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SANTUÁRIO >> Clara Braga

Passei para os meus alunos um seminário para ser apresentado em grupo. Para apresentarem o tal seminário os grupos tinham que estudar duas músicas que constam na lista do PAS (programa de avaliação seriada) e explanar para a turma, entre várias coisas, o significado da letra e o contexto histórico no qual foi composta.

Para não ter problemas com alunos dizendo não terem entendido o que era para fazer e para evitar qualquer tipo de confusão separei algumas aulas apenas para orientação do trabalho, mas a verdade é que alunos sempre dão um jeito de criar uma confusão, parece até que quanto mais você se esforça para que nenhum problema aconteça, mais eles acontecem.

Entre as músicas da lista estava uma chamada Santuário da banda Jenipapo, uma banda local. A música é bem bonita, um rock pop que mistura instrumentos clássicos do rock com instrumentos indígenas. E o significado também é bem interessante, é um posicionamento crítico em relação à construção de um setor habitacional em uma região que era habitada por índios e chamada de Santuário dos Pajés. O assunto é super atual e eu estava ansiosa pela apresentação dessa música pois muitos outros tópicos poderiam ser tratador a partir da reflexão trazida pelo grupo.

Bom, mas como nem tudo são flores, quando o grupo começou a apresentar disseram: vamos começar nossa apresentação falando sobre a vida da cantora. Achei estranho já que a música é de uma banda sem integrantes mulheres, mas não quis interromper a apresentação pois imaginei que eles pudessem ter se confundido e escutado uma versão que a tal artista fez.

Eu não poderia estar mais enganada, os alunos seguiram com a explicação que ia ficando cada vez mais confusa. Tive certeza que algo estava errado no momento em que eles explicaram que Santuário é um local sagrado de devoção mas não falaram nada sobre a questão indígena.

Chegado o momento de ouvir a música o grupo colocou uma música gospel que fala basicamente sobre ser um santuário para alcançar a salvação. Levei um tempo para pensar em como avisar que eles tinham feito um trabalho todo errado, e nisso a música foi rolando. Olhava para os alunos e ninguém parecia achar aquilo estranho, então deixei rolar. O grupo logo tirou a música e então eu questionei a turma: quem aqui entrou no site do cespe e olhou a lista de obras que irão ser cobradas na avaliação? Vários levantaram a mão, mas quando eu questionei se nenhum deles tinha achado algo estranho na apresentação dos colegas alguns já foram logo assumindo que na verdade nunca tinham olhado nem o que são as matrizes do PAS.

Fiquei na dúvida se era melhor rir ou chorar, eu mesma tinha colocado no quadro dias antes todas as músicas e artistas que poderiam ser estudados. Fiz isso a contra gosto, pois me questiono muito sobre o educador que dá tudo de mão beijada para o aluno e não os incentiva a desenvolverem suas responsabilidades e autonomia. Mas o pior disso tudo é que o grupo comete um erro grave desses mas eu é que ainda tenho que tomar cuidado, pois do jeito que as coisas estão eu ainda posso acabar sendo denunciada por doutrinação religiosa sem nunca ter nem ouvido falar da tal artista. É, não está fácil para ninguém. 

Comentários

Conceicao Belo disse…
É...tempos difíceis, principalmente para educadores. E ter que lidar com esses alunos que não querem nada, é difícil. Boa sorte e paciência! Beijo
Luiz Silva disse…
Na sala pode não ter surtido o efeito esperado, mas, obrigado por trazer a tona essa maravilha crítica e poética que aqui no sul não é conhecida.

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