domingo, 17 de fevereiro de 2008

NÃO NECESSARIAMENTE NESSA ORDEM >> Eduardo Loureiro Jr.

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Imagine um homem que espanca outra ser humano até a morte. Um homem que dá um pontapé após o outro, sem se cansar, e só pára quando o corpo inerte não lhe responde mais em gemidos ou espasmos.

Imagine um homem que assiste calado ao seu próprio julgamento. Um homem que não abre a boca para se defender, e que recebe impassível a sentença de muitas e muitas décadas de prisão.

Imagine um homem que é agredido continuamente por seus colegas de cela e não apresenta qualquer reação. Um homem a quem não é dado o direito de morrer, e que é conservado vivo para apanhar um pouco mais no dia seguinte.

Imagine um homem que sobrevive em silêncio a todos os seus companheiros originais de cela. Um homem que seus companheiros atuais reconhecem apenas como alguém retraído, calado e de rosto desfigurado.

Imagine um homem atônito ao ser liberado por bom comportamento durante uma reestruturação do sistema penal. Um homem que recebe como prêmio a reconstituição de seu rosto por um cirurgião plástico filantrópico.

Imagine um homem cabisbaixo vivendo nas ruas. Um homem que sobrevive catando latinhas metálicas e vendendo-as para uma usina de reciclagem.

Imagine um homem distraído que é atingido por um objeto. Um homem que ouve o riso de outro ser humano atirando latinhas de cerveja e se divertindo com isso.

Imagine um homem indiferente que leva um murro nas costas. Um homem que ouve, do outro ser humano: "Latinhas não lhe atingem? Vamos ver se você reage com porrada."

Imagine um homem indefeso contorcendo-se e caindo no chão. Um homem que não sabe lutar, que imagina o que faria se tivesse aprendido a lutar, e que está prestes a ser morto por outro ser humano.

Imagine um homem pacífico que não consegue sentir raiva de outro ser humano. Um homem que se entrega ao seu agressor até tornar-se um com ele e toda a sua história de latinhas, murros e pontapés.

Imagine um homem unificado a outro ser humano. Um homem que, não sendo ele mesmo, é outro, e, sendo outro, sente e age como o outro.

Imagine um homem que sabe onde o outro vai atacar. Um homem que escapa de todos os golpes e passa ele mesmo — agindo como o outro — a golpear aquele que antes o golpeava.

Imagine um homem que espanca outro ser humano até a morte. Um homem que dá um pontapé após o outro, sem se cansar, e só pára quando o corpo inerte não lhe responde mais em gemidos ou espasmos.

Imagine um homem que assiste calado ao seu próprio julgamento. Um homem que não abre a boca para se defender e que recebe impassível a sentença de muitas e muitas décadas de prisão.

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Aperte o "play" e releia a crônica com a música de Wim Mertens ("4 Mains") .

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7 comentários:

Anônimo disse...

Imaginei primeiro q esse "homem" é o homem brasileiro. Calado,submisso,injustiçado, indefeso, pacífico. Reli o texto e percebi dois tipos de homem: o que espanca e o que é espancado. O poderoso e oprimido. Retrato da nossa sociedade...

Marisa Nascimento disse...

Adorei! Muito Kafkaniano isso tudo! Queria mais...risos. Parabéns pela riqueza do texto!

Carla Dias disse...

Sem a música, pensei em como estamos expostos à violência... Ah, mas não posso chamá-la “gratuita”, porque acho o cúmulo pensar na violência como algo que pode ter preço, ou justificativa, já que a vejo como uma cadeia de intolerâncias e um mar de ganância.
Ouvindo a música, deu quase pra sentir a falta de ar do espancado; o desespero do aprisionado e a melancolia do submisso. As urgências e as submissões estão lá. E aqui, também.
Aliás, adorei a música, e essa jornada das palavras e do som, lembrou-me um filme muito peculiar: Fuga.

criscalina disse...

Vixe, Wim Mertens renasce. Vou redescobri-lo por esses dias. Tem coisas que a gente precisa sentir.
Beijo,

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Oi, meninas e anônimo!

Resolvi responder aqui: porque não tenho o e-mail de todos e também para deixar registrado esse papinho sobre criação.

Interessante a Carla "quase sentir" porque o texto me surgiu como um sentimento associado a uma imagem muito difusa de sonho: um espancamento. Mas o sentimento não era de pena ou revolta, e sim de compreensão, porque o agredido é o próprio agressor.

Eu não sabia em que o texto ia dar, e a música do Wim Mertens, que estou redescobrindo, me ajudou a dar esse tom ao mesmo tempo forte e fluido. Eu queria que vocês ouvissem a música, pois fazia parte do próprio texto. Aí encontrei esse vídeo no Youtube, cujo caráter abstrato, geométrico, e ao mesmo tempo dinâmico, dá bem uma idéia do tipo de reflexão que eu queria puxar com o texto.

Eu tinha pensado em colocar como título "A roda do destino" ou "A roda da vida", mas depois decidi transformar o título numa instrução ao leitor, já que os próprios parágrafos sempre começavam com "imagine...", esse apelo para que o leitor construísse a imagem de modo que fosse mais fácil "sentir".

Beijos,

joao grando disse...

A violência age sempre, está sempre presente, às vezes escondida, e precisa de algum motivo para libertar-se. Nesse sentido, lembrou-me o filme de Croenemberg A Hystory of Violence.

A repetição da palavra Imagine remete à música de John Lennon. Pode também ser um pequeno hino pela paz este que fizeste, mas mais cru e com a tática contrária: na música, fecha-se os olhos para sonhar, aqui, abre-se os olhos para perceber e ver a brutalidade disso tudo, desse círculo - e a relatividade dos personagens que podem protagonizá-lo.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Olá, João! Vou procurar o filme do Cronenberg.

Interessante sua associação do meu "imagine" com o "imagine" do Lennon. Você captou bem a relatividade do círculo. :)