domingo, 24 de fevereiro de 2008

SEM COBRANÇAS >> Eduardo Loureiro Jr.

Faça uma lista das coisas que as outras pessoas deveriam ter feito e não fizeram. Para começar, basta lembrar do dia de ontem: o que foi que seu marido, esposa, filhos, pai, mãe, amigos, empregados... deixaram de fazer, tornando sua vida mais desconfortável do que você desejaria. Anote num pedaço de papel ou apenas liste mentalmente.

Cynthia Hart Designer/Corbis

Pronto?

Se você conseguiu listar pelo menos uma coisa que alguém deveria ter feito, você está cobrando. Não importa se você não falou nada para a pessoa, você está cobrando. Não importa se você jamais daria conta de pensar nisso caso um cronista não lhe houvesse provocado; você está cobrando. A cobrança verbal é apenas uma exteriorização de uma cobrança que já existia internamente.

Talvez você pense que tem que cobrar mesmo, afinal o outro prometeu, ou se comprometeu, ou falou que ia fazer, ou, dada a função que está desempenhando (pai, mãe, filho, amigo, atendente de loja...), é responsabilidade dele fazê-lo. Sim, você pensa que as pessoas têm que fazer coisas em determinadas situações, e cobrá-las é até um bem que lhes presta porque está lembrando a elas seu real papel no mundo. Certo?

Certíssimo. Eu mesmo devo cobrar do leitor certas coisas que são inerentes à função de leitor, e que não ficaria bem para um leitor não fazê-las. A primeira delas é que o leitor leia o texto até o final; é o mínimo que se espera de um leitor. Depois, que o leitor procure no dicionário o significado de quaisquer palavras que não conheça ou sobre as quais tenha dúvida; sei que é uma tarefa desgastante, mas absolutamente necessária. Em seguida, é preciso que o leitor releia o texto várias vezes, já que a primeira leitura é apenas de reconhecimento, e as leituras seguintes é que realmente abrirão as portas do sentido do que está escrito; não fica bem para um leitor que quer se dar ao respeito que leia um texto uma única vez. Também é pedido do leitor que monte mentalmente o mapa ou a estrutura do texto; que o leitor saiba como o autor organizou as idéias é condição sine qua non para compreendê-las (sim, o leitor deve também procurar o significado de expressões em outras línguas em dicionários especializados). É fundamental ainda que o leitor nunca tire suas próprias e tresloucadas conclusões sobre aquilo que lê; o autor tinha uma mensagem, e leitor que se preza capta essa mensagem em toda a sua objetividade. E, acima de tudo, é dever de um leitor que, além da estrutura, perceba a alma do texto, as figuras de linguagem que o autor utiliza para expressar suas idéias. Por exemplo, o leitor que ainda não percebeu que este parágrafo é de caráter eminentemente irônico está correndo o risco de achar que este pobre autor realmente defende aquilo que está textualmente afirmando.

Agora o leitor faça-me o favor de pegar sua lista mental ou escrita de cobranças e rasgá-la ou apagá-la de seu juízo, principalmente se a lista incluir alguma cobrança a este cronista. Eu mesmo tratarei de desconsiderar a minha lista, dando ao leitor a liberdade de fazer o que bem quiser com o que lê de mim: sem obrigações, sem cobranças.

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9 comentários:

Carla Dias disse...

Parece ser bacana esse universo sem obrigações e cobranças. Gostei do toque de ironia... Tem lá no universo também?

:)

Parece que realmente podemos nos livrar das cobranças, sejam as das listas, as verbalizadas e até mesmo as somente idealizadas. Mas acho que precisamos de um mapa... Tem aí?

Bjs!

Anônimo disse...

Edo,
Primeiro lugar antes de fazer minha lista de cobrança eu lembrei daquilo que prometi fazer e não fiz. Lembrei que poderia ser cobrada. Depois fiquei aliviada quando compreendi que suas cobranças eram inonia pq se eu não tivesse a liberdade de tirar minhas conclusões tresloucadas eu jamais comentaria seus textos, malucos, graciosos, inteligentes e excentricos.

Marisa Nascimento disse...

Eduardo, você escreve de uma forma leve. Eu termino de ler suas crônicas já querendo "cobrar" você para escrever mais.

Claudia Letti disse...

Eu acho que você detesta controle, o que vem de encontro a minha cronica de hoje. :)
beijo grande!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Minhas leitoras e amigas,

Carla: Mapa eu não tenho, mas arrisco um palpite: começar a se cobrar menos: se a gente não se cobra, perde a vontade de cobrar dos outros. :)

Dilma: Seus comentários tresloucados sanam a minha mente racional. :)

Marisa: Você é a "cobradora" que todo devedor gostaria de ter. :) Gosto demais dos seus comentários.

Claudia: Ah, minha amiga, eu fui aquele que controla. Fui. :)

Mais alguma leitora, ou leitor, se habilita?

Beijos,

Anônimo disse...

É por isso que cada vez mais eu e amigos achamos a leitura algo chato: os cronistas nos pedem muito em troca de alguns simples e puros minutos com eles...

JP.

joao grando disse...

Será que as cobranças irônicas que escreveste também existem internamente, então podem valer como cobrança?

Não vale não, já respondo eu mesmo, porque tu as rasgaste no último parágrafo.

E, mais que isso, mostras-te, antes mesmo, bons motivos para rasgá-las.

E a ironia é a ironia, afinal, e afirma o seu contrário. Então ler o texto sem preocupações metódicas nos faz pegar em cheio a sua essência.

(Embora eu confesse utilizar alguns procedimentos que falaste.)

Um abraço.
P.s.: ou eu não peguei a ironia, ou o amigo do comentário de cima não pegou o texto.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

João, prefiro acreditar que o leitor JP usou de uma ironia que nós não alcançamos. :)

Anônimo disse...

Taí, João! Eu também prefiro! :-) tsc,tsc,tsc... Jesus tem cada morador, viu?