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A SOMBRA >>Zoraya Cesar

Tudo começou poucos dias antes do casamento. Durante a madrugada, violentas batidas na porta acordaram Cristiano, que, ao espiar pelo olho mágico, nada viu que pudesse provocar tamanho barulho nem fazer a porta tremer de maneira tão forte. Intrigado, pediu para o porteiro subir e averiguar o que estava acontecendo, mas, estranhamente, o empregado nada viu nem ouviu. 

Cristiano voltou para a cama convencido de que se tratava de alguma brincadeira dos amigos, uma espécie de despedida de solteiro, já que ele não quisera fazer nada. Mal pegou no sono, e foi novamente acordado, dessa vez, por gritos altos e estranhos, mais pareciam uivos. Ele nem se deu ao trabalho de chamar o zelador; escancarou a porta, pronto para dar uma lição no engraçadinho, pronto para qualquer coisa, menos para aquilo: à soleira, estava a enorme sombra de um homem, que, ao abrir a boca vazia de dentes, exalou um odor tão fétido, que Cristiano quase desmaiou antes mesmo de fechar a porta com um estrondo. 

Mais uma vez, nem porteiro nem vizinhos viram ou ouviram qualquer coisa, e as câmeras de segurança nada registraram. Trancado em casa, acendeu todas as luzes, aterrorizado. Estaria ficando louco? Logo agora que finalmente conseguira se dar bem na vida?

Se a noite foi um tormento, o dia não foi melhor. Ele via a sombra segui-lo por todo lado, e seu cheiro pútrido causava-lhe náuseas insuportáveis. O pior era fingir convincentemente que seu comportamento estranho era excitação pela proximidade do casamento, principalmente para enganar o patrão, nada menos que o próprio pai da noiva. 

Ao chegar em casa, Cristiano tomou imediatamente um desses calmantes tarja preta. Todas as sombras do mundo podiam derrubar a porta, uivar como lobos enfurecidos, que ele não ouviria, tão profundo o sono causado pelo remédio.

Antes não dormisse. Os pesadelos começaram leves: num, a sombra o sufocava; noutro, arrancava seu coração pela boca; depois, amarrava Cristiano de cabeça para baixo e assava-o... e daí para pior. Ele urrava em seu sono, de puro terror, mas não conseguia acordar, por causa do sonífero. 

Quando o efeito passou, Cristiano despertou, arrasado. Sua cama estava imunda de suor e outros fluidos corporais, e ele jamais se sentiu tão apavorado. Não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo, mas sabia que tinha de casar com Laura no dia seguinte ou estaria arruinado. Estava com quase 30 anos e não ficaria jovem para sempre. O que é fatal para um homem cujo principal talento consistia em seduzir, adular, trapacear. Foi assim que subiu na empresa e conquistou patrão e filha. Foi assim que convenceu Viviane, tão mais velha e esperta que ele, a sustentá-lo vários anos, só para largá-la cheia de dívidas na primeira oportunidade.  Afinal – esse era o seu lema -, ele não seria jovem para sempre.

O dia anterior ao casamento, Cristiano não saiu de casa, e quando a noite chegou, trazendo o medo junto com ela, Cristiano acendeu todas a luzes, ligou a televisão e o rádio ao mesmo tempo e tomou litros de café, álcool e energético para ficar acordado e evitar os horrendos pesadelos de novo. No entanto, à medida que o tempo passava, sem pesadelos, aparições, sombras, odores putrefatos, nada, Cristiano foi se acalmando. Depois de casar com a chata da Laura, pensou, eu procuro um psiquiatra.

Sem dormir, sem comer e cheio de estimulante nas veias, Cristiano amanheceu arrasado, mas feliz. Convencera-se de que tudo não passara de  fruto de sua imaginação, exaltada com o desenlace promissor de todos os seus planos e artimanhas. 

Foi durante o banho que ele reparou em sua pele, toda marcada por pequenas feridas vermelhas, pontinhos que exsudavam um líquido claro e um tanto viscoso. Deve ser reação àquela química toda que tomei ontem, pensou, vou marcar um dermatologista depois do casamento. E seguiu para a cerimônia civil. 

Os convidados não esconderam o espanto, o pai de Laura não deixou que ele se aproximasse e a noiva começou a chorar, dando gritos histéricos. Todos se afastaram, enojados. Sem nada entender, Cristiano olhou em volta e gritou, ao ver sua imagem num espelho do salão. As pequenas feridas vermelhas tinham se espalhado pelas mãos e rosto, não mais tão pequenas, e, agora abertas, deixavam escorrer livremente o líquido - já mais escuro e fedido -, dando a Cristiano uma aparência de morto em estado de putrefação. 

Casamento desfeito, sem amigos, sem emprego, sem nada, nem mesmo sua aparência sedutora, que tanto lhe valera todos aqueles anos. Nada mais lhe restara, nem mesmo Viviane, que sumira sem deixar vestígios.

Enquanto o mundo de Cristiano ruía, uma mulher, vestida de roxo e amargura, escondida num galpão, afastada de tudo e de todos, costurava um boneco de pano, cujo corpo estava todo perfurado por alfinetes e em cuja cabeça estava colada uma foto de Cristiano. De vez em quando, ela sussurrava estranhas palavras e passava o boneco pela chama de uma vela.

Viviane não era mulher de ser passada para trás e deixar por isso mesmo.

Comentários

Érica disse…
Dessa vez você esqueceu de mandar o link para a crônica, mas eu li mesmo assim e achei siniiiiiiiiiiiiiiiiiiiiistraaaaaaaaa essa história.... Que horrível! Você ficou inspirada na história da menina do exorcista, fala a verdade..rs
Cristina disse…
Zoraya, Zoraya, fiquei tensa rsrsrsrsrs Muito bom!Não se deve fazer isso com as mulheres hehehe
Bjos
Maria Elena disse…
Zo...foi o discurso da Dilma q inspirou essa estoria aterrorizante?
So espero nao ter pesadelos!!!
Bjs
Mary
Alexandre Durão disse…
Outro ótimo texto, Zoraya. Gosto dessa sua opção temática: relações homem/mulher permeadas por paixão e uma forte dose de elementos mágicos. Acho que daí sairia um romance. Eu estaria na noite de autógrafos. Beijos.
Anônimo disse…
Quero fazer o mesmo com a Dilma, Lula, Cabral e o "Dudu Praga". Além do link, você também esqueceu de dizer onde arrumo um boneco desses, hahahaha...
Cecilia Radetic disse…
Caramba, ainda bem que minha internet caiu ontem à noite, e dormi sem pesadelos! Zo, concordo com o Durão - já vá se preparando para escrever seu livro. Estarei com ele disputando o primeiro lugar na fila. bjs
Mauro disse…
Parece uma ex-sogra minha... brrrr...
aretuza disse…
affe, quase morri de susto!!! vingança de mulher não é fácil!!!

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