terça-feira, 20 de novembro de 2018

AO MESTRE, COM CARINHO >> Clara Braga

Outro dia ouvi uns alunos conversando sobre professores que foram marcantes para eles. Achei curioso e triste perceber que a maioria dos relatos não eram de professores que haviam deixado uma boa lembrança, a grande maioria falava de situações chatas que envolviam aquele professor e, por isso, não esqueciam a pessoa.

Um caso em particular me chamou mais a atenção, um aluno disse que um dia a professora perdeu a paciência com ele e avisou que não se importaria mais com ele já que ele não prestava nem para ser gari!

Não vou nem comentar essa frase, pela quantidade de preconceitos e desrespeitos que ela carrega, mas fiquei triste após refletir e concluir que realmente estamos constantemente nos deixando ser mais influenciados por momentos e sentimentos ruins, mesmo quando eles acontecem em menor quantidade do que os momentos bons!

Comecei a pensar nos meus professores e, adivinhem, o primeiro que me veio a mente foi um professor de matemática que me chamou até o quadro para resolver um problema e, quando eu não consegui, me pediu para sentar e fez comentários um tanto agressivos e constrangedores na frente da turma toda.

Mas eu não poderia deixar que todos os meus anos na escola estudando matemática fossem resumidos a uma experiência horrível com um professor que não tinha didática alguma. Me esforcei para lembrar dos outros professores de matemática que tive e, embora vários tenham sido legais, lembrei de um que na época realmente fez a diferença na minha vida.

Esse professor me deu aula no cursinho preparatório para o vestibular. O curso começava de manhã bem cedo e as amigas com quem eu andava chegavam sempre com os cabelos ainda um pouco molhados, com aquele ar de que tinham acabado de sair do banho. Vira e mexe o banho de manhã cedo virava assunto nas rodas de conversa, e todas afirmavam que não conseguiam começar o dia sem um bom banho logo cedo. Quando elas falavam parecia até um ritual para passar no vestibular, se você quer ir bem nas provas precisa acordar e já tomar logo um bom banho. Eu ouvia calada, até meio envergonhada, mas confesso que nunca trocaria uns minutos a mais de sono por um banho logo cedo. Sempre gostei de tomar banho para dormir, aquele momento para desligar, deixar o peso do dia ir embora e deitar relaxada, mas para acordar o banho soa mais como tortura.

Nunca contei isso para as minhas amigas, ficava com vergonha delas acharem que eu era a suja do grupo. Mas um dia, um belo dia pela manhã, uma aluna chegou atrasada na aula de matemática com os cabelos ainda molhados. O professor não perdeu tempo, foi logo fazendo piadas com a menina, dessas bem características de professor de cursinho. E foi nesse momento que ele aproveitou para fazer um desabafo: gente, não entendo essas pessoas que tomam banho de manhã cedo. Acho horrível, nunca na minha vida vou acordar mais cedo para sair do quentinho da minha cama para passar frio no chuveiro. Banho bom é banho para dormir, mas para acordar só café mesmo!

Esse professor não tem ideia do quão libertador foi para mim ouvir alguém dizer aquilo. Fiquei tão feliz que passei até a gostar um pouco mais da matéria dele. Se eu lembro o que ele estava ensinando? De jeito nenhum, não tenho a menor ideia, mas o que importa é que desde esse dia eu passei a ter coragem de falar para quem quisesse ouvir: EU ODEIO TOMAR BANHO DE MANHÃ CEDO!

Ufa, falei!





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