sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

ANDANTE PASSIONATE >> Leonardo Marona

Desde que nos conhecemos, comendo coelhos nanicos, ele sempre teve imensas dificuldades em regurgitar os pêlos. Precisava de um pouco de entorpecimento para amar. Beber, fumar, engolir pílulas. Qualquer coisa que lhe pudesse ocupar a parte que diz que estamos enganados e cegos. Que plagia chantagens. Nunca lhe foi natural isso de que sempre se fala, isso que insisto em admitir quando alguém toca no assunto, que é preciso, que é urgente, que é a vida que se esvazia senão, que sem não dá.

A paisagem era um coração enregelado e murcho, insistente. Eu entendia aquilo, por dentro e por fora, mas não poderia descrever jamais, não seria justo, seria traição a uma hipocondria fiel. A cidade pedia menos, bem menos, e ele queria muito, só não sabia como pedir, e isso me deixava nervosa, pensando: amigo, você não é poeta. E, afinal, nada ali me lembrava Mário de Andrade, como quando, nunca tendo estado ali, ele me falava em Mário de Andrade sempre que pensava na cidade. Eu sorria, sim, sorria, mesmo que nada me lembrasse Mário de Andrade ali. Pobre Mário, atrás de amor na Praça Roosevelt.

E no fundo estamos, os vivos, sempre atrás de amor. Não encontramos o amor de que precisamos, porque ele é do tamanho de tudo e somos nada, uma carne exposta mal-falada. E porque não achamos tudo, e somos nada, cheguei à inevitável conclusão de que inventávamos um amor incompleto para nos assegurar de um engano consentido. Esse das novelas dubladas fora de sincronia e dos laudos médicos. Mas eu, sendo nada, pelo menos agora sabia exatamente do que precisava. Eu precisava de tudo.

Sempre nos dávamos um longo abraço, sem jeito ele beijava os meus cabelos, tentando afastá-los desastradamente da orelha. Eu dava risadinhas e olhava para ele um pouco de lado, assim de longe, com as mãos na cintura, então mordia os lábios. Eu não tinha olhos de gato, mas pensava que tinha. E muitas vezes ele viu em mim olhos de gato, de tanto eu pensar, disso tenho certeza. Olhos de gato são olhos que fazem você nunca saber. Toda a cena era muito delicada, destoante da paisagem granulada, e nós sabíamos que ela nunca existiria fora dali. Isso o entristeceu de forma surpreendente. A mim me fez contar pequenas mentiras inofensivas.

Eu não havia feito as unhas e foi com vergonha, foi com vergonha e delicadeza que ele desviou os olhos. Sorriu e entrou tirando o casaco – sempre imitava algum personagem de algum filme quando tinha as mãos úmidas. Olhava para as paredes, tentando me fazer pensar que se interessaria por algum objeto da mobília.

Eu lhe disse que ele estava escrevendo feito mulherzinha. Ele ficou constrangido – sei que não posso com gim - mas sempre aqueles dentes separados e aquela espera silenciosa... Então sorriu, virou-se de lado e disse que era porque vinha lendo Clarice Lispector. Eu nunca consegui ler essa mulher. Sempre disse a ele que não podia com ela, que me fazia mal, bruxaria. Ele nunca entendeu aquilo mas, feito bobo, sorria porque lembrava da sua mãe. Talvez quisesse me avisar de algo.

Mas finjamos que tocava Chet Baker. Finjamos que era um encontro marcado depois de dez, quinze, quanto tempo? Movíamos os membros de forma semelhante, corações sincopados, os olhos inflamados procuravam adjetivos.

Resolvemos sair, dar uma volta, respirar o ar poluído. Eu estava gripada, mas disposta, não estava exatamente de bom-humor.

- Antes – eu disse – preciso vestir uma roupa.

Eu já estava perfeitamente arrumada: blusão de lã colorido e polainas. Sempre tive os pés grandes, as pernas finas e a bunda rígida. Ele pensava nisso quando eu fui até o banheiro, tenho certeza que pensava. Pensava com uma exatidão que o assustava e o deixava tenso. Que o fazia folhear livros sem ler e devolvê-los à estante.

Apareci de volta com uma calça jeans apertada e uma espécie de blusa de chita violeta. Dei a blusa na mão dele e perguntei como estava o cheiro.

- Um cheiro terrível – ele disse.

Então eu pedi que ele se virasse e vesti a blusa. Levantei os cabelos – eram os cabelos que mais lhe chamavam atenção em todas as mulheres que já havia conhecido, mas ele nunca me disse nada, e mesmo assim eu sabia. Certamente ele pensava como foi horrível quando eu cortei a franja, enquanto me dava o laço na blusa de chita. Eu me virei e perguntei: “que tal?” Ele disse que o cheiro estava realmente insuportável. Eu disse com certo orgulho que tinha usado a blusa por três dias seguidos. No final desisti da blusa, quando ele disse que não sairia comigo daquele jeito. Estávamos nos divertindo como crianças.

Depois então eu soltei os cabelos e apareci com um camisão de seda preto, desses de gola larga caindo no ombro, que tias velhas sedutoras usam nos velórios precipitados. Vestia também uma outra calça, de veludo: linda calça de veludo. Ele disse que eu estava parecendo a Patti Smith. Eu gostei.

Vesti sapatos de salto azuis, depois sapatos pretos, depois botas texanas, fiquei descalça – as unhas órfãs – então vesti um tênis. Ele esperava vendo fotos de pessoas desconhecidas que tentavam parecer pessoas familiares. Então eu tirei o tênis, tirei a calça de veludo, ele disse: “é linda a calça de veludo”.

Saí do banheiro com uma calça jeans escura, vesti de novo o tênis, usava agora uma camisa branca. Ele me disse para vestir outra vez a calça de veludo: linda calça de veludo.

Eu disse para ele não me pressionar. Abri o armário e ele viu um terno de lã xadrez bem surrado e disse: “você deveria ir com a calça de veludo preta e o terno xadrez, descalça”. Estalei a língua no céu da boca e ele se calou. Ríamos por dentro e por fora estávamos vazios. Vazios não, tímidos. Com quem mais eu poderia conversar sobre calças de veludo e ternos afinal? - eu pensava enquanto descíamos as escadas sem luz.

Subindo pela perimetral. Reparei que por todos os lados havia cemitérios. Cemitérios lotados, ele me disse, onde não cabia mais ninguém

- E onde enterram os mortos? - eu perguntei.

- Na periferia - ele disse vagamente.

Quem mais eu poderia deixar falar por último assim, deliberadamente? – eu pensei, mas não disse mais nada sobre os cemitérios lotados.

Havia, contudo, uma fileira com bancas de flores para os mortos. Eu lhe contei ofegante que o meu sonho romântico seria que alguém me trouxesse de carro, parasse o carro em fila dupla e fosse a uma dessas floriculturas me comprar flores. Falei isso de olhos baixos, vendada. Andávamos como velhos que já viram demais, entregues, os braços dados como na festa junina, eu pensei. Mas não disse mais nada sobre as flores da morte, porque nós dois tínhamos ainda muito para procurar juntos. Sim, juntos! Então pela primeira vez na noite – quem será a vagabunda, meu deus, quem? – deixei de sorrir e seguimos em silêncio.


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3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Léo, você também escreve muito bem feito mulherzinha. :)

leonardo marona disse...

ahahaha... então você sacou essa, né edu...

Anônimo disse...

ai ai ai.......come chocolates pequena suja come,olha que não há mais metafísica no mundo que chocolates!