quarta-feira, 30 de novembro de 2011

JÁ FOI, NÃO VIU? >> Carla Dias >>

Imaginou-se em tantos lugares, quando imaginar ainda era trampolim para as realizações que almejava. Imaginar era dar forma ao que encontraria, e em breve, caso tivesse sorte. Imaginou-se longe, geograficamente distante dos lugares que lhe pareciam comuns e esgotados de atrativos.

Nos seus devaneios, haveria sempre a novidade para pincelar alegrias em dias cinza e para corar as faces pálidas da mesmice. O mundo, muito bem entendido com o futuro, prometia-lhe uma gama de grandes acontecimentos. Nada ostentoso, apenas novo e diverso, e indiscreto, como se a festa começasse sem direito ao fim.

Imaginou-se realizando projetos, intervindo a favor dos menos privilegiados, incorporando ao seu currículo a faceta humanista que sempre lhe coube tão bem. Em breve, viraria o mundo ao avesso, e neste avesso ajudaria a muitos a se tornarem, como ela, pessoas dignas de receberem o melhor da vida.

Enquanto pensava a vida que teria, anotava tudo, e nesta lista, no topo dela, estava o desejo por ter alguém em sua vida que lhe desse oportunidade de se apresentar, porque pessoa feito ela leva tempo para se mostrar sem medo de ser mal interpretada. E para se cultivar amor por ela, seria necessário um tempo que a euforia dos amantes sempre lhe negava.

Imaginou-se cercada por afetos, uma casa iluminada e grande, capaz de receber aqueles que, por intervenção da vida, seriam a sua família, o porto dos seus pensamentos mais importantes. Imaginou-se educando os seus filhos, ensinando-lhes a compreensão e como lidar com os mistérios da fé.

Mas quem não sabe do desfecho para quem imaginou tudo, inclusive as surpresas? E se deu conta, tarde da vida, que apenas esperou pelo que viria. E não observou a lua em noites de festa, tampouco saiu de casa para aprender a individualidade. Manteve-se estacada neste querer imprudente, que construiu em seu dentro um universo incapaz de realmente existir na realidade.

Porque é preciso o primeiro passo para mudar a geografia, e quem não sabe o quanto é trabalhoso cultivar felicidade, companhia? Também é preciso dedicação para fazer valer a própria humanidade como ferramenta de ajuda ao outro, e coragem para permitir-se conhecer, apesar do risco de ser magoado.

Imaginar-se é somente o prelúdio do construir-se.



carladias.com



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7 comentários:

Marisa Nascimento disse...

"Imaginar-se é somente o prelúdio do construir-se"
Ai!!! Adorei!!! Posso copiar para toda a vida??
Beijos

Carla Dias disse...

Marisa... É sua para copy/paste e para a vida toda : )

Kellynha disse...

Lindo texto, parabéns!

albir disse...

Viver dá trabalho, né Carla?
Ainda bem que imaginar é de graça, e vale a pena mesmo que não ultrapasse o prelúdio.

Cristiane disse...

Que música linda!!!

"o tempo foge sempre e leva a gente"...

Cristiane disse...

Carla, se a música é linda, mas o texto é fantástico!

"e quem não sabe o quanto é trabalhoso cultivar felicidade, companhia?"

Sim... ser feliz dá trabalho, muito, muito mais do que a tristeza.

Muito bom! Vou copiar e enviar a uma pessoa que vive neste ausente.

Um beijo.

Carla Dias disse...

Kellynha... Obrigada =)

Albir... Concordo! Beijo.

Cristiane... Adoro essa música! É linda mesmo. E obrigada pelo comentário sobre o meu texto =)
Espero que a pessoa sua que vive ausente tenha voltado a sua presença.