quarta-feira, 7 de novembro de 2018

NADA DE IMPORTANTE >> Carla Dias >>


Tornei-me dedicada escutadora de histórias alheias. Acredite, sempre presto atenção a elas, não importa quem as conte. Há sempre algo nessas histórias que me levam à reflexão.

Pode ser que eu seja um pouco apegada à reflexão, que elas tomem boa parte do meu tempo e se misturem, sem pudores, às divagações. Mas quem não tem seus apegos, certo? Eles até podem não ser lá muito saudáveis, mas são inevitáveis. Assim, sugiro fazermos as melhores escolhas possíveis ao nos apegarmos a quem ou ao que seja.

Sim, às vezes nos perdemos do direito à escolha. Quando nos damos conta: apego.

Sou apegada a certos livros, certas mágoas, certos prazeres, certas bebidas: café, sempre. A certas pessoas, certos lugares, certos sonhos. No caso dos sonhos, não me importo de quão maleáveis eles se tornam. Adoro como eles vão se encaixando na realidade, trazendo outras nuances, algumas que nem eu imaginei para eles.

Há certa ironia em como os sonhos nos mostram que sua realização vive na realidade. Que eles não precisam ser sonhados, apenas localizados na nossa bagunçada vida cotidiana.

No caso das pessoas, há sempre o risco de a saudade tomar conta. Para ser apegada às pessoas, sem que isso faça mais mal do que bem, repito a mim mesma, até alcançar a consciência a respeito, que aquela pessoa não me pertence, que ela não nasceu para atender aos meus desejos e/ou necessidades. Então, compreendendo que posso esperar do outro somente o que ele quer e pode me oferecer, acabo aproveitando o melhor desse apego.

É um apego desapegado de posse, porque também eu não desejo ser propriedade. Meu desejo é de ser pessoa que caiba no pertencimento a um afeto legítimo.

Então, acontece de nos apegarmos a um período das nossas vidas. Acontece... pode até não ser com todos, mas certamente com muitos. Aquele tempo em que tudo parecia perfeito, apesar de não ter sido. Quando tudo parecia estar no lugar certo, apesar de nós nunca estarmos. O olhar ao ontem que reverbera nessa cadência de nostalgia por um tempo fácil, leve, rico, adjetivado com todas as palavras mais bonitas do dicionário.

A verdade é que adoramos enganar a nós mesmos.

Acontece, eu sei... já permiti acontecer muitas vezes, mas tenho aprendido a evitar, sempre que me dou conta, antes da aceitação dessa enganação toda.

Por que tudo isso importaria a você?

Não importa.

É que tenho esse hábito de refletir, às vezes, em voz alta, outras vezes, escrevendo. Penso que, assim como as histórias de outras pessoas me levam a refletir profundamente sobre as minhas próprias, e as daqueles por quem cultivo certo apreço, talvez meu apego lhe provoque algum pensamento pronto para ser despertado ou que não merece esquecimento, mas sim uma nova versão.

Tem dias em que é assim...

Acordamos meio distribuidores de mensagens que ninguém pediu, e, mesmo não tão sábios quanto ontem, oferecemos o melhor possível. E, acreditem, há dias em que o melhor possível do outro é exatamente do que precisamos para encarar o que nos parece impossível.

carladias.com





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