quarta-feira, 15 de novembro de 2017

CANTANDO NA CHUVA | DA SALA DE CASA AO PALCO DO TEATRO >> Carla Dias >>


Lembro-me, vagamente, porque minha memória adora reinvenções, de quando ficava em frente à tevê, esperando a hora. Então, a hora chegava, e enquanto as primeiras cenas aconteciam, eu arrastava os móveis, de jeito a ter o espaço necessário para meu faz de conta.

Não era a história que me fisgava, porque era menina de tudo, tinha entendimento zero sobre o que falavam. Minha diversão era acreditar que, lá na sala de casa, aconteceria igual ao que acontecia no filme, se eu me esmerasse em repetir tudo, direitinho. Por isso, se eu colasse no personagem, dançaria e cantaria bonito feito ele.

Essa é uma das coisas interessantes sobre a arte. Ela é muito da liberdade, e ousa nos permitir nos sentirmos personagens principais em histórias que não nos pertencem. Propicia devaneios sobre como seria se fizéssemos aquilo que, ao observarmos o outro executar, nos enche de prazer. A arte que nos inspira sondar nossa própria capacidade de ir além.

Cantando na Chuva é um filme americano estrelado por Gene Kelly, Donald O’Connor, Debbie Reynolds e Jean Hagen. Foi lançado em 1952, e apesar de seu sucesso contido na época, tornou-se referência para o cinema musical. Ambientado nos anos 20, a trama mostra, de forma bem-humorada, como a chegada do cinema falado afetou o universo dos empresários da indústria cinematográfica e suas estrelas.

Neste ano, Cantando na Chuva ganhou uma adaptação brasileira, com Jarbas Homem de Mello e Claudia Raia. Em cartaz até 17 de dezembro no Teatro Santander, a casa sempre lotada prova que a história de Dom Lockwood, Kathy Selden, Cosmo Brown e Lina Lamont se mostra atemporal, até mesmo com as significativas mudanças tecnológicas. Afinal, desde o cinema falado, foram muitas as mudanças. Talvez não tão significativas, mas definitivamente marcantes.

Foto © Divulgação

Domingo passado, eu e Lucy, minha companheira de musicais, fomos assistir ao espetáculo. Assim como muitos dos presentes, eu estava ansiosa por aquela cena, que só de saber que ela aconteceria ali, naquele palco, fez com que a música ficasse tocando na minha cabeça. Apreciadora que sou do filme, esperava algo agradável. Fã que sou do Jarbas, sabia que haveria muito o que apreciar, principalmente o sapateado. Ainda assim, fui surpreendida, e várias vezes, com a fluidez dos diálogos, o humor bem pontuado, as interpretações e a música bem executada, tanto pelos músicos da banda, quanto pelos atores.

E a dança, claro.

Dom Lockwood (Jarbas Homem de Mello) e Lina Lamont (Claudia Raia) são o casal sensação das telas de cinema e das revistas sobre celebridades. Apesar de o estúdio vender a ideia de que eles são um casal, Lockwood não suporta Lamont. Com o projeto do primeiro filme falado da dupla, surge um grande problema: a voz de Lina Lamont. Lockwood conheceu a atriz Kathy Selden (Bruna Guerin) e se apaixonou de imediato por ela. É Selden quem atende à ideia de Cosmo Brown (Reiner Tenente) e se torna a voz de Lamont.

Foto © Divulgação

Fascinou-me assim, com toda grandiosidade do feito, as trocas de cenário, assim como a iluminação. A sutileza da interferência das mudanças de cenário e de iluminação são tão bem coreografadas, com sutileza, apesar das mudanças grandiosas. Viajávamos das ruas para o estúdio, para a sala de cinema, para o camarim em uma transição natural, o que só colaborava com a continuidade das cenas e não distraia nossa atenção do todo.

O cenário é apenas uma das belezas de Cantando na Chuva. O elenco entrega a história com fluidez. Há belíssimos números de dança. Os diálogos contam com um humor refinado, quase sempre conduzido por Brown, por um Tenente muito divertido. Aliás, o humor descamba para o surreal – com todo requinte, devo dizer – por meio da personagem de Lamont. Claudia Raia deu ao personagem o tom certo, divertindo o público com a transição de bela atriz do cinema mudo para uma pessoa nada agradável, com uma voz irritante. Guerin... Que lindeza de voz.

Os números de sapateado me deixaram muito feliz. Claro que o ritmo me pega de jeito, que ele ocupa um espaço importante na minha apreciação e na minha vida. Jarbas me encantou com os números que protagonizou. A cada espetáculo, eu o admiro ainda mais, pelo talento dele ao dançar, atuar e cantar. Porém, a cena da chuva, aquela que Gene Kelly eternizou, que me fez subir no sofá da sala da minha infância, como se me enroscasse naquele poste, com meu guarda-chuva, bom, a versão que assisti naquele palco, domingo passado, é a que vou carregar comigo sempre que tiver de explicar o que é deslumbramento. O aspecto técnico é impressionante. Chove no palco... Chove. Mas a forma como Jarbas entrega aquela cena, foi ela que me encheu o espírito de contentamento.

Foto © Divulgação

Claro que a nostalgia me pegou de jeito. De certa forma, a menina da sala, que fazia de conta que era parte do que acontecia na tela de tevê, assistiu ao espetáculo de maneira diferente. No final das contas, personagens se tornaram importantes para mim. Não sou dançarina, não sou atriz, não sou cantora, mas aprendi a apreciar quem o é. Aprendi apreciar a construção daqueles que dançam, atuam e cantam, a motivação deles. Aprendi a criar personagens, e eles sabem fazer muitas coisas que nunca farei, mas que vão sempre desafiar meus sentidos. Aquela imaginação de criança, aquela inspiração na infância das minhas percepções, ajudaram para que eu me encontrasse nessa terra de desafios, espantos e deslumbramentos que é a arte. E daqui em diante, toda vez que alguém questionar de que nos serve a arte, eu me lembrarei daquela cena de Jarbas interpretando Dom, debaixo de chuva, em um palco de teatro de São Paulo.

CANTANDO NA CHUVA
Em cartaz até 17 de dezembro.

Teatro Santander
Av. Pres. Juscelino Kubitschek, 2041
Itaim Bibi, São Paulo - SP

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carladias.com



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