. Me diga, estou curioso. Você não me parece... bem, você não me parece ter o physique du rôle para o exercício de sua profissão. Há quanto tempo trabalha com ‘isso’?

Levou-a até uma poltrona de estofado macio, daquelas que deixam a pessoa afundada e dificultam o levantar. Um recurso banal, bastante utilizado por entrevistadores e chefes, para que a outra pessoa se sinta em posição quase ridícula e inferior, quebrando-lhe a confiança.

"Manobra infantil", pensou a mulher, enquanto sentava ereta, na ponta da poltrona, sem encostar no espaldar. A bolsa, na qual guardara sua arma, ficou ao alcance de sua mão. Nunca ia desarmada a qualquer encontro. A vida é cheia de surpresas, nem todas agradáveis.  Respondeu calmamente:

- Não falo da minha vida particular. Discrição faz parte do negócio e quanto menos o cliente souber, melhor. Devo lembrá-lo, também, que sou paga por hora, não só pelo serviço. É meu dever...

Ele a interrompeu. Segundo erro do dia.

- Sim, sim. Vamos logo ao assunto. Conhece Muvi Bekke, o cantor? Não é da sua época, provavelmente, você parece muito nova (Ela percebeu que ele ia dizer ‘muito nova para o serviço’).  Roqueiro mais problemático de todos os tempos, sempre envolvido em algum escândalo obsceno. 

Ela assentiu, sim conhecia. E esperou. Essa era a parte mais interessante, como o cliente abordaria o delicado assunto de encomendar a morte de outra pessoa. Conhecer as sombras de outro ser humano era um dos passatempos preferidos dela. Aprendera muito. Por isso ainda estava viva. 

- Pois bem. O fato é que a indústria fonográfica já vai mal há muito tempo. Temos despesas enormes com artistas que não dão o retorno esperado. Estou amarrado a um contrato que só se quebra com a morte desse estrupício. Os advogados dele são antigos fãs muito mais espertos que os meus advogados inúteis. Só tem um jeito de me livrar. Se ele morrer, me desobrigo de tudo, até com viúvas e herdeiros e tenho certeza de que ainda ganharei um bom dinheiro, pois a morte de um artista aumenta as vendas.

A mulher não pareceu chocada nem deu sinais de desaprovação. Humm, pensou, talvez ela não seja tão estúpida assim.

- Como o senhor pretende que o serviço seja feito? Já lhe informaram meus honorários, certamente. 

(Ela sabia que a agência também avisara ao cliente que ele nunca, jamais, lhe pedisse descontos ou parcelamentos). 

- Quero que pareça um acidente terrível, dramático. Isso vende muito. O populacho é sentimental, adora uma tragédia, vai haver uma corrida às gravações e vídeos, os anunciantes vão enlouquecer. Eu fico mais rico e ainda me livro desse estorvo. 

- Agora, quanto ao preço... – ele hesitou. 

Blue Anne sorriu por dentro. 

Continua dia 1° de maio

Outra aventura de Blue Anne http://www.cronicadodia.com.br/search?q=blue+anne

Pistola Ruger LC9S 9mm Luger
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Ruger_LC9s_pro_(23659916129).jpg
https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/4/42/Ruger_LC9s_pro_%2823659916129%29.jpg
James Case from Philadelphia, Mississippi, U.S.A. / CC BY (https://creativecommons.org/licenses/by/2.0)

Crocodilo

Comentários

branco disse…
primeiramente : é muito bom ter um texto seu novo;
segundamente : é uma volta, em grande e, ao estilo que a conheci;
terceiramente : valeu a pena esperar, a história está bem amarrada, personagens críveis, enfim, apesar de você se sair muito bem em outros estilos, nesse campo de suspense/noir você é imbatível, não só pelos daqui (acho que já te falei sobre isso);
quartamente : eu vi o que li, e se vi é motivo de regojizo, afinal quantos autores conseguem essa façanha?
quintamente : aguardemos......
Érica disse…
Esperando a continuação pra comentar rsrsrs
Albir disse…
À minha quarentena soma-se agora o desassossego de imaginar o futuro desses personagens, que viverão ou morrerão requintadamente ao sabor da sua crueldade. Eh, vida dura!
Cristiana Moura disse…
Primeiro de maio? Já nem acredito que se não bastasse as inquietudes da quarentena, agora há de se esperar o desenrolar desta morte encomendada e entre as sutis nuances dessas personagens!!!
Carla Dias disse…
Indo para a leitura da segunda parte...
Clarisse Pacheco disse…
Adoro personagens perigosos com aparência inofensiva!