quinta-feira, 16 de novembro de 2017

ANTI-PAPAI NOEL>>Analu Faria

Adoro esta época do ano: é quando eu mais tenho trabalho. Eu não tenho nome, mas a partir do momento em que as luzes de Natal começam a tomar conta das ruas eles me chamam de Anti-Papai Noel. Eu também não tenho gênero, poderiam me chamar de Anti-Mamãe Noel, mas já que a  civilização judaico-cristã ocidental não dá muita bola para a Mamãe Noel, faz mais sentido eu ser a antítese do personagem principal, dada a minha importância.

Sou eu quem cutuca as entranhas até dos familiares mais despolitizados e faz com que eles se ponham a brigar, na ceia de Natal, com a tia, o avô, o primo, a neta sobre as próximas eleições. E sobre as eleições passadas também. E sobre o fato de ninguém-se-lembrar-em-quem-votou-para-vereador. (Note: o tal parente cutucado também não se lembra). Sou eu quem faz os pais se esquecerem das crianças se estapeando na cozinha, sou eu também quem enfeitiça os que estão na festa para que não percebam a avó ali no cantinho da sala, triste e sozinha. Sou eu quem cochicha no ouvido do tio que aquele sobrinho ali  "é gay que eu sei". Aliás, sou eu quem inventou o "é pavê ou pacumê" e as uvas-passas no arroz (sim, eu sou um gênio!). 

Não, eu não sou Aquele responsável pela guerra na Síria, nem pelo fato de o cerrado ter encolhido mais que a Amazônia este ano. Isso é coisa lá da Diretoria. Ou de vocês mesmos. Eu sou mais um fanfarrão. Aposto que até você ri do que eu faço com os finais de ano. Em outras épocas, eu só aumento a taxa de obesidade (fui eu quem criou o cronut, o bolo de churros e batata frita coberta com queijo cheddar), incentivo a fofoca entre vizinhos, escondo aquele relatório que você nunca achou, aumento o preço da cesta básica. 

Este ano, porém, embora eu já esteja todo serelepe, um filhote de cachorro me deixou encafifado. Tremia debaixo de uma marquise, com um medo danado da chuva. Eu, que em outros tempos tomaria isso como inspiração, fiquei condoído e dei abrigo ao bicho. Devo estar convivendo demais com os humanos: prometi que ia só dar água e comida e que voltaria mais tarde para ver como estava, mas não, resolvi brincar, dar carinho, abraçar, levei para casa. Lá se foi o dia. Deixei de fazer uma velhinha tropeçar na rua, de atiçar um moleque para plagiar o trabalho de um colega, de incentivar a pedreirada a passar a famosa "ôôôô lá em casa" para as 32 mulheres que passariam pela construção hoje. Preciso fazer um pedido à Diretoria, para que tire do caminho da gente essas coisas que minam a força de vocês, humanos. Um cachorro, um abraço, uma obra de arte, uma amoreira... isso tudo atrapalha muito.


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2 comentários:

Zoraya Cesar disse...

que texto excepcional, Analu! adorei. li duas vezes!

Analu Faria disse...

Obrigada, Zoraya! Que bom que gostou!