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Mostrando postagens de Novembro, 2018

DEBAIXO DO FUNDO DO POÇO >> Paulo Meireles Barguil

Se existem várias espécies de poço, também é verdade para as tipologias de fundo do poço.

Há poços secos, cheios e com nível variável de água ou de outro líquido.

Às vezes, a pessoa está lá por escolha.

Outras vezes, foi colocada contra a sua vontade.

Às vezes, ela consegue sair com vida.

Outras vezes, até o resgate do corpo é difícil.

E o que dizer quando alguém está debaixo do fundo do poço?

Se há um fundo, é porque tem um limite e, portanto, algo debaixo dele...

Durante essa vida, estive nele algumas vezes.

Em todas, eu consegui sair.

Ou será que ainda estou nele há décadas e não sei?

O FUNDO DO POÇO>> Analu Faria

Nos três anos em que escrevi aqui, eu quis fazer o que os ditados fazem para se tornarem ditados. Quis pegar umas palavras, juntá-las e arremessá-las de modo que caíssem naquele poço dentro da gente onde as coisas fazem sentido quando atingem o fundo. Eu sei, é muita pretensão.
Não sou escritora, o que fiz aqui no Crônica do Dia foi um exercício de escrita, ainda que parecesse ter pompa e circunstância (prova maior de que não sou, de verdade, uma escritora). Mas mesmo no nível "aprendiz", eu me joguei nessa tarefa de falar de alguma coisa que não fosse o clima, o jantar, o gato dormindo na cadeira, por si sós, ou seja, como aqueles quadros na parede de casa, que a gente, de tanto ver, esqueceu de que estão ali. Eu quis sempre o que era singular, mesmo no corriqueiro e no mínimo. Eu sei, é muita pretensão.
Essa vontade de que a escrita fosse mais (não tem complemento aqui)  deve ter a ver com a forma como tento viver a vida. Entre "louca" e "intensa" eu j…

ELUCIDAÇÃO DIVAGANTE >> Carla Dias >>

Tem prédio sendo construído logo ali. Tenho nada contra prédios, eu moro em um. Só que acontece de eu achar que uns e outros se assanham com a ideia de tocar o céu. E aquele céu, aquele no qual o meu olhar costumava se aconchegar, transforma-se, rapidamente, em janelas. Janelas que darão para ouras janelas.

Falta modéstia aos prédios.

De uns dias para cá, pessoas que conheço e estimo vêm comentando seus feitos comigo. Algumas me pediram para ajudá-las com eles. Eu gosto de ajudar. Há livro sobre a morte sendo escrito com apreço à vida, porque lida com problemas que são bem difíceis de encarar, ao observarmos alguém que amamos partindo aos poucos. Há música sendo composta em homenagem a sentimentos profundos e genuínos, que provavelmente nunca se transformarão em declaração desmascarada. Há personagem criado em imagem que se embrenha em sonhos e poesia.

Há projetos sobre assuntos com os quais nunca flertei, mas neste caso, o importante é a conversa para aliviar a pressão da pessoa e a…

AO MESTRE, COM CARINHO >> Clara Braga

Outro dia ouvi uns alunos conversando sobre professores que foram marcantes para eles. Achei curioso e triste perceber que a maioria dos relatos não eram de professores que haviam deixado uma boa lembrança, a grande maioria falava de situações chatas que envolviam aquele professor e, por isso, não esqueciam a pessoa.
Um caso em particular me chamou mais a atenção, um aluno disse que um dia a professora perdeu a paciência com ele e avisou que não se importaria mais com ele já que ele não prestava nem para ser gari!
Não vou nem comentar essa frase, pela quantidade de preconceitos e desrespeitos que ela carrega, mas fiquei triste após refletir e concluir que realmente estamos constantemente nos deixando ser mais influenciados por momentos e sentimentos ruins, mesmo quando eles acontecem em menor quantidade do que os momentos bons!
Comecei a pensar nos meus professores e, adivinhem, o primeiro que me veio a mente foi um professor de matemática que me chamou até o quadro para resolver u…

ARMAS, ATROPELOS E BRAZÕES >> Albir José Inácio da Silva

Ouviu os primeiros acordes do hino nacional. Queria descer correndo os nove andares, mas conteve-se esperando o elevador e conferindo no espelho o patriotismo da faixa na cabeça, da camisa da CBF e do xale de bandeira brasileira.
Já tinha se conformado a assistir da janela como das outras vezes, agitando a bandeira, àquele auto de fé e civismo. Não tinha coragem de deixar sozinho o seu Duque, querido e manco, que a maledicência da vizinhança dizia ser retardado. Mas a presença da diarista naquele dia salvou a sua passeata.
“Você vai ficar sentada, Lurdinha, só cuidando do Duque! Não precisa fazer nada!”
O Duque recebeu esse nome para encarnar as duas paixões de Leopoldina: a glória de Caxias e a dignidade da nobreza.
Ao exército de Caxias devia tudo que era e tudo que tinha. Seu pai chegou rapidamente a coronel nos tempos da gloriosa revolução, tão caluniada pelos vermelhos. Até hoje ouve boatos sobre a atuação do Coronel Diamante nos interrogatórios. Esse era o agradecimento pelo ri…

HÁ TRINTA DIAS ME BATEU UMA COISA DOWN >> Sergio Geia

Assim do nada, como surgem dores e resfriados (doenças também), há trinta dias me bateu uma coisa down. Senti algo ruim no peito, um vazio, que virou desânimo e, típico movimento reverso, vontade de mergulhar numa piscina de nada, e eu fiquei assim. Como a vida não pode parar em razão de nossos vazios e desânimos, segui em frente. Calhou de no meio dessa coisa estranha, sai de casa um dia pra andar e buscar inspiração a fim de escrever algo sobre a primavera que batia à porta.
 É claro que o resultado foi zero de inspiração. Não achei coisa alguma que me remetesse à primavera. Talvez, minha vibe sendo outra, achasse.
Decidido assim mesmo a escrever sobre a primavera, como um teimoso convicto, cheguei em casa, sentei na frente do computador e escrevi. Obviamente, uma crônica baixo-astral, reflexo do baixo-astral de seu criador, que foi publicada neste espaço em 22 de setembro de 2018.
O pior dessa coisa estranha é que o universo baixo-astral do escritor criou um texto baixo-astral. Em…

O ÚLTIMO JANTAR ROMÂNTICO >> Zoraya Cesar

Claudia acordou de um sono profundo, olhou o relógio, duas horas da manhã. Levantou, foi à cozinha, tomou um copo de água, passou no banheiro, fez pipi e voltou para o quarto. Deitou e dormiu. Acordou de novo, olhou o relógio, duas horas da manhã. Como assim? Levantou, foi à cozinha, bebeu água, mas não encontrou o banheiro. Devo estar sonhando, pensou, vai ver vou fazer pipi na cama. Deitou e dormiu.
Acordou, mais uma vez. Olhou o relógio. Duas horas da manhã. Tsc, acerto esse treco assim que amanhecer. Ainda cheia de sono, levantou e... não foi à cozinha, sequer conseguiu sair do quarto. Procurou pelo interruptor. Não encontrou. Nem as paredes, nem a porta, muito menos o celular. Meu Deus, o que está acontecendo? Não enxergava nada, a escuridão absoluta só era quebrada pelo écran vermelho do relógio digital, a refletir as mesmas duas horas. Gemendo de medo, e a muito custo, conseguiu encontrar a cama. Deitou, e percebeu, surpresa, um estranho odor de velas recém-apagadas e flores pas…

FRUTO >> Paulo Meireles Barguil

"Já podaram seus momentos
Desviaram seu destino
Seu sorriso de menino
Quantas vezes se escondeu
Mas renova-se a esperança
Nova aurora a cada dia
E há que se cuidar do broto
Pra que a vida nos dê flor e fruto" (Milton Nascimento, Coração de estudante)
Diversas variáveis influenciam a trajetória e o destino da semente: a terra, a luz, o vento, a água, os predadores, o cuidador...
É por isso que o fruto sempre será uma possibilidade!

A qualidade do cuidar externo guarda íntima relação com a do cuidar interno. Do ponto de vista energético e psíquico,  não há externo e interno, pois a dimensão física não é capaz de separar o fluxo entre os seres, pois o corpo é o instrumento que proporciona ao indivíduo, ao mesmo tempo, vivenciar e expressar uma fração do metabolizado por ele. É por isso que o futuro sempre será uma possibilidade!
[Eusébio – Ceará]
[Foto de minha autoria. 09 de novembro de 2018]

NADA DE IMPORTANTE >> Carla Dias >>

Tornei-me dedicada escutadora de histórias alheias. Acredite, sempre presto atenção a elas, não importa quem as conte. Há sempre algo nessas histórias que me levam à reflexão.

Pode ser que eu seja um pouco apegada à reflexão, que elas tomem boa parte do meu tempo e se misturem, sem pudores, às divagações. Mas quem não tem seus apegos, certo? Eles até podem não ser lá muito saudáveis, mas são inevitáveis. Assim, sugiro fazermos as melhores escolhas possíveis ao nos apegarmos a quem ou ao que seja.

Sim, às vezes nos perdemos do direito à escolha. Quando nos damos conta: apego.

Sou apegada a certos livros, certas mágoas, certos prazeres, certas bebidas: café, sempre. A certas pessoas, certos lugares, certos sonhos. No caso dos sonhos, não me importo de quão maleáveis eles se tornam. Adoro como eles vão se encaixando na realidade, trazendo outras nuances, algumas que nem eu imaginei para eles.

Há certa ironia em como os sonhos nos mostram que sua realização vive na realidade. Que eles nã…

SANTUÁRIO >> Clara Braga

Passei para os meus alunos um seminário para ser apresentado em grupo. Para apresentarem o tal seminário os grupos tinham que estudar duas músicas que constam na lista do PAS (programa de avaliação seriada) e explanar para a turma, entre várias coisas, o significado da letra e o contexto histórico no qual foi composta.
Para não ter problemas com alunos dizendo não terem entendido o que era para fazer e para evitar qualquer tipo de confusão separei algumas aulas apenas para orientação do trabalho, mas a verdade é que alunos sempre dão um jeito de criar uma confusão, parece até que quanto mais você se esforça para que nenhum problema aconteça, mais eles acontecem.
Entre as músicas da lista estava uma chamada Santuário da banda Jenipapo, uma banda local. A música é bem bonita, um rock pop que mistura instrumentos clássicos do rock com instrumentos indígenas. E o significado também é bem interessante, é um posicionamento crítico em relação à construção de um setor habitacional em uma re…

UM ANJO VISITA GABRIEL >> Sergio Geia

Ele cumpria uma missão confiada pelo Departamento de Missões do Céu. Naquele dia, entrou em diversas casas, a maioria, casas modestas, de humildes moradores. Testemunhou a fé inabalável de muitos, impôs suas mãos carinhosas em homens, mulheres, crianças, até que no fim da jornada, aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo, quando já se preparava para pegar carona numa nuvem veloz que passava, se deparou com Gabriel, um senhor bastante idoso que morava sozinho. O homem bebericava uma taça de vinho, esparramado sobre uma aconchegante poltrona em sua sala; na televisão, The Human Stain, filme baseado no livro A Marca Humana, de Philip Roth.

Não estranhe o conhecimento desse nosso anjo sobre cinema. Exceto por essas viagens, pouco tem a fazer. Ele fica lá em cima se divertindo com produções criadas pelo homem, cinema, livros, música, às vezes até pede licença ao Superior dos Anjos para descer e se embrenhar em teatros pelo mundo. Ele não perde um espetáculo da Broadway, do Teatro Ofi…