Pular para o conteúdo principal

UGA, UGA >> Kika Coutinho

Eu não sei você, mas eu fui criada para ser uma pessoa inteligente, meio intelectualizada, educada, animal racional mesmo.

Passei a vida aprendendo que deveria trabalhar, estudar, ser educada com as pessoas, segurar arrotos, puns, raivas, gritos e nunca, nunca, palitar os dentes, por exemplo.

Cresci aprendendo a não gritar com os outros mesmo se estivesse louca de ódio, a não agir impulsivamente, a não grunhir, a falar baixo, a segurar o elevador para quem viesse chegando e a sorrir doce para o vizinho — mesmo sem vontade.

Embora sejamos animais, crescemos educados para sermos intelectuais e passamos a vida nos fantasiando de saltos altos, maquiagens, gravatas e outros adereços de gente inteligente.

Só que um dia ficamos grávidas e, logo, descobrimos que somos macacas. Exatamente, somos macacas de brincos e batom.

Quando o neném nasce, piora e a gente se sente vaca. Não naquele sentido pejorativo, não. Nos sentimos vacas rainhas, deusas vacas, como se fôssemos vacas na Índia. Mas, ainda assim, é estranho passar os dias a alimentar seu pequeno bezerro e acreditar que a vida, tal qual conhecemos, continua.

Continua nada! A vida humana acabou e nós entramos no reino animal. O cabelo penteado deixa de ter importância, os batons passam a ser acessório de outra pessoa — uma macaca que ainda não sabe que é macaca — e a vida passa a ser como numa floresta: engatinhamos até o nosso filhote, damos o peito, ninamos, limpamos o cocô dele (para que ele pense que é humano também), dormimos um pouco, bem pouco, e nos alimentamos com frutas e verduras — se estiverem brotando no chão de nossa casa, pegaremos com as mãos e assim comeremos.

Viramos instinto puro e é o nosso instinto de mamífero que nos diz por que chora essa nossa cria, por que grita e do que é esse grunhido que ela emite.

Mal consigo me lembrar do dia em que eu usava excel, sabia a cotação do dólar, passava blush e rímel.

Eu não sei você, mas eu virei bicho. Assumo que sou um espécime menos evoluído que o humano, uma macaca de 1.65m que veio aqui nesse mundo para parir, criar seus filhotes e, assim, preservar a espécie. Todo o resto, todo o resto que me ensinaram a vida toda, é mentira pura. Uga, uga!

Comentários

C. S. Muhammad disse…
Hahaha! Deixe estar que daqui há uns 12 meses você vai voltar a pensar e agir como (se fosse)homo sapiens again!:)
Muito boa...
Me senti uma vaca... e uma macaca... rs
Anônimo disse…
Fantastico!!:)
Cristiane disse…
Esta eu adorei! Aliás, gosto de todas, mas de algumas gosto mais que as outras :D

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …