domingo, 1 de abril de 2012

MENTE E CORAÇÃO (BRIGA DE CASAL)
>> Eduardo Loureiro Jr.

— Parabéns pelo seu dia!

— Meu dia?!

— Ora, logo você que é tão inteligente, minha Mente... De onde você pensa que vem a palavra "mentira"?

— Ih, lá vem você...

— Não se pode mais ser gentil?

— Pra que tanta mágoa, meu amor, meu Coração?

— Tá vendo? Peguei você na mentira de novo. Você não me ama e fica me chamando de seu amor.

— Só porque eu não lhe amo do seu jeito não quer dizer que eu não lhe ame.

— Você sabe muito bem que eu sou a casa do amor. Que outra forma há de amar senão a minha?

— A gente ama com o corpo todo, e com a alma.

— Ah, não me venha com enrolação. Chega de masturbação mental!

— "O amor não se enraivece", já dizia São Paulo.

— Você adora ficar decorando livros para usar frases soltas a seu favor, né?

— Você está ficando vermelho de raiva.

— Vermelho, sim, por que não? Vermelho é a minha cor. A cor das rosas. A cor da vida. A cor do amor. Melhor que esse seu cinza sem graça.

— Eu não sou só cérebro, meu Coração.

— Você sempre se achando, vivendo nesse seu mundo intelectual de pura ideia, sem pisar no chão, sem chegar junto. Só fica na sua, e me deixa só.

— Tô com o pensamento ligado em você o tempo todo, meu Coração.

— Besteira de abstração! Como é que eu vou saber se isso é verdade? União pra valer é com veia e artéria. Não me vem com papo mole.

— Nem tudo é matéria, há também energia...

— Você é irritante! Ir-ri-tan-te! Se me amasse de verdade, você faria pelo menos uma ponte de safena de você até mim.

— Faço versos, poemas, melodias, canções.

— Palavra não enche barriga nem aorta. Quero é sangue nas veias!

— Você está quase me convencendo de que é melhor nos separarmos.

— Lá vai você fugir na primeira oportunidade, "tomar um ar", como você diz. Quero ver aguentar o rojão, bater vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana.

— Eu não bato, meu Coração, eu inspiro.

— E eu piro, enlouqueço...

— Incendeia?

— Para com essa mania de me completar as frases. Eu não ia dizer isso.

— É porque pira tem a ver com fogo, então falei em incendiar.

— Tá vendo? Tá vendo?! Eu aqui tentando salvar nosso casamento e você com seus joguinhos cerebrais.

— Salvando? Você está mais para Nero que para bombeiro.

— Já avisei. Para com essas analogias idiotas!

— Senão o quê?

— Senão o que o quê?

— Senão você vai fazer o quê?

— Eu já estou fazendo!

— O que você está fazendo é discutir.

— Melhor que não fazer nada.

— Eu estou conversando.

— Você conversa demais. Quero ver é ação.

— Você sabe como é mentir em inglês?

— Tem horas que dá vontade de bater em você.

— To lie.

— Grande novidade! Só porque eu não fiz nem mestrado nem doutorado tá pensando que eu sou burro?

— E você lembra o outro sentido do verbo?

— Você não tem jeito, tá querendo me enrolar e me distrair de novo.

— Lembra?

— Deitar. To lie também quer dizer deitar.

— Vamos?

— Pra onde?

— Deitar.

— Ah...

— E então, meu Coração?

— Demorou!





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2 comentários:

Anônimo disse...

Oi Eduardo,

Interessante a perspectiva que vc coloca do mentir/deitar... Ontem, a propósito do dia da mentira, Xico Sá escreveu em sua crônica:
"Você já mentiu para o seu amor hoje?

Mentir profissionalmente não tem graça. Ainda mais se você for publicitário, marqueteiro, jornalista, político, advogado, padre, cineasta, ator, pastor, policial…

Mentir profissionalmente é meio de vida. Só há mentira no amor ou no quase-amor, enfim, nos relacionamentos.

E das mentiras desse gênero, a minha preferida é a do orgasmo fingido.

Porque o fingimento do gozo também pode ser uma prova de amor, como o amor avulso das profissas.

Antes o fingimento, amigo, do que a ausência da dramaturgia amorosa de fato."

Acho que entre amores e mentiras, você e ele se conectaram com o possível dos relacionamentos....

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Anônimo, bom saber que fiz parceria inconsciente de "amores e mentiras" com o Xico Sá. :) Grato.