quarta-feira, 16 de novembro de 2011

SONHO RECORRENTE >> Carla Dias >>

Eu tenho um sonho recorrente. Você também tem?

Meu sonho recorrente parece novela, por isso os atores mudam de figurino, vez ou outra, assim como de cenário, mas não saem do tema, não trocam de trajetória. Ele se desenrola e não liga de durar muito, mas então vem a pegadinha. É justamente um pouquinho antes do desfecho que eu acordo.

Meu sonho recorrente não tem fim. Neste ponto, não parece em nada com novela.

Acho que ele acompanha o progresso, porque teve a versão vintage, quando as ruas pelas quais eu tinha de caminhar, durante horas, pareciam as de mil novecentos e nada. E aconteceu o dia em que ele assumiu um quê Matrix, com prédios altíssimos e espelhados, quase tudo preto ou metálico.

Tenho certeza de que o meu sonho recorrente tem seus momentos bipolares.

O momento Stephen King do meu sonho recorrente esta na cena 432 – exterior, noite... noite bem, bem escura - avenida desconhecida. Ação: personagem corre, e muito! Se na minha realidade eu caminho tão pouco, neste sonho eu pareço maratonista. Corro para chegar lá, perco o fôlego, pego ônibus, então desço do ônibus, corro por ruas estreitas de um lugar definitivamente perigoso, paro para olhar um jardim, chego à beira de uma praia e fico morrendo de vontade de colocar os pés na água, mas a praia se afasta quando eu tento. Subo em outro ônibus, que me leva para um lugar que não faço a menor ideia de onde fica. Pergunto ao cobrador se ele conhece a rua piiiiiiiiiiiiiiiiiiiii, e ele diz que piiiiiiiiiiiiiiiiiiiii, e, desesperada, desço do ônibus, pergunto às pessoas que estão no ponto se elas piiiiiiiiiiiiiiiiiiiii, e eu morrendo de medo de perder a hora, escuto um monte de piiiiiiiiiiiiiiiiiiiii.

Duro é não saber que hora é essa que me dá medo de perder, tampouco o que há de pornográfico em uma cena de sonho recorrente de meter medo! O piiiiiiiiiiiiiiiiiiiii é definitivamente assustador e nada erótico.

Certa vez, meu sonho recorrente deixou de ser recorrente por alguns minutos, depois voltou ao padrão. Estava tudo igualzinho, exceto que, na cena 625 – interior, dia bem claro - casa em ruínas - lugar que não sei onde. Aparece essa menina, de uns dez anos de idade, carinha boa que só. Estou sentada em uma cadeira, no meio do cômodo vazio, e ela se aproxima e cochicha no meu ouvido, a voz miúda, preciso ir ao banheiro.

Eu acordei, levantei-me, fui ao banheiro, deitei-me e o sonho continuou de onde parou. Desta vez, sem interrupções.

Meu sonho recorrente também me oferece momentos dos que Manoel de Barros sabe dizer tão bem em suas poesias. Eles são breves, porém poderosos. A sensação de plenitude que oferecem me faz sentir um prazer imenso. E logo eu volto às avenidas, aos ônibus, às águas intocáveis, e por aí vai.

O cenas do próximo capítulo do meu sonho recorrente - que não tem final, então o final tem de ser o continua... que nunca continua – acontece lá pela cena 853 – interior, noite fria de um tudo - corredores escuros que só da estação de trem. Completamente ensandecida pelo medo de perder o trem que me levará até lá... Lembram do “lá”? Enfim, eu corro pelos corredores e então subo, e subo, e subo escadas e mais escadas, esbarrando nas pessoas que não estão apressadas como eu. Tenho de chegar à plataforma, mas parece que isso nunca vai acontecer, até que chego ao fim da escada e olho para baixo. A plataforma está vazia, não há uma alma viva na estação, que parece estar abandonada há séculos.

Preciso de um leitor, interpretador, consultor, de qualquer um que consiga dizer aonde esse meu sonho recorrente quer me levar, onde fica este “lá”. Quem sabe assim eu consiga dormir e sonhar um sonhinho básico: cena 1 – interior, qualquer hora do dia - sala da minha casa. Ação: Dave Matthews tocando violão e cantando “Jimi Thing” para uma plateia formada apenas por mim e os meus amigos.

E se este se tornar o meu sonho recorrente pós Prozac, quem sabe ganho um show completo, ao invés de apenas uma música. E quase no final dele, um bis.


carladias.com




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3 comentários:

fernanda disse...

Se cineasta eu fosse, comprava os direitos do seu sonho recorrente. Sensacional!

albir disse...

Carla,
seu sonho recorrente vai muito bem assim, não interpretado e sem que saibamos, sonhadora e leitor, onde fica o lá.

Carla Dias disse...

Fernanda!!!!! Sonho recorrente se transformar em longa metragem é demais : )

Albir... Cada um tem o sonho que lhe cabe, não?