Pular para o conteúdo principal

JÁ FOI, NÃO VIU? >> Carla Dias >>

Imaginou-se em tantos lugares, quando imaginar ainda era trampolim para as realizações que almejava. Imaginar era dar forma ao que encontraria, e em breve, caso tivesse sorte. Imaginou-se longe, geograficamente distante dos lugares que lhe pareciam comuns e esgotados de atrativos.

Nos seus devaneios, haveria sempre a novidade para pincelar alegrias em dias cinza e para corar as faces pálidas da mesmice. O mundo, muito bem entendido com o futuro, prometia-lhe uma gama de grandes acontecimentos. Nada ostentoso, apenas novo e diverso, e indiscreto, como se a festa começasse sem direito ao fim.

Imaginou-se realizando projetos, intervindo a favor dos menos privilegiados, incorporando ao seu currículo a faceta humanista que sempre lhe coube tão bem. Em breve, viraria o mundo ao avesso, e neste avesso ajudaria a muitos a se tornarem, como ela, pessoas dignas de receberem o melhor da vida.

Enquanto pensava a vida que teria, anotava tudo, e nesta lista, no topo dela, estava o desejo por ter alguém em sua vida que lhe desse oportunidade de se apresentar, porque pessoa feito ela leva tempo para se mostrar sem medo de ser mal interpretada. E para se cultivar amor por ela, seria necessário um tempo que a euforia dos amantes sempre lhe negava.

Imaginou-se cercada por afetos, uma casa iluminada e grande, capaz de receber aqueles que, por intervenção da vida, seriam a sua família, o porto dos seus pensamentos mais importantes. Imaginou-se educando os seus filhos, ensinando-lhes a compreensão e como lidar com os mistérios da fé.

Mas quem não sabe do desfecho para quem imaginou tudo, inclusive as surpresas? E se deu conta, tarde da vida, que apenas esperou pelo que viria. E não observou a lua em noites de festa, tampouco saiu de casa para aprender a individualidade. Manteve-se estacada neste querer imprudente, que construiu em seu dentro um universo incapaz de realmente existir na realidade.

Porque é preciso o primeiro passo para mudar a geografia, e quem não sabe o quanto é trabalhoso cultivar felicidade, companhia? Também é preciso dedicação para fazer valer a própria humanidade como ferramenta de ajuda ao outro, e coragem para permitir-se conhecer, apesar do risco de ser magoado.

Imaginar-se é somente o prelúdio do construir-se.



carladias.com

Comentários

"Imaginar-se é somente o prelúdio do construir-se"
Ai!!! Adorei!!! Posso copiar para toda a vida??
Beijos
Carla Dias disse…
Marisa... É sua para copy/paste e para a vida toda : )
Kellynha disse…
Lindo texto, parabéns!
albir disse…
Viver dá trabalho, né Carla?
Ainda bem que imaginar é de graça, e vale a pena mesmo que não ultrapasse o prelúdio.
Cristiane disse…
Que música linda!!!

"o tempo foge sempre e leva a gente"...
Cristiane disse…
Carla, se a música é linda, mas o texto é fantástico!

"e quem não sabe o quanto é trabalhoso cultivar felicidade, companhia?"

Sim... ser feliz dá trabalho, muito, muito mais do que a tristeza.

Muito bom! Vou copiar e enviar a uma pessoa que vive neste ausente.

Um beijo.
Carla Dias disse…
Kellynha... Obrigada =)

Albir... Concordo! Beijo.

Cristiane... Adoro essa música! É linda mesmo. E obrigada pelo comentário sobre o meu texto =)
Espero que a pessoa sua que vive ausente tenha voltado a sua presença.

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …