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LETRAS E DEVANEIOS
>> Albir José Inácio da Silva

Pergunta recorrente que nunca consegui responder nem pra mim mesmo. Quando comecei a escrever? De onde vêm as palavras que me dão as mãos para celebrar idéias e contar histórias?

Procurei nas aulas primeiras, no tremor do lápis que juntava letras em sílabas e sílabas em palavras. Palavras copiadas, mas não sentidas; frases repetidas, mas não imaginadas. Não, não estava aí o meu texto.

Não estava no sofrimento das redações a serem corrigidas por alguém que encontraria muitos erros. Nem quando parei de sofrer e até gostei de colocar no papel algumas sequências de palavras.

Depois me vi recebendo elogios por composições bem elaboradas e fiquei satisfeito com os resultados. Mas suspeito que gostava dos elogios, não de escrever. Embora festivo, esse momento também não serve de começo.

Nos trabalhos acadêmicos usei o método, a precisão e a feiúra, mas a minha escrita ainda não estava lá.

Finalmente chego num tempo em que já escrevo. Tudo começa num devaneio, às vezes involuntário, mas que pode ser provocado. Segue-se um estado de graça, um momento de excitação confusa, e a necessidade de organizar pensamentos que se atropelam e exigem cuidados, sob pena de angústia, até que estejam pacificados no papel.

Só então me lembro que os devaneios começaram bem antes. Ainda não conhecia as letras nem as sílabas. Só sabia das palavras – poucas mas boas – que se juntavam pra formar histórias. Histórias tão queridas mas que não bastavam, e eu ficava imaginando possíveis mudanças. Estava ali a minha escrita. No espanto dos adultos com aquela obstinação em alterar destinos antes sempre repetidos com fidelidade.

- Assim já fica outra história – diziam.

Sim, eram outras, mas eram histórias. Lá estavam os meus textos muito antes de serem escritos. Muito antes de eu saber que os poderia escrever.

Comentários

Bela recuperação de memória, Albir!
Albir!
Sei que eu estava com muitas saudades dos seus escritos! Se eles estavam escondidos em algum lugar dentro de você antes mesmo de serem escritos, agora eles vivem na memória de seus leitores. Que bom! :)
Bjs
Claudia Letti disse…
Albir, bom mesmo, além de ler você, é saber de você bem e aqui. :) Beijo grande!
fernanda disse…
Sorte a nossa que essas outras histórias viraram escritos :)
Carla Dias disse…
Tá aí um momento que a gente reconhece na revelação de tantos outros. Quando pensamos que acabamos de começar, já estamos lá há algum tempo. Beijo!
Zoraya Cesar disse…
Quem tem algo a dizer, tem a obrigação de dividir com os outros. Faça o favor de não nos privar dos seus textos por tanto tempo! Que bom te ver aqui de novo. E de novo, e de novo...
albir disse…
Obrigado, Edu. A memória é um celeiro, né?

Doce Marisa, eu também estava com saudades de aparecer por aqui.

Cláudia, professora, obrigado e beijos.

Fernanda, obrigado. Sorte minha compartilhar com vocês este espaço.

Beijo, Carla. Verdade, o começo é sempre antes que imaginamos.

Obrigado, Zoraya. Pretendo sempre voltar. Beijo.

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