Pular para o conteúdo principal

ANTI-PAPAI NOEL>>Analu Faria

Adoro esta época do ano: é quando eu mais tenho trabalho. Eu não tenho nome, mas a partir do momento em que as luzes de Natal começam a tomar conta das ruas eles me chamam de Anti-Papai Noel. Eu também não tenho gênero, poderiam me chamar de Anti-Mamãe Noel, mas já que a  civilização judaico-cristã ocidental não dá muita bola para a Mamãe Noel, faz mais sentido eu ser a antítese do personagem principal, dada a minha importância.

Sou eu quem cutuca as entranhas até dos familiares mais despolitizados e faz com que eles se ponham a brigar, na ceia de Natal, com a tia, o avô, o primo, a neta sobre as próximas eleições. E sobre as eleições passadas também. E sobre o fato de ninguém-se-lembrar-em-quem-votou-para-vereador. (Note: o tal parente cutucado também não se lembra). Sou eu quem faz os pais se esquecerem das crianças se estapeando na cozinha, sou eu também quem enfeitiça os que estão na festa para que não percebam a avó ali no cantinho da sala, triste e sozinha. Sou eu quem cochicha no ouvido do tio que aquele sobrinho ali  "é gay que eu sei". Aliás, sou eu quem inventou o "é pavê ou pacumê" e as uvas-passas no arroz (sim, eu sou um gênio!). 

Não, eu não sou Aquele responsável pela guerra na Síria, nem pelo fato de o cerrado ter encolhido mais que a Amazônia este ano. Isso é coisa lá da Diretoria. Ou de vocês mesmos. Eu sou mais um fanfarrão. Aposto que até você ri do que eu faço com os finais de ano. Em outras épocas, eu só aumento a taxa de obesidade (fui eu quem criou o cronut, o bolo de churros e batata frita coberta com queijo cheddar), incentivo a fofoca entre vizinhos, escondo aquele relatório que você nunca achou, aumento o preço da cesta básica. 

Este ano, porém, embora eu já esteja todo serelepe, um filhote de cachorro me deixou encafifado. Tremia debaixo de uma marquise, com um medo danado da chuva. Eu, que em outros tempos tomaria isso como inspiração, fiquei condoído e dei abrigo ao bicho. Devo estar convivendo demais com os humanos: prometi que ia só dar água e comida e que voltaria mais tarde para ver como estava, mas não, resolvi brincar, dar carinho, abraçar, levei para casa. Lá se foi o dia. Deixei de fazer uma velhinha tropeçar na rua, de atiçar um moleque para plagiar o trabalho de um colega, de incentivar a pedreirada a passar a famosa "ôôôô lá em casa" para as 32 mulheres que passariam pela construção hoje. Preciso fazer um pedido à Diretoria, para que tire do caminho da gente essas coisas que minam a força de vocês, humanos. Um cachorro, um abraço, uma obra de arte, uma amoreira... isso tudo atrapalha muito.

Comentários

Zoraya Cesar disse…
que texto excepcional, Analu! adorei. li duas vezes!
Analu Faria disse…
Obrigada, Zoraya! Que bom que gostou!

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …