sexta-feira, 9 de novembro de 2018

FRUTO >> Paulo Meireles Barguil

 
 
"Já podaram seus momentos
Desviaram seu destino
Seu sorriso de menino
Quantas vezes se escondeu
Mas renova-se a esperança
Nova aurora a cada dia
E há que se cuidar do broto
Pra que a vida nos dê flor e fruto"
(Milton Nascimento, Coração de estudante)

Diversas variáveis influenciam a trajetória e o destino da semente: a terra, a luz, o vento, a água, os predadores, o cuidador...

É por isso que o fruto sempre será uma possibilidade!

A qualidade do cuidar externo guarda íntima relação com a do cuidar interno.
 
Do ponto de vista energético e psíquico,  não há externo e interno, pois a dimensão física não é capaz de separar o fluxo entre os seres, pois o corpo é o instrumento que proporciona ao indivíduo, ao mesmo tempo, vivenciar e expressar uma fração do metabolizado por ele.
 
É por isso que o futuro sempre será uma possibilidade!
 
 
[Eusébio – Ceará]

[Foto de minha autoria. 09 de novembro de 2018]


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quarta-feira, 7 de novembro de 2018

NADA DE IMPORTANTE >> Carla Dias >>


Tornei-me dedicada escutadora de histórias alheias. Acredite, sempre presto atenção a elas, não importa quem as conte. Há sempre algo nessas histórias que me levam à reflexão.

Pode ser que eu seja um pouco apegada à reflexão, que elas tomem boa parte do meu tempo e se misturem, sem pudores, às divagações. Mas quem não tem seus apegos, certo? Eles até podem não ser lá muito saudáveis, mas são inevitáveis. Assim, sugiro fazermos as melhores escolhas possíveis ao nos apegarmos a quem ou ao que seja.

Sim, às vezes nos perdemos do direito à escolha. Quando nos damos conta: apego.

Sou apegada a certos livros, certas mágoas, certos prazeres, certas bebidas: café, sempre. A certas pessoas, certos lugares, certos sonhos. No caso dos sonhos, não me importo de quão maleáveis eles se tornam. Adoro como eles vão se encaixando na realidade, trazendo outras nuances, algumas que nem eu imaginei para eles.

Há certa ironia em como os sonhos nos mostram que sua realização vive na realidade. Que eles não precisam ser sonhados, apenas localizados na nossa bagunçada vida cotidiana.

No caso das pessoas, há sempre o risco de a saudade tomar conta. Para ser apegada às pessoas, sem que isso faça mais mal do que bem, repito a mim mesma, até alcançar a consciência a respeito, que aquela pessoa não me pertence, que ela não nasceu para atender aos meus desejos e/ou necessidades. Então, compreendendo que posso esperar do outro somente o que ele quer e pode me oferecer, acabo aproveitando o melhor desse apego.

É um apego desapegado de posse, porque também eu não desejo ser propriedade. Meu desejo é de ser pessoa que caiba no pertencimento a um afeto legítimo.

Então, acontece de nos apegarmos a um período das nossas vidas. Acontece... pode até não ser com todos, mas certamente com muitos. Aquele tempo em que tudo parecia perfeito, apesar de não ter sido. Quando tudo parecia estar no lugar certo, apesar de nós nunca estarmos. O olhar ao ontem que reverbera nessa cadência de nostalgia por um tempo fácil, leve, rico, adjetivado com todas as palavras mais bonitas do dicionário.

A verdade é que adoramos enganar a nós mesmos.

Acontece, eu sei... já permiti acontecer muitas vezes, mas tenho aprendido a evitar, sempre que me dou conta, antes da aceitação dessa enganação toda.

Por que tudo isso importaria a você?

Não importa.

É que tenho esse hábito de refletir, às vezes, em voz alta, outras vezes, escrevendo. Penso que, assim como as histórias de outras pessoas me levam a refletir profundamente sobre as minhas próprias, e as daqueles por quem cultivo certo apreço, talvez meu apego lhe provoque algum pensamento pronto para ser despertado ou que não merece esquecimento, mas sim uma nova versão.

Tem dias em que é assim...

Acordamos meio distribuidores de mensagens que ninguém pediu, e, mesmo não tão sábios quanto ontem, oferecemos o melhor possível. E, acreditem, há dias em que o melhor possível do outro é exatamente do que precisamos para encarar o que nos parece impossível.

carladias.com





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terça-feira, 6 de novembro de 2018

SANTUÁRIO >> Clara Braga

Passei para os meus alunos um seminário para ser apresentado em grupo. Para apresentarem o tal seminário os grupos tinham que estudar duas músicas que constam na lista do PAS (programa de avaliação seriada) e explanar para a turma, entre várias coisas, o significado da letra e o contexto histórico no qual foi composta.

Para não ter problemas com alunos dizendo não terem entendido o que era para fazer e para evitar qualquer tipo de confusão separei algumas aulas apenas para orientação do trabalho, mas a verdade é que alunos sempre dão um jeito de criar uma confusão, parece até que quanto mais você se esforça para que nenhum problema aconteça, mais eles acontecem.

Entre as músicas da lista estava uma chamada Santuário da banda Jenipapo, uma banda local. A música é bem bonita, um rock pop que mistura instrumentos clássicos do rock com instrumentos indígenas. E o significado também é bem interessante, é um posicionamento crítico em relação à construção de um setor habitacional em uma região que era habitada por índios e chamada de Santuário dos Pajés. O assunto é super atual e eu estava ansiosa pela apresentação dessa música pois muitos outros tópicos poderiam ser tratador a partir da reflexão trazida pelo grupo.

Bom, mas como nem tudo são flores, quando o grupo começou a apresentar disseram: vamos começar nossa apresentação falando sobre a vida da cantora. Achei estranho já que a música é de uma banda sem integrantes mulheres, mas não quis interromper a apresentação pois imaginei que eles pudessem ter se confundido e escutado uma versão que a tal artista fez.

Eu não poderia estar mais enganada, os alunos seguiram com a explicação que ia ficando cada vez mais confusa. Tive certeza que algo estava errado no momento em que eles explicaram que Santuário é um local sagrado de devoção mas não falaram nada sobre a questão indígena.

Chegado o momento de ouvir a música o grupo colocou uma música gospel que fala basicamente sobre ser um santuário para alcançar a salvação. Levei um tempo para pensar em como avisar que eles tinham feito um trabalho todo errado, e nisso a música foi rolando. Olhava para os alunos e ninguém parecia achar aquilo estranho, então deixei rolar. O grupo logo tirou a música e então eu questionei a turma: quem aqui entrou no site do cespe e olhou a lista de obras que irão ser cobradas na avaliação? Vários levantaram a mão, mas quando eu questionei se nenhum deles tinha achado algo estranho na apresentação dos colegas alguns já foram logo assumindo que na verdade nunca tinham olhado nem o que são as matrizes do PAS.

Fiquei na dúvida se era melhor rir ou chorar, eu mesma tinha colocado no quadro dias antes todas as músicas e artistas que poderiam ser estudados. Fiz isso a contra gosto, pois me questiono muito sobre o educador que dá tudo de mão beijada para o aluno e não os incentiva a desenvolverem suas responsabilidades e autonomia. Mas o pior disso tudo é que o grupo comete um erro grave desses mas eu é que ainda tenho que tomar cuidado, pois do jeito que as coisas estão eu ainda posso acabar sendo denunciada por doutrinação religiosa sem nunca ter nem ouvido falar da tal artista. É, não está fácil para ninguém. 


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sábado, 3 de novembro de 2018

UM ANJO VISITA GABRIEL >> Sergio Geia



Ele cumpria uma missão confiada pelo Departamento de Missões do Céu. Naquele dia, entrou em diversas casas, a maioria, casas modestas, de humildes moradores. Testemunhou a fé inabalável de muitos, impôs suas mãos carinhosas em homens, mulheres, crianças, até que no fim da jornada, aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo, quando já se preparava para pegar carona numa nuvem veloz que passava, se deparou com Gabriel, um senhor bastante idoso que morava sozinho. O homem bebericava uma taça de vinho, esparramado sobre uma aconchegante poltrona em sua sala; na televisão, The Human Stain, filme baseado no livro A Marca Humana, de Philip Roth.
Não estranhe o conhecimento desse nosso anjo sobre cinema. Exceto por essas viagens, pouco tem a fazer. Ele fica lá em cima se divertindo com produções criadas pelo homem, cinema, livros, música, às vezes até pede licença ao Superior dos Anjos para descer e se embrenhar em teatros pelo mundo. Ele não perde um espetáculo da Broadway, do Teatro Oficina, é fã de Scarlett Johansson, assistiu a tudo do Woody Allen, adora Paulo Coelho.
Pelo que ficou sabendo numa das reuniões antes de descer, Gabriel é um homem solitário e muito idoso, mas mesmo só, saltou aos olhos do anjo a dignidade com que ele envelheceu. Seus cabelos são finos e brancos, mas bem cuidados. Tem a pele lisa, hidratada, são poucas as rugas; seu banheiro está cheio de cremes antissinais, esfoliantes e outros produtos. Veste-se bem, roupas de alfaiataria, sapatos Oxford, novos e bem engraxados. Mexe-se com classe, os gestos são bem articulados, bebe um vinho argentino muito bom, e traz uma delicadeza que o anjo pouco viu em outros seres desse nosso planeta.
Tão logo encostou suas mãos sobre a cabeça de Gabriel, o anjo descobriu seus segredos. Ainda que distraído com o filme, um pouco alterado pelo vinho, o anjo pôde perceber que Gabriel sofria de solidão. Ruminava o passado com grande dose de melancolia, lembrava de amigos que se foram, de partidas repentinas, mulheres que passaram em sua vida, más escolhas que fez. Trazia consigo uma enorme carga de arrependimentos, pensava que se pudesse voltar, faria tudo diferente.
Gabriel bebericava o vinho, e se emocionava com as cenas de The Human Stain. Em alguns momentos os olhos até umedeciam. O anjo percebeu que ao mesmo tempo em que assistia ao filme, Gabriel fazia uma retrospectiva de sua vida, analisando dimensão por dimensão, pensando-se satisfeito com isso, com aquilo, insatisfeito com outro tanto, mas agoniado por não ter mais o tempo necessário para transformar em créditos as dimensões cujo saldo visivelmente estava no vermelho.
Sua saúde não era mais a mesma. Ainda que um enfarte o tivesse assustado, conseguiu recuperar-se, fazia exercícios, academia, corria, tinha uma alimentação regrada e saudável. Mas ainda que se sentisse bem, sabia que não poderia recuperar o tempo perdido, e que precisaria de outra vida para viver tudo de uma forma diferente.
O anjo apiedou-se de Gabriel. Dentro de si, o anjo sabia que não dependia dele a concessão de uma nova chance àquele pobre homem só. Sem contar que já estava acostumado com esse tipo de drama. Os homens faziam escolhas erradas, tinham medo de arriscar, acomodavam-se em situações, não queriam mudar, e quando chegavam ao final da vida, na hora de fazer o balanço, descobriam que eram infelizes por não terem vivido aquilo que deveriam.
Mas Gabriel era diferente, o anjo sentia. Não sabia explicar a razão, mas o anjo enxergava em Gabriel uma sinceridade atípica, um desejo alucinado de viver, uma energia limpa. Deitou suas mãos novamente sobre a cabeça de Gabriel, coisa que não fazia, e depois partiu carregado por uma nuvem gordinha, mais lenta que as demais, mas também com um regaço mais aconchegante. Viu que Gabriel, tão logo ele saíra, se levantou com disposição, bebeu mais do vinho, e começou a dançar Cheek to Cheek, embalado pela cena antológica de Anthony Hopkins e Gary Sinise. Pela primeira vez, o anjo sorriu.
P.S.: No décimo quinto andar de um apartamento bem confortável em Perdizes, Gabriel Garcia Marquez da Silva desliga a televisão. Após deixar a taça vazia sobre a pia, segue até o quarto. Incomodado com a corrente de vento que entra pela janela, ele fecha o vidro, depois se deita na cama, enfiando-se entre as cobertas. No fundo, pensa ter ouvido alguém falar, uma voz suave vinda de longe, mas logo Cheek to Cheek o embala, o corpo se aquece e tudo vai deliciosamente se derretendo até acabar.


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