sábado, 30 de janeiro de 2010

O RELÓGIO [Debora Bottcher]

O relógio de pulso estava parado. Às nove horas, um minuto e treze segundos do dia sete, ele estancara no tempo.

Ela nunca saberia se da manhã ou da noite ou mesmo de que mês. Não notara. Desacostumada a horários, nunca se guiava por seus próprios relógios. Às vezes, até se surpreendia de que já era hora do almoço, de ir para casa, tão tarde e ainda não adormecera, tão cedo e já estava acordada... Quase nunca se atrasava, mas era guiada por um sinal interno, qualquer coisa como a posição do sol ou o brilho da lua...

Mas o relógio, de desconhecido valor - já que nunca vira outro igual em nenhum lugar -, a acompanhava por todos os cantos do mundo, onde quer que andasse. Gostava dele...

Agora, na penumbra do quarto, olhava-o sobre a mesinha da cabeceira... Era domingo. No dia anterior percebera que ele não mais funcionava. Alcançou o telefone e ouviu a telefonista digital informar: “sete horas e quarenta e dois minutos”... Ela chegara em casa no meio da madrugada e quase não acreditou que dormira tão pouco.

Continuou olhando o relógio, quieto sobre a madeira escura, silencioso, ponteiros inertes, despreocupado.

Lembrou-se do dia em que ele viera para ela. Era um dia comum... Nenhuma data especial para ganhar um presente. Não se tratava de nenhuma comemoração e nada havia na expressão do momento que justificasse o gesto de alguém chegar trazendo nas mãos uma caixinha de veludo branco, pequena e delicada.

Mas lá estava ela, a mesa repleta de papéis espalhados, os telefones tocando, a confusão geral de uma manhã - ou será que era à tarde? - tumultuada de compromissos sempre inadiáveis, a bagunça extraordinária que conseguia fazer com suas responsabilidades, quando, no meio do caos, viu a porta de sua sala abrir-se e o rapaz que a recepcionista anunciara como alguém com uma encomenda para ela, entrou e sorriu.

Pediu que assinasse o formulário que descansou à sua frente e colocou sobre a mesa de vidro o embrulhinho. Rabiscou seu nome, agradeceu-lhe devolvendo o sorriso e ele se foi.

Ela tinha uma reunião e, apressada, pegou rapidamente as pastas que necessitava e saiu deixando esquecido algo que não lhe chamara a atenção e, portanto, não era importante, podia esperar...

O escuro se espreitava pelas brechas quando ela voltou, exausta e aborrecida. Pousou sobre a mesa o copo de água que segurava e começou a arrumar a papelada que se comprimia no espaço de sua organização.

Foi então que esbarrou na caixinha, derrubando-a no chão. Abaixou-se e pegou-a. Por um relâmpago de luz que piscou em sua memória, refez o instante em que tal objeto fora deixado ali.

Observou-a fechada em suas mãos, parecendo estranhamente hipnotizada, uma energia oculta tomando conta do lugar, um frio repentino pairando na ausência de barulhos de uma empresa vazia.

Colocou-a sobre o vidro e recostou-se na cadeira, quase querendo tomar distância, como se estivesse diante de um perigo iminente.

Olhou a escuridão através das persianas imaginando que horas seriam... Respirou fundo e, parecendo possuidora de uma coragem sobre humana, moveu o fecho dourado levantando vagarosamente a pequena peça movediça.

E lá estava, olhando para ela, o relógio. Um relógio prateado que anunciava a meia noite. O ar pareceu faltar por um instante, ela descompreendeu o significado de tudo, alegria e susto palpitando sua alma.

Tirou-o de seu conforto e segurou-o delicadamente junto ao peito, um tesouro descoberto no deserto, um mistério além da sua imaginação. Nenhuma identificação, nenhum bilhete...

Levantou-se, temerosa e estremecida, apoiando-se na janela para divisar o início da madrugada, perdida em suas luzes e sons.

Em cada facho de iluminação que entreviu tentou adivinhar em que ponto da cidade se escondia quem lhe enviara um marcador de tempo.

E foi sem surpresa que deu-se conta de que, naquela manhã, já se iam cinco anos desde então e ela ainda não descobrira...

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3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Bela história, Debora! Merece até uma continuação. :)

Debora Bottcher disse...

Ah! Eduardo... Vc podia continuar, né? Eu só conheço o começo das histórias, pois pra mim elas são sempre sem fim... :)
Beijo. Sempre obrigada pelo carinho.

Carla Dias disse...

Sempre bom te ler, Deborah. Beijos de cá!