quinta-feira, 22 de novembro de 2018

O FUNDO DO POÇO>> Analu Faria

Nos três anos em que escrevi aqui, eu quis fazer o que os ditados fazem para se tornarem ditados. Quis pegar umas palavras, juntá-las e arremessá-las de modo que caíssem naquele poço dentro da gente onde as coisas fazem sentido quando atingem o fundo. Eu sei, é muita pretensão.

Não sou escritora, o que fiz aqui no Crônica do Dia foi um exercício de escrita, ainda que parecesse ter pompa e circunstância (prova maior de que não sou, de verdade, uma escritora). Mas mesmo no nível "aprendiz", eu me joguei nessa tarefa de falar de alguma coisa que não fosse o clima, o jantar, o gato dormindo na cadeira, por si sós, ou seja, como aqueles quadros na parede de casa, que a gente, de tanto ver, esqueceu de que estão ali. Eu quis sempre o que era singular, mesmo no corriqueiro e no mínimo. Eu sei, é muita pretensão.

Essa vontade de que a escrita fosse mais (não tem complemento aqui)  deve ter a ver com a forma como tento viver a vida. Entre "louca" e "intensa" eu já ouvi descrições interessantíssimas sobre a minha personalidade. Todas elas, contudo, tinham em comum tanto a fuga da realidade (e por realidade eu quero dizer a solidez desse sistema casa-trabalho-estudo-amigos-conta bancária-família-cachorro-chefe-boleto, com sono e refeições entremeados) como essa estranha busca pelo extraordinário. Eu sei, é muita pretensão.

Agora eu não pretendo mais muita coisa. Não com a escrita. Pode ser que eu lance um livro com os melhores momentos deste tempo em que estive aqui. Considerando que todo mundo lança livro hoje em dia, não acho isso tão aviltante à humildade geral. Pode ser também que eu leve para a terapia o que escrevi e adiante a alta, ou convença o psicólogo de que eu sou mesmo um caso sem jeito.  Mais provável é que eu não faça nada com o que escrevi, porque o escrito já fez muito comigo, e por mim. Se o que escrevi neste espaço, durante estes anos, fez alguma coisa por você também, ainda que seja te causar enfado, eu tenho mais é que agradecer. Na minha sanha por atingir o fundo daquele poço onde tudo faz sentido, esqueci que a trajetória que as palavras percorrem depois de eu lançá-las, seja que forma essa trajetória tenha, é o que mais importa.


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4 comentários:

Luiz Silva disse...

Cada escritor (a) faz parte de meus dias, se nem sempre comento é porque não tenho tempo no momento em que leio, ou porque simplismente não há o que eu possa dizer. Quando é quinta tem crônica de primeira. O tom de despedida já deixa um vazio.

Carla Dias disse...

Analu, obrigada por esses anos em que você nos ofereceu voos e mergulhos. Que as palavras lhe guiem com toda a sabedoria de quem analisa a vida a partir da própria, enquanto ela acontece.
Beijos.

sergio geia disse...

Como assim, Analu? Que despedida é essa? Como seu leitor, registro: NÃO!!!

PROF. PAULO CORRÊA disse...

Continue, Analu! A gente nem sempre lê, mas quando lê é um prazer imenso seguir o rumo de suas palavras.