sábado, 3 de novembro de 2018

UM ANJO VISITA GABRIEL >> Sergio Geia



Ele cumpria uma missão confiada pelo Departamento de Missões do Céu. Naquele dia, entrou em diversas casas, a maioria, casas modestas, de humildes moradores. Testemunhou a fé inabalável de muitos, impôs suas mãos carinhosas em homens, mulheres, crianças, até que no fim da jornada, aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo, quando já se preparava para pegar carona numa nuvem veloz que passava, se deparou com Gabriel, um senhor bastante idoso que morava sozinho. O homem bebericava uma taça de vinho, esparramado sobre uma aconchegante poltrona em sua sala; na televisão, The Human Stain, filme baseado no livro A Marca Humana, de Philip Roth.
Não estranhe o conhecimento desse nosso anjo sobre cinema. Exceto por essas viagens, pouco tem a fazer. Ele fica lá em cima se divertindo com produções criadas pelo homem, cinema, livros, música, às vezes até pede licença ao Superior dos Anjos para descer e se embrenhar em teatros pelo mundo. Ele não perde um espetáculo da Broadway, do Teatro Oficina, é fã de Scarlett Johansson, assistiu a tudo do Woody Allen, adora Paulo Coelho.
Pelo que ficou sabendo numa das reuniões antes de descer, Gabriel é um homem solitário e muito idoso, mas mesmo só, saltou aos olhos do anjo a dignidade com que ele envelheceu. Seus cabelos são finos e brancos, mas bem cuidados. Tem a pele lisa, hidratada, são poucas as rugas; seu banheiro está cheio de cremes antissinais, esfoliantes e outros produtos. Veste-se bem, roupas de alfaiataria, sapatos Oxford, novos e bem engraxados. Mexe-se com classe, os gestos são bem articulados, bebe um vinho argentino muito bom, e traz uma delicadeza que o anjo pouco viu em outros seres desse nosso planeta.
Tão logo encostou suas mãos sobre a cabeça de Gabriel, o anjo descobriu seus segredos. Ainda que distraído com o filme, um pouco alterado pelo vinho, o anjo pôde perceber que Gabriel sofria de solidão. Ruminava o passado com grande dose de melancolia, lembrava de amigos que se foram, de partidas repentinas, mulheres que passaram em sua vida, más escolhas que fez. Trazia consigo uma enorme carga de arrependimentos, pensava que se pudesse voltar, faria tudo diferente.
Gabriel bebericava o vinho, e se emocionava com as cenas de The Human Stain. Em alguns momentos os olhos até umedeciam. O anjo percebeu que ao mesmo tempo em que assistia ao filme, Gabriel fazia uma retrospectiva de sua vida, analisando dimensão por dimensão, pensando-se satisfeito com isso, com aquilo, insatisfeito com outro tanto, mas agoniado por não ter mais o tempo necessário para transformar em créditos as dimensões cujo saldo visivelmente estava no vermelho.
Sua saúde não era mais a mesma. Ainda que um enfarte o tivesse assustado, conseguiu recuperar-se, fazia exercícios, academia, corria, tinha uma alimentação regrada e saudável. Mas ainda que se sentisse bem, sabia que não poderia recuperar o tempo perdido, e que precisaria de outra vida para viver tudo de uma forma diferente.
O anjo apiedou-se de Gabriel. Dentro de si, o anjo sabia que não dependia dele a concessão de uma nova chance àquele pobre homem só. Sem contar que já estava acostumado com esse tipo de drama. Os homens faziam escolhas erradas, tinham medo de arriscar, acomodavam-se em situações, não queriam mudar, e quando chegavam ao final da vida, na hora de fazer o balanço, descobriam que eram infelizes por não terem vivido aquilo que deveriam.
Mas Gabriel era diferente, o anjo sentia. Não sabia explicar a razão, mas o anjo enxergava em Gabriel uma sinceridade atípica, um desejo alucinado de viver, uma energia limpa. Deitou suas mãos novamente sobre a cabeça de Gabriel, coisa que não fazia, e depois partiu carregado por uma nuvem gordinha, mais lenta que as demais, mas também com um regaço mais aconchegante. Viu que Gabriel, tão logo ele saíra, se levantou com disposição, bebeu mais do vinho, e começou a dançar Cheek to Cheek, embalado pela cena antológica de Anthony Hopkins e Gary Sinise. Pela primeira vez, o anjo sorriu.
P.S.: No décimo quinto andar de um apartamento bem confortável em Perdizes, Gabriel Garcia Marquez da Silva desliga a televisão. Após deixar a taça vazia sobre a pia, segue até o quarto. Incomodado com a corrente de vento que entra pela janela, ele fecha o vidro, depois se deita na cama, enfiando-se entre as cobertas. No fundo, pensa ter ouvido alguém falar, uma voz suave vinda de longe, mas logo Cheek to Cheek o embala, o corpo se aquece e tudo vai deliciosamente se derretendo até acabar.


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5 comentários:

Brasilino Neto disse...

Agradabilíssima leitura. Suave! Parabéns.

sergio geia disse...

Grato, Brasilino Neto!

Anônimo disse...

oi amigos

Anônimo disse...

Olá Sergio Geia, belíssima crônica, com uma pitada de referência clássica.Te considero um ótimo escritor. Suas crônicas são leves e cheias de energia positiva. Você, mesmo nos meus últimos dias me faz sorrir. É bom pensar que partirei com minha missão cumprida na Terra, pois li suas histórias diariamente. Adeus

Anônimo disse...

eu achei muito ofensivo so pq sou corno