segunda-feira, 21 de novembro de 2011

VIVI DOS PALMARES >> Albir José Inácio da Silva

- Hidratação e massagem – disse Viviane.

Com muito catálogo e pouco argumento o cabeleireiro insistiu, apregoando os milagres que sabia fazer:

- Por que não um relaxamento? Não é alisar, é só alargar os cachos, as mechas, as... as...

- ... as molinhas – completou Viviane, rindo e lembrando das humilhações de toda uma vida.

E como doíam! Em casa as coisas não eram melhores: “Fulaninha tem um cabelo tão bom que nem segura grampo”, diziam da filha da vizinha. Cabelo bom e cabelo ruim, essa a lógica. O dela era ruim.

Mas não era só o cabelo. Olhos lindos eram olhos “como o céu” ou “como o mar”. Quanta inveja! Os dela eram apenas olhos, “que às vezes enxergavam demais”, ralhavam os adultos.

Quantas vezes se sonhou loirinha e de olhos azuis? Pela manhã o espelho a mandava pra escola com dor no coração. E era lá que a dor aumentava.

- Suas molinhas estão caindo no caderno – riam todos. Riam até os de cabelo “ruim”, espantava-se Vivi.

Dos colegas ouvia também explicações, que diziam bíblicas, para a sua cor: maldição divina imposta a Caim, marca do pecado. Indefensável a sua pele. E não só a pele, a religião de seus pais também era coisa do diabo. Não havia salvação.

Na adolescência até os elogios machucavam:

- É preta “mas” é gostosa! – diziam. E ela se perguntava: por que não preta “e” gostosa?

Eram essas as suas dores e ela sentia culpa. O que significavam tais bobagens diante do chicote nos antepassados, dos estupros das avós pelos senhores, dos filhos vendidos para outras fazendas, das prisões arbitrárias, do subemprego, do analfabetismo? O que eram suas questões estéticas comparadas com tanto sofrimento e humilhação por séculos?

Olhou-se no espelho. Agora gostava de olhar. Lábios generosos e sensuais de fazer inveja às bocas que antes a chamavam de beiçuda. A pele de ébano não era maldição divina, era presente. E a carapinha, identidade de sua raça. Sorriu para o espelho com a perfeição de seus dentes e lembrou-se de quando diziam que eles eram a única coisa nela visível à noite.

Agora se gosta. Sua notas não devem nada aos alunos que vieram dos colégios caros. Foi um longo caminho até o orgulho e a dignidade. Muito sofrimento, muitos livros emprestados, muita reflexão.

Hoje não tem problemas com cabelos alisados ou lentes coloridas. Vê beleza no espelho, mas também nos outros estilos. Qualquer dia até experimenta umas mudanças. Mas hoje não. Hoje é vinte de novembro.

E Viviane repete mais alto que o necessário para os tímpanos sensíveis do insistente mas delicado coiffeur:

- Hidratação e massagem... só!

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7 comentários:

whisner disse...

Albir, bela homenagem ao Dia da Consciência Negra. Parabéns pelo texto. Infelizmente ainda hoje ouço o termo "cabelo ruim". É o mito da democracia racial. Abraço!

RafaelAlves disse...

http://cronicando-cronicas.blogspot.com/

Marisa Nascimento disse...

Albir, não há muito o que dizer sobre esse texto. Tudo o que eu disser não será suficiente para exprimir tamanha delicadeza e força nas suas palavras. Acho que tudo se resume no que senti quando li: orgulho de conhecer um escritor e amigo como você!

Marilza disse...

Belissimo texto Albir...

Zoraya disse...

Esse texto parece um confeito, de tao delicado. E Vivi se encontrou sendo quem é, uma liçao para todas as mulheres, brancas, negras ou o que seja, que insistem em querer se enquadrar em absurdos padrões de beleza, muitas vezes ditados por preconceitos ainda mais absurdos. Aliás, absurda mesmo é a sua sensibilidade, Albir!

Carla Dias disse...

Albir, eu e o meu cabelo ruim agradecemos a sutileza do seu texto. Beijos!

albir disse...

Whisner,
é a democracia sem povo, né?

Marisa,
orgulhosos estamos os cronistas de conhecer você pessoalmente.

Marilza,
generosa como a garoa de Sampa!

Zoraya,
Vivi aprendeu a duras penas, né? Mas valeu a pena. Agora eu acho que ela tem muito que ensinar. Beijo!

Carla,
nada ruim pode ornar uma cabeça tão boa. Beijos.